
PEGANDO FOGO!

MEG CABOT


Contra - Capa
Katie Ellison  uma mentirosa de mo-cheia e ainda por cima guarda um grande segredo sobre seu antigo melhor amigo, Tommy, que, quatro anos antes, criou um srio
tumulto e acabou saindo da cidade. Agora, ele est de volta, e Katie vai ter que decidir se prefere continuar com as mentiras para manter as aparncias, ou se finalmente
vai abrir a boca e aceitar que as coisas nunca mais sero como antes.
Abas
Katie Ellison no  mentirosa.  s que falar a verdade  to... complicado. Ela sabe que no deveria estar beijando o gato do grupo teatral da escola escondida
do seu  namorado, um jogador do time de futebol americano do colgio. Ela deveria admitir que odeia comer quahogs, um tipo de ostra muito apreciado por todos em
Eastport, principalmente porque est concorrendo ao ttulo de Princesa Quahog no festival anual da cidade. E com certeza seria um alvio finalmente contar a algum
o que realmente aconteceu quando a frase Tommy Sullivan  um esquisito foi pichada no muro recm-construdo do ginsio da escola, em tinta cor-de-laranja florescente,
que at hoje ningum conseguiu retirar. Afinal, todo mundo sabe por que Tommy teve que sair da cidade quatro anos atrs...
Mas agora Tommy Sullivan est de volta. Katie tem certeza de que ele quer vingana, e ela far qualquer coisa para manter sua vida perfeita (ainda que levemente
desonesta). Mesmo que isso signifique contar mais mentiras do que nunca. Ainda que, com Tommy por perto outra vez, ela esteja, na verdade, se divertindo muito.
Em PEGANDO FOGO!, Meg Cabot mais uma vez acerta em cheio. Com muito bom humor, a autora mistura romance e pitadas de mistrio em uma histria sobre pequenas e grandes
mentiras, o medo de fazer o que  certo e as dificuldades de encontrar o verdadeiro amor.
Sobre a autora:
Meg Cabot j morou em Indiana, na Califrnia e na Frana. Trabalhou como ilustradora e usou o pseudnimo Jenny Carroll para escrever a srie A Mediadora.  autora
da srie O Dirio da Princesa e de livros como Sorte ou azar? e Como ser popular, todos publicados pela Galera Record. Atualmente divide seu tempo entre Key West,
na Flrida, e Nova York, com seu marido e uma gata de um olho s chamada Henrietta.
Para Benjamin
Um
- Ah, meu Deus, o que ela est fazendo aqui? - ouvi minha melhor amiga, Sidney van der Hoff, perguntando quando cheguei na mesa do canto para entregar os cardpios.
Sidney no falava de mim. Ela estava olhando para algum em outra mesa.
Mas eu no estava preocupada em olhar e descobrir sobre quem ela estava falando, j que meu namorado, Seth, estava sentado ao lado dela, sorrindo para mim... aquele
sorriso que tem feito as meninas derreterem por dentro desde mais ou menos o sexto ano, quando todas ns comeamos a notar seus dentes brancos e alinhados, e seus
lbios altamente beijveis. Ainda fico boba por, de todas as meninas na escola, ser aquela que ele escolheu para beijar com aqueles lbios.
- Ei, baby - disse Seth para mim, piscando seus clios longos e sensuais, os mesmos sobre os quais eu ouvi minha me falando ao telefone para a me da Sidney que
eram um total desperdcio num garoto. Ele passou um brao ao redor da minha cintura e me abraou.
- Oi - falei um pouco sem flego. No apenas por causa do abrao, mas porque eu tinha uma mesa de 12 pessoas (a festa de aniversrio de 97 anos da sra. Hogarth)
que estava me deixando exausta de tanto encher copos de iced tea e essas coisas, ento eu j estava um pouco ofegante. - Como foi o filme?
- Chato - respondeu Sidney por todos. - Voc no perdeu nada. Lindsay devia continuar ruiva; ser loura no  para ela. Mas srio. O que Morgan Castle est fazendo
aqui? - disse Sidney, usando o cardpio que eu tinha acabado de entregar a ela para apontar para uma mesa na rea de Shaniqua. - Porque, olha, ela tem muita coragem.
Eu comecei a dizer que Sidney estava errada. De forma alguma Morgan Castle ia ser vista no Gull'n Gulp. Especialmente no auge da temporada de vero, quando a casa
ficava lotada. Quem mora aqui, como Morgan, sabe que no adianta nem tentar chegar perto do Gull'n Gulp na alta temporada. Pelo menos, no sem uma reserva. Se voc
no tem uma reserva - mesmo numa tera  noite, como hoje - durante a alta temporada, pode se preparar para esperar pelo menos uma hora por uma mesa... duas horas
em fins de semana. No que os turistas paream se importar. Isso porque Jill, a recepcionista, d a eles um daqueles beepers gigantes que voc no pode botar no
bolso e levar embora por engano, e diz que vai avisar quando vagar uma mesa. Vocs ficariam surpresos ao saber como as pessoas levam isso numa boa. Acho que eles
devem estar acostumados com isso, com os TGI Fridays e Cheesecake Factories nas cidades deles, ou o que seja. Eles apenas pegam o beeper e passam a hora de espera
andando pelo per. Eles olham por cima dos corrimos para as percas nadando nas guas lmpidas ("Olha, mame!" alguma criana sempre grita, "Tubares!"), e s vezes
vo at a parte histrica de Old Towne Eastport, com suas ruas de paraleleppedos e lojas de souvenirs, depois voltam e olham para dentro dos iates e vem os turistas
assistindo TV a cabo e bebendo suas gin-tnicas.
Ento o beeper toca, e eles vm correndo para a mesa.
Algumas vezes, enquanto Jill os est levando para uma mesa na minha rea, escuto um turista dizer, apontando para a mesa no canto:
- Por que no podemos nos sentar ALI?
Jill sempre fala:
- Ah, desculpe. Est reservada.
S que  uma grande mentira. A mesa no est reservada. Bem, no tecnicamente. Ns apenas a deixamos livre toda noite para o caso de algum VIP aparecer. No que
Eastport, Connecticut, receba muitos VIPs. Ou, tudo bem, alguns. s vezes, entre o almoo e o jantar, quando tudo se acalma, Jill, Shaniqua e eu nos sentamos e fantasiamos
sobre o que faramos se uma celebridade DE VERDADE entrasse no restaurante, como Chad Michael Murray (apesar de a gente ter deixado de gostar dele um pouco desde
seu divrcio) ou Jared Padalecki, ou mesmo o prncipe William (nunca se sabe. Ele pode ter se perdido com seu iate ou algo assim).
A loucura  que, mesmo se por um acaso do destino um verdadeiro VIP como esses aparecesse no Gull'n Gulp, ele no se sentaria na mesa VIP. Porque em Eastport, Connecticut,
ou nicos VIPs de verdade so os Quahogs.
E  para eles que a mesa do canto est sempre reservada... para qualquer Quahog que, por qualquer razo, no tenha feito uma reserva no Gull'n Gulp durante a alta
temporada e precise de uma mesa.
Chocante, mas  verdade: sempre tem um turista que entra no restaurante que nunca ouviu falar de um quahog. Peggy, a gerente, teve que me chamar de lado no meu primeiro
dia de trabalho no Gulp, em junho do ano passado, quando um turista perguntou:
- O que  um quahog?
S que ele falou como se escreve, KWAH-hog, em vez de como deve ser pronunciado, que  KOH-hog.
E eu falei quase morrendo de rir:
- Voc no sabe o que  um QUAHOG???
Peggy me explicou, muito sria, que quahogs na verdade no so muito conhecidos fora do nordeste dos EUA, e que as pessoas do centro-oeste, por exemplo, provavelmente
nunca ouviram falar deles antes. Ela estava falando do marisco, claro. Porque  isso que um quahog : um tipo de molusco que, quando misturado numa panela com um
monte de batatas, cebolas, alho por,
creme de leite e farinha, se transforma na sopa mais vendida do Gull'n Gulp. Esse tipo de quahog  o que tornou Eastport conhecida, praticamente desde 100.
Agora, no entanto, nossa cidade  conhecida por um tipo de quahog totalmente diferente. Porque os Quahogs so tambm o time de futebol americano da Eastport High
School, que desde antes de eu nascer, h 1 anos, sempre
vence o campeonato estadual. Bem, exceto uma vez. Quando eu estava no nono ano. Mas ningum nunca fala daquele ano.
 difcil dizer de quais quahogs os residentes de nossa cidade tm mais orgulho, os mariscos ou o time. Se eu tivesse que adivinhar, diria que  do time.  fcil
no dar valor para um marisco - especialmente um que est por a h tanto tempo. Tem s uma dcada e meia que o time est nessa srie de vitrias.
E a memria de como foi NO ter o melhor time do estado ainda est fresca na mente de todos, j que afinal foi apenas quatro anos atrs que eles foram forados a
desistir da temporada.
 por isso que ningum na cidade questiona a mesa do canto. Mesmo se um local, por qualquer motivo, aparecesse no Gull'n Gulp durante a temporada de vero sem uma
reserva, no ia esperar se sentar na mesa vazia do canto. Aquela mesa  para Quahogs, e apenas Quahogs. E todos sabem disso.
Especialmente meu namorado, Seth Turner. Isso porque Seth, seguindo os passos do irmo mais velho, Jake Turner, duas vezes selecionado para o time de melhores do
estado,  o artilheiro dos Quahogs este ano. Seth, assim como o irmo, antes dele, ama a mesa do canto. Ele gosta de passar no Gull'n Gulp quando estou trabalhando
e ficar sentado at meu turno acabar, bebendo Coca grtis e comendo bolinhos de quahog (uma massa de farinha com pedaos de quahog, frita em leo quente, que se
mergulha num molho agridoce. Esse  o nico tipo de quahog que eu suporto comer, porque a massa disfara a textura
borrachuda do quahog, e o molho disfara a total falta de gosto. Eu no sou uma f de quahogs - dos mariscos, quero dizer. No que eu me atreva a dizer isso a algum.
(No quero ser expulsa da cidade).
Bom, mas, ento, quando meu turno acaba, Seth bota minha bicicleta na caamba do carro dele e a gente fica se beijando na cabine at minha hora de voltar para casa,
que   meia-noite no vero.
Ento, se voc quer saber minha opinio, a mesa do canto  uma coisa boa para todo mundo.
 claro que muitas vezes Seth no  o nico Quahog na mesa do canto. Algumas vezes seu irmo, Jake - que agora trabalha na construtora do pai -, vem junto.
Mas no hoje  noite. Hoje Seth trouxe o zagueiro Jamal Jarvis e sua namorada, Martha Wu, e tambm o capito do time, Dave Hollingsworth.
E, claro, aonde quer que Dave v, minha melhor amiga, Sidney van der Hoff, tem que ir junto, j que ela e Dave esto grudados o vero inteiro, desde que o ex-namorado
da Sidney - capito dos Quahogs no ano passado e melhor jogador do estado, Rick Stamford - se formou na primavera e mandou para ela uma mensagem de texto do tipo
"Querida Sidney", dizendo que precisava
do prprio espao e queria conhecer outras garotas quando ele fosse para a Universidade da Califrnia, no outono.
O que, se quer saber minha opinio, foi muito decente da parte dele. Ele poderia ter enrolado a Sidney o vero todo e ento dado o fora nela quando fosse para a
Califrnia - ou mesmo ir para l, ficar com outras garotas sem ela saber e voltar para o Dia de Ao de Graas e o Natal, esperando continuar as coisas de onde elas
pararam. No que, do outro lado do pas, Sidney fosse saber que Rick estava com a lngua enfiada na garganta de alguma
garota de fraternidade. Apesar de que  possvel - at mesmo fcil - sair
com outras pessoas sem seu namorado saber (ou qualquer outra pessoa) morando na mesma cidade. Mais fcil, por exemplo, que esconder o fato de que voc odeia quahogs
(o do tipo comestvel).
Estou s comentando.
Ento foi legal o Rick no enrolar a Sidney. Eu disse isso a ela na poca, apesar de aparentemente no t-la consolado muito. Sidney no se acalmou de verdade at
que descobriu que Dave terminou com Beth Ridley, porque ela o traiu com um gato australiano que conheceu enquanto trabalhava no barco do tio.
Ento Sidney convidou Dave para ir  casa dela e ficar se lamentando na sua Jacuzzi sobre os ex-namorados que no valiam nada. Dave nem tentou tirar a parte de cima
do biquni de Sidney, o que realmente a impressionou. Ento,  claro, ela ficou com ele.
Para uma cidade to pequena, muita coisa acontece em Eastport. Algumas vezes  difcil se manter informado. Como agora, por exemplo. Porque quando olhei para a mesa
de Morgan Castle e vi com quem ela estava, soube EXATAMENTE o que ela estava fazendo no Gull'n Gulp numa noite de tera-feira na alta temporada. Soube tambm que
eu no tinha tempo para o drama
que ia comear. Havia a mesa de 12 pessoas do aniversrio da sra. Hogarth para atender. Sidney no sabia daquilo - apesar de que, mesmo se soubesse, no teria ligado.
Eu sou a melhor amiga de Sidney van der Hoff, a garota mais popular da minha sala, desde o terceiro ano, quando a deixei colar de meu teste de ortografia.
Sidney estava um caco naquele dia por causa de sua gata, que tinha sido mandada para ser castrada. Sidney estava convencida de que Muffy no ia sobreviver.
Ento eu fiquei com pena e a deixei copiar minhas respostas. Muffy passou pela cirurgia sem problemas e cresceu at virar uma gata gorda, que eu acabei conhecendo
muito bem das freqentes festas do pijama que fui na casa de Sidney depois disso, j que ela no  o tipo de pessoa que esquece um ato de bondade.  isso que eu
amo na Sidney. Mas bem que eu poderia viver sem todo o drama.
- Ah, meu Deus, aquele  Eric Fluteley? - perguntou Sidney, olhando fixamente para a mesa de Morgan.
- Isso  ainda mais estranho. O que ELE est fazendo aqui? Esse no  o tipo de lugar que ele freqenta. Quer dizer, considerando que  improvvel que algum diretor
de elenco de Hollywood v aparecer aqui.
- Ei, Katie - disse Dave, ignorando o escndalo da namorada.
Esse era o comportamento tpico de Dave: ele  notoriamente tranqilo... uma daquelas pessoas que est sempre calma, no importa a situao - mesmo que seja Morgan
Castle e Eric Fluteley jantando juntos no Gull'n Gulp.  por isso que ele e Sidney formam um casal to bom. Ela  escandalosa e ele  todo tranqilo. Juntos, so
quase como uma pessoa normal.
- Como vai? Est cheio hoje, no? - continuou ele.
- Muito cheio - falei.
Ele no fazia idia. Uma famlia de, sei l, Ohio ou coisa parecida tinha vindo mais cedo e os pais deixaram os filhos correndo em volta do restaurante, atrapalhando
a Jill na entrada, jogando batatas fritas na gua (apesar de os cartazes no per dizerem muito claramente para NO ALIMENTAR PSSAROS OU PEIXES), entrando na frente
dos ajudantes enquanto eles carregavam bandejas enormes de pratos usados, gritando sem nenhuma razo, esse tipo de coisa.
Se meus irmos e eu tivssemos agido dessa forma em um restaurante, minha me teria nos colocado de castigo no carro.
Mas esses pais apenas sorriam como se achassem que seus filhos eram uma graa, mesmo quando um deles soprou leite em mim com um canudo.
E ento, depois daquilo tudo, eles deixaram uma gorjeta de apenas trs dlares. Pera. Voc sabe o que d para comprar em Eastport com trs dlares? Nada.
- Vou ser rpido, ento - disse David. - Quero uma Coca.
- Traz duas - disse Jamal.
- Trs - disse Seth, com outro de seus sorrisos de deixar as pernas bambas.
Dava para saber, pela forma como ele no conseguia parar de olhar para mim, que as coisas iam esquentar na cabine da caminhonete depois do trabalho. Eu sabia que
o meu top tinha sido uma boa idia, apesar de Peggy ser contra alas de suti aparecendo, e quase ter me feito voltar em casa para trocar - at que Jill a lembrou
de que ela prpria deixa as alas do suti aparecendo toda noite, e se no  problema para a hostess, por que seria para a garonete?
- Uma Coca light para mim, por favor, Katie - disse Martha.
- Para mim tambm - disse Sidney.
- Duas Cocas light, trs normais, e duas pores de bolinhos de quahog a caminho - disse, juntando os cardpios. Sempre adicionamos quahogs grtis para os Quahogs.
Porque  bom para os negcios ter os caras mais populares da cidade no estabelecimento.
- Volto em um minuto, gente.
Eu pisquei para o Seth, que piscou de volta. Ento corri para entregar os pedidos e pegar as bebidas. No pude evitar olhar na direo de Eric no caminho para o
bar - e o vi me encarando por cima da cabea de Morgan. Ele tinha aquele olhar - o mesmo de quando eu estava tirando suas fotos para ele usar nas inscries para
as faculdades, e as para o Quahog Gazette durante
aquela cena realmente intensa de Clube dos Cinco, que foi encenada na escola, na qual Bender fala sobre como seu pai o queimou por ter derramado tinta no cho da
garagem. Eric fez o papel de Bender, e dava para entender PERFEITAMENTE como Claire, a rainha do baile da escola, ficou caidinha por ele.
Eric  realmente talentoso. Eu no ficaria surpresa de v-lo no cinema algum dia. Ou em alguma srie de TV sobre mdicos sensveis mas destemidos, ou algo assim.
Ele j tem um agente e faz testes e tudo mais. Quase conseguiu um papel num comercial de margarina, mas foi vetado no ltimo minuto quando o diretor decidiu mudar
de idia e usar uma criana de 5 anos em seu lugar.
O que d para entender. Quer dizer, era margarina. Quo intenso voc quer que o cara parea num comercial desses? S que agora Eric estava me olhando de forma to
intensa que Morgan, que tentava conversar com ele, parou completamente e olhou em volta para ver o que ele estava olhando to fixamente. Rpido como um foguete,
eu me virei e me inclinei para perguntar  sra. Hogarth se ela gostaria de alguma coisa.
- Ah, no, Katie, querida - disse ela, com brilho nos olhos -, est tudo simplesmente adorvel. Larry, querido, voc se lembra de Katie Ellison, no lembra? A me
e o pai dela so donos da Ellison Properties, a corretora de
imveis da cidade.
O filho da sra. Hogarth, que estava em Eastport com a esposa (e alguns dos filhos dele e alguns dos filhos deles e mais alguns dos filhos dos filhos deles) para
levar a me e suas melhores amigas do asilo para comemorar seu aniversrio, sorriu:
-  mesmo?
- E Katie tira fotos para o jornal da escola - continuou a sra. Hogarth - e para o jornalzinho do nosso asilo.
Ela tirou aquela linda foto do Clube do Retalho. Lembra, Anne Marie?
- Eu pareo gorda na foto - disse a sra. O'Callahan,
que, por sinal,  gorda. Eu tentei tirar um pouco do excesso com o Photoshop, sabendo que ela ia acabar reclamando depois.
- Bem - disse eu super-animada -, esto todos prontos para a sobremesa?
- Ah, eu acho que sim - disse o filho da sra. Hogarth com uma piscadela.
Ele tinha passado mais cedo com um bolo da Strong's Bakery, que ns escondemos na cozinha e que eu devia trazer enquanto cantava "Parabns pra voc". Os Hogarth,
no entanto, tinham se esquecido das velas, ento eu corri
at a loja de cartes e comprei duas com o formato dos nmeros nove e sete. Eram velas para crianas, em forma de palhaos, mas eu sabia que a sra. Hogarth no ia
se importar com isso.
- Ah, nada para mim, obrigada - disse a sra.
Hogarth. - Eu estou satisfeita. Aquele prato estava delicioso!
- Volto em um instante para ver se algum quer caf, ento - falei, correndo at o bar para pegar os refrigerantes, ainda tomando cuidado para no olhar de novo
na direo de Eric.
Me escondendo na cozinha, peguei o bolo da sra. Hogarth, joguei as velas nele, e sa novamente - e quase bati de frente em Eric Fluteley, que, olhando para mim intensamente
o tempo todo, tirou o bolo das minhas mos, colocou-o perto da mquina de caf, me pegou pelos ombros e me beijou na boca.
Dois
-O Gull'n Gulp no tem nada a ver com Morgan Castle -disse Sidney ao celular.
Grunhi como resposta. Eu estava tentando passar um creme nos meus cabelos molhados com um pente. Tinha que lava-lo trs vezes depois do trabalho para conseguir tirar
o cheiro de quahog frito.
Serio, eu no sei como Seth agenta me beijar quando estou fedendo tanto a mariscos.
Mas o cheiro e praticamente o nico lado negativo de trabalhar como garonete em um dos restaurantes mais populares da cidade. Especialmente quando voc fatura 48
dlares de gorjeta como eu faturei esta noite.
Sem contar o bnus de ser beijada por Eric Fluteley no bar.
-Ela no devia ter ido ao Oaken Bucket?-perguntou Sidney.
-Com certeza.
No sei o que esta acontecendo com meu cabelo. Estou tentando deixa-lo crescer desde um incidente azarado com um bobe no segundo ano. Esta quase na altura do ombro
agora, com varias camadas (porque aquela coisa de cabelo escorrido que funciona to bem com a Sidney no funciona mesmo comigo) e luzes douradas para deix-lo menos
agressivamente castanho. Segundo Marty, do salo Supercuts, eu devia deix-lo secar naturalmente e ento passar um creme especial para cabelos cacheados para deixa-lo
mais cheio e com mais movimento.
Mas isso s parece dar certo em ambiente mido ou quando estou perto da cozinha do Gull'n Gulp.
Sidney estava certa, claro. O Oaken Bucket, o caf vegan do outro lado da cidade, tem muito mais a cara da Morgan que o Gull'n Gulp. Quer dizer, o Bucket serve coisas
como falafel no po pita com hummus e abacate, e tofu frito com arroz integral. Voc no vai achar sequer um item com quahogs no cardpio l no Bucket, pode ter
certeza.
- S existe uma razo para ela ir l-continuou Sidney em seu tom mais maldoso-, e todos ns sabemos qual .
Quase deixei meu telefone cair. Bem na privada, que foi onde o pente acabou caindo. Por sorte, tinha me lembrado de dar descarga antes. Peguei o telefone na ultima
hora e o pressionei contra o ouvido.
-E-espera-gaguejei.-O que? A gente sabe?
Como ela poderia saber? Ela no poderia saber! Ningum me viu com Eric-ou ser que algum tinha visto?
Eu sabia que devia ter dado um tapa nele. Por que o beijei de volta? No o teria beijado se achasse que tinha alguma chance de o Seth-ou a Sidney-nos ver.
Mas o bar e totalmente escondido da mesa do canto. E de onde Morgan Castle estava sentada.
Ento, ao invs de dar um tapa em Eric Fluteley quando ele comeou a me beijar, eu me derreti, exatamente como uma das velas de aniversario da sra. Hogarth deixada
queimando por muito tempo.
Bem, o que mais eu poderia fazer? Quero dizer, Eric  simplesmente... um gato.
Quando ele finalmente me deixou tomar flego, no entanto, falei muito indignada (apesar de, admito, ter dito isso com lbios deliciosamente trmulos):
-Voc e maluco? Viu quem esta sentado na mesa do canto? O time de futebol americano inteiro dos Quahogs!
Eric respondeu:
-No so todos eles. No exagere, Katie.
-Bem, esto em numero suficiente para quebrar sua cara se vissem voc fazer o que acabou de fazer.
Eu realmente no podia acreditar. Quer dizer, o que ele estava pensando? Voc no vai simplesmente ate uma garota e comea a beija-la no bar. Especialmente quando
o namorado dela esta sentado a apenas alguns metros.
Mesmo que, enfim, voc soubesse que ela realmente gosta disso. E que ela quer repetir a dose.
-O que ele esta fazendo aqui, alias?-quis saber Eric.-Pensei que voc tivesse falado que o fogo tinha passado e que finalmente ia terminar com ele.
Ser que eu tinha dito para o Eric que o fogo entre mim e o Seth tinha terminado? Provavelmente. Acabara muito pouco tempo depois de nos tornarmos um casal serio,
e a excitao por Seth Turner, o garoto mais popular da escola, de ter me escolhido-logo EU!-como sua namorada, j ter morrido.
Mas como voc pode terminar com um cara que e simplesmente to... bonzinho? Que tipo de pessoa horrvel faria uma coisa dessas? Terminar com seu namorado de quase
quatro anos porque ele e apenas... entediante?
Devo ter dito ao Eric que Seth e eu amos terminar. Ah, Deus, o que estava acontecendo comigo? Eu no conseguia nem mais manter minhas mentiras.
-E-disse-, bem, eu ainda no consegui resolver isso. Como voc pode ver.
-Katie-disse Eric pegando minha mo e olhando bem nos meus olhos castanhos com seus lindos olhos azuis, o mesmo azul do mar de Long Island num dia sem nuvens-, voc
tem que terminar com ele. Sabe que vocs no tem nada em comum. Enquanto voc e eu, nos somos artistas.
Ns temos algo especial. No e justo voc fazer isso com
ele.
A verdade e que Eric estava certo. Bem, no sobre ele e eu termos algo especial-a no ser voc sabe, pelo
fato de que eu acho que Eric e muito gato, e beija muito
bem.
Eu me refiro a parte em que ele falou que Seth e eu no temos nada em comum. Ns no temos.
Bem, a no ser pelo fato de eu achar o Seth extremamente gato, e por ele beijar muito bem tambm. Acho isso desde que me entendo por gente-bem, a parte de ser gato,
de qualquer forma. Eu no sabia da parte do beijo ate o final do nono ano, quando Seth me beijou pela primeira vez, num jogo de verdade ou conseqncia no poro
da casa da Sidney, depois de uma festa na piscina. Foi como um sonho realizado para mim-, o garoto que todas as meninas da escola queriam, na verdade, ME queria.
Estamos namorando desde ento.
Mas mesmo assim Eric estava certo.
-E quanto a voc?-perguntei. -Como voc esta sendo justo com ela?
Eric nem ao menos teve a dignidade de parecer envergonhado.
-Morgan e eu no somos um casal-disse ele-, ento no posso ser exatamente acusado de fazer algo errado.
-Nem eu!-insisti, mesmo sabendo aquela altura que isso era quase mentira.-Eu no fiz nada. S estou tentando levar o bolo de aniversario para a sra. Hogarth!
-Claro-disse Eric, sarcstico.-Assim como tambm no fez nada hoje antes de seu expediente comear.
Oops. Bem, e, certo. Eu meio que dei uns amassos com o Eric no bicicletario dos funcionrios, atrs do gerador de emergncia, antes do trabalho.
Mas que se dane! Isso no significava que ele podia me beijar enquanto estava num encontro com outra garota!
-Volta para a Morgan agora-disse.-Isso e uma coisa horrvel de se fazer. E ela e muito fofa. Eu nem sei por que a trouxe aqui. Ela e vegan. No tem nada que ela
possa comer aqui, a no ser salada.
-Estava tentando deixar voc com cimes-disse Eric, passando as mos na minha cintura.-Esta funcionando?
Foi nesse exato momento que Peggy apareceu segurando uma jarra vazia de iced tea. Ela parou embasbacada quando nos viu. Porque, claro, fregueses no podem entrar
em reas restritas a empregados, como o bar. Nem atrs do gerador de emergncia, perto do bicicletarios dos funcionrios.
-Algum problema, Ellison?-perguntou Peggy com uma voz desconcertada.
-No-falei rapidamente, enquanto Eric me soltava-, ele estava apenas procurando...
-Sal-disse Eric, pegando um saleiro de uma bandeja perto da maquina de refrigerantes.-Tchau.
Ele voltou correndo para sua mesa enquanto Peggy me encarou, seria.
-Ellison-disse ela com uma voz desconfiada-, o que esta acontecendo?
-Nada-falei pegando o bolo da sra. Hogarth e mostrando a ela.-Voc tem um isqueiro?
-Pensei que voc estivesse saindo com o irmo mais novo de Jake Turner-disse Peggy com a mesma voz desconfiada, depois de mexer no bolso da calca, pegar um isqueiro
e acender as velas com os nmeros nove e sete.
-E eu estou-insisti.-Eric e apenas um amigo.
Um amigo que eu gosto de beijar sempre que posso, foi o que pensei, mas no falei alto.
Peggy fez uma cara de quem no caiu naquela. Ela e gerente do Gull'n Gulp ha dez anos. Imagino que j tenha visto de tudo. E que tenha escutado de tudo tambm.
-Eu sabia que deveria ter mandado voc de volta para casa para pegar um casaco-foi o que ela falou.
Como se , com as alas do meu suti escondidas, eu tivesse de alguma forma conseguido NAO ser pega beijando Eric Fluteley no bar.
Mas Peggy no teria contado para Sidney sobre o que me viu fazendo. Peggy no faz fofoca (e enche o saco dos funcionrios quando pega algum deles fazendo isso).
Ento como Sidney descobriu?
Ser que ela tinha me visto mais cedo perto do bicicletario?
De jeito nenhum. Sidney nem tem bicicleta. Ela nunca vai a lugar nenhum a no ser que seja no Camaro do Dave ou no Volkswagen Cab riol et branco conversvel que
ganhou do pai no aniversario de 1 anos.
-Vou dizer por que Morgan Castle estava l-disse Sidney cheia de certeza ao telefone. -Ela estava espionando. Para a competio.
Ah, Deus! A competio pela afeio do Eric? E exatamente isso!
S que se Sidney soubesse disso, por que no tinha me contado nada? Sidney no e exatamente o tipo de pessoa que guarda suas opinies, e se ela descobrisse que eu
andava dando uns amassos atrs do gerador de emergncia com Eric Fluteley, pode ter certeza de que ela teria algumas coisas para falar. Sidney acha que Seth e eu
somos o casal perfeito e esta contando com que ela e Dave e Seth e eu sejamos os casais modelo do ultimo ano de colgio. Se eu fosse pega beijando Eric Fluteley,
isso arruinaria totalmente os planos de Sidney para o baile, e por ai vai...
-O patrocinador dela e o Oaken Bucket-continuou Sidney.-Quanto voc realmente acha que eles esto contribuindo para a campanha dela? Enquanto voc na verdade trabalha
para o seu patrocinador, ento eles tem um verdadeiro interesse em promover voc...
Ah. Ah, meu Deus.
Eu me sentei na borda da banheira, aliviada. Certo. Ento era sobre isso que a Sidney estava falando. No sobre Eric. Nada a ver com Eric.
-E, serio, ser que ela realmente acha que algum vai votar numa Princesa Quahog que nem ao menos come quahogs?-quis saber Sidney.
No acredito que quase esqueci. Havia mais um tipo de quahog. Um alem do marisco e do time de futebol americano.
Tem o concurso anual da cidade para a Princesa Quahog.
No qual eu estou concorrendo.
E  por isso que Sidney no suporta Morgan, apesar de ela ser muito fofa quando voc a conhece. O que aconteceu comigo, porque Morgan, que dana bale desde que tinha,
sei l 4 anos e que certamente algum dia vai entrar para a Joffrey Ballet Company, danou a seqncia do sonho de Laurey na produo do colgio de Oklahoma!, na
ultima primavera (Eric fez o papel de Jud. E devo dizer que ele era o Jud mais gato e melanclico de todos os tempos. Muitas meninas-como eu, por exemplo- acharam
que Laurey devia ter ficado com Jud, em vez daquele idiota do Curly, que foi interpretado por Brian McFadden, que meio que parece uma menina)-e eu tive que fotografa-la
para o anurio e o jornal da escola.
Morgan foi muito legal por fazer seus grands jetes varias vezes seguidas, j que eu no conseguia tirar a foto direito com minha Sony digital, e as pernas dela ficavam
sempre embaadas. (Eu finalmente consegui tirar uma foto excelente dela no ar, com as pernas perfeitamente paralelas ao palco. Ela parece estar voando, mas esta
com uma expresso calma no rosto, quase entediada, do tipo "Ai, ai, eu desafio a gravidade assim todos os dias".)
Morgan vai fazer exatamente essa dana na hora dos talentos no concurso de Princesa Quahog.
E eu posso apenas dizer que uma das coisas que a Sidney mais odeia na Morgan e que o talento da Morgan e muito melhor que o dela, que e cantar uma musica da Kelly
Clarkson-sem falar do meu, que e o pior talento para concursos de beleza de todos... tocar piano!
Apesar disso, o fato de Morgan ter nariz arrebitado e nenhuma gordura no corpo e, nunca falar com ningum tambm no ajuda pessoas como Sidney a gostarem dela. No
e que Morgan se considere melhor que todo mundo, como Sidney insiste. Ela e apenas realmente tmida.
E escandaloso que Eric estivesse tentando usa-la para tentar me deixar com cimes. Vou ter um papo muito serio com ele na prxima vez que dermos uns amassos atrs
do gerador de emergncia.
-Ah-disse para Sidney, rindo aliviada quando finalmente percebi que ela falava do concurso da Princesa Quahog, e no de Eric-, eu no acho que ela estivesse l para
nos espionar. Acho que foi apenas onde Eric a levou. Ela no podia discordar. Ele deve ter feito aquela reserva ha uma semana.
-E, e qual foi a dele, tambm?-quis saber Sidney. -Quem faz reserva no Gull'n Gulp?
Sidney, eu sabia, no estava falando mal do Gulp.   E s que nenhum morador local ia se dar ao trabalho de fazer uma reserva l, a no ser em uma ocasio especial,
como a festa de aniversario da sra. Hogarth.
Ou um cara que quisesse fazer cimes na menina com quem ele estivesse ficando escondido do namorado dela.
-Talvez ele quisesse impressiona-la-disse, pescando com cuidado meu pente na privada, no exato momento em que ouvi uma batida na porta do banheiro.
-Tem gente-gritei para o intruso, que eu sabia ser meu irmo, Liam, acabando de chegar do fliper em Duckpin Lanes, onde ele passou a maioria, se no todas, as noites
desse vero. Ningum mais na casa estava acordado, ja que passava de meia-noite.
-E, mas desde quando Eric Fluteley e Morgan Castle so um casal?-perguntou Sidney.-Isso tudo me parece um pouco conveniente demais, se quer saber minha opinio.
Ela esta concorrendo a Princesa Quahog e precisa de um acompanhante para o evento do traje de gala, e simplesmente comea a sair com o cara mais bonito da escola?
Quer dizer, depois do Seth e do Dave. E ento ela simplesmente aparece no Gull'n Gulp numa noite em que ns duas estamos l?
-Eu estou no Gulp quase toda noite, Sid-expliquei.-Voc tambm, na verdade. Realmente no acho que a Morgan estivesse l para nos espionar.
-Ah, Deus, Katie-disse Sidney-, voc e to inocente.
Sidney sempre me chama de inocente porque, apesar de Seth e eu estarmos juntos ha sculos, ainda sou virgem -e ela perdeu a virgindade para Rick Stamford ha dois
anos no quarto dele, quando os pais de Rick estavam fora de casa, na Feira da Cidade de Eastport.
Mas eu s no acho boa idia, para uma garota que parece no conseguir beijar apenas um cara de cada vez, comear tambm a dormir com eles. Quer dizer, ao menos
Sidney tinha certeza que ela amava Rick (e pensava que o sentimento era correspondido). Eu acho que o fato de no conseguir parar de beijar Eric Fluteley e um
timo
sinal de que, apesar de sempre ter achado Seth to gato e tudo mais, no estou apaixonada por ele...
.. e o fato de que no consigo parar de beijar Seth significa que provavelmente tambm no estou apaixonada por Eric.
Apesar disso, eu meio que imagino se Sidney l continuar achando que sou inocente se soubesse realmente por que Morgan Castle foi ao Gull'n Gulp essa noite-porque
Eric Fluteley a levou l para me deixar com cimes.
No que eu v contar a ela ou a qualquer outra pessoa sobre isso.
Liam bateu novamente na porta. Eu joguei o pente na pia, liguei a gua quente na esperana de matar quaisquer germes que estivessem crescendo nele, graas ao mergulho
na privada, e abri a porta com forca.
-Estou aqui dentro-disse ao meu irmo, que s neste vero cresceu vinte centmetros em trs meses e agora me passou de longe. Apesar disso, com 1,70m, eu sou dez
centmetros mais alta que a Sidney e, na verdade, uma das meninas mais altas da minha turma. Especialmente quando meu cabelo esta como deveria, todo cheio.
-Sei disso-disse Liam, sarcstico.-Eu preciso...
-Entao usa o banheiro l de baixo-falei, comeando a fechar a porta.
-Queria contar uma coisa para voc-disse Liam, colocando uma das mos na porta para que eu no conseguisse fecha-la.-Se voc parasse de tagarelar no telefone um
minuto para escutar. Quem e afinal? Sidney?
-Espera ai, Sid disse ao telefone.
Entao desliguei a gua quente-eu no tenho certeza de quanto tempo demora para esterilizar germes de privada de um pente de plstico, mas tambm no quero desperdiar
gua-e falei para o Liam com uma voz impaciente:
-O que?
-Quem e?-quis saber Sidney-Liam?
-E.
Para o Liam, repeti:
-O que ?
-Ah, nada-disse Liam encolhendo os ombros.-  s que eu vi algum que voc conhece essa noite em Duckpin Lanes.
-Isso e emocionante-disse a ele.-Agora v embora.
-Certo, tudo bem-disse Liam se virando e seguindo no corredor em direo ao quarto.-Sachei que voc quisesse saber quem e.
- Quem?-perguntou Sidney no meu ouvido- Quem ele viu? Ah, meu Deus, pergunte a ele se era o Rick. Se era o Rick e ele estava com Beth Ridley, eu vou morrer. Martha
disse que ouviu dizer que Rick e Beth ficaram no churrasco de 4 de julho da Hannah Lebowitz.
-Liam-falei.
No falei alto porque no queria acordar mame e papai, que estavam no andar de baixo, no quarto que construram junto a lavanderia ha dois anos para que pudessem
ficar longe de ns, crianas.
-Quem era? Era Rick Stamford?
-Quem dera-disse Liam com uma risada.
-Como assim, quem dera?-perguntei.
-Eu quero dizer que voc preferiria que fosse Rick Stamford, e no quem eu vou dizer. Porque quando eu disser, voc vai surtar.
-Era o Rick?-quis saber Sidney.-O que ele disse ? Eu no consigo escutar. Seu telefone tem o pior sinal...
-No era o Rick-disse ao telefone enquanto Sidney falava nervosa do outro lado:
-Entao deve ter sido uma celebridade! Era o Matt Fox? Ouvi dizer que ele esta comprando uma casa de praia l em Westport. Era o Matt Fox? Pergunte a ele se era o
Matt Fox!
-Era o Tommy Sullivan-disse Liam, seco.
Naquele momento deixei cair meu celular. Por sorte, no entanto, no na privada. Em vez disso, ele caiu no cho.
Onde se quebrou em trs pedaos.
Enquanto o celular caia pude ouvir Sidney falando: -Espera, eu no escutei o que ele falou, o que ele...
Entao... pow.
Entao... silencio.
Liam olhou os pedaos do meu celular no cho e riu.
-Era isso que eu estava tentando contar a voc- disse ele-Tommy Sullivan esta de volta a cidade.
Trs
Certo, por qu?
E tudo que eu quero saber.
Por que Tommy Sullivan tinha que voltar agora, justo quando as coisas estavam indo perfeitamente bem, para bagunar tudo?
O vero antes do seu ultimo ano no colgio e o ultimo em que voc pode realmente se divertir. Sem preocupaes com inscrio na faculdade e vestibular. Sem ter que
se preocupar com atividades extracurriculares ou qumica.
E esse vinha sendo o vero mais maravilhoso de toda a minha vida ate agora: as pessoas comearam a perceber que apesar de ser a melhor aluna da sala, eu era uma
pessoa divertida. Tenho um emprego que amo, em que ganho dinheiro o suficiente para (quase) conseguir pagar pela cmera que eu realmente quero comprar. Tenho um
namorado fantstico, e um garoto ainda mais gato para me agarrar atrs do gerador de emergncia quando o namorado no esta por perto...
Entao por que Tommy Sullivan tinha que voltar para a cidade AGORA, e arruinar tudo?
Liam no me deu nenhum detalhe ontem  noite depois que deixou a bomba cair, porque ficou chateado por eu no ter parado de falar ao telefone com a Sidney para escuta-lo.
Liam esta com 14 anos e vai comear o primeiro ano do Ensino Mdio na Eastport High, e sua nova altura atraiu totalmente a ateno do treinador Hayes, que no dia
da matricula notou que Liam era mais alto que todo mundo e perguntou se ele ia fazer o teste para entrar para os Quahogs.
E como Liam-assim como qualquer outro garoto em Eastport-praticamente vive para o time de futebol americano dos Quahogs, isso o deixou maluco. Esta impossvel conviver
com ele desde entao. E o teste ser s na sexta-feira.
Mas eu sabia por experincia prpria que ele ia acabar cansando e que deixaria escapar os detalhes dessa historia do Tommy Sullivan. Liam no conseguiria guardar
um segredo para salvar a prpria vida.
E  por isso que, quando vi que horas eram quando acordei na manha seguinte, disse meu melhor palavro, rolei da cama e, mesmo sem antes tomar banho, coloquei minhas
roupas (e, tudo bem, um pouquinho de maquiagem, porque uma menina concorrendo a Princesa Quahog realmente no deve ser vista em publico sem seu rmel), subi na minha
bicicleta, e pedalei ate a ACM, onde Liam tem ido todos os dias para levantar peso na esperana de ficar sarado para o teste dos Quahogs na sexta.
Ah, sim, eu sou tipo a nica pessoa de 17 anos em Eastport que no tem um carro. No sou uma daquelas ambientalistas vegan que andam com Morgan Castle e vo ao Oaken
Bucket ou coisa assim. Adoro carne. Eu s acho que se voc vive numa cidade pequena-e Eastport tem apenas 25 mil moradores fixos (ainda que entre maio e agosto a
populao cresa para 35 mil por causa dos turistas de vero)-, deve andar de bicicleta em vez de dirigir. E melhor para o meio ambiente, e melhor para o seu corpo
tambm.
Sidney acha que e estranho eu estar guardando dinheiro para uma cmera e no para um carro, como todas as outras pessoas que conhecemos (apesar de que, para dizer
a verdade, todas as outras pessoas que a gente conhece ganharam um carro no aniversario de 1 anos, eu pedi -e ganhei-um Power Mac G5, com uma impressora colorida
para poder imprimir minhas prprias fotos, apesar de eu ainda levar meus filmes na Eastport Towne Photo quando quero algo que parea profissional). Mas no tem nenhum
lugar que eu precise ir que no de para chegar de bicicleta (tirando a cidade, mas eu posso usar o transporte publico para isso), ento por que gastar combustvel
no renovvel quando posso simplesmente usar a energia das pedaladas?
E, ao contrario de Sidney, no tenho que gastar horas na academia toda semana, j que fao muito exerccio simplesmente andando de bicicleta por a.
Ah, timo Certo, hora de uma confisso verdadeira: eu enjo no carro. Na verdade eu enjo em qualquer coisa-carro, barco, avio, trem, ate bia (quando fico flutuando
numa bia na piscina) e ate mesmo no balano.
A nica forma de eu no ficar enjoada? Quando eu estou caminhando. Ou andando de bicicleta.
Minha me poe a culpa de tudo isso nas infeces de ouvido que tive quando era criana. Meu pai-que nunca ficou doente um dia na vida, e no deixa nenhum de nos
se esquecer disso-acha que e tudo psicossomtico, e que assim que eu me apaixonar por um garoto bonito o suficiente no vou ficar enjoada por nada nesse mundo quando
ele estiver me levando para passear, e que ate mesmo vou querer tirar carteira de motorista. Por exemplo para poder dirigir com o garoto numa Ferrari pelos Alpes.
Porque, meu pai diz, ningum consegue viver como adulto sem ter uma carteira de motorista.
Mas, como j disse a ele varias vezes, no existe no mundo um garoto to bonito para que isso acontea.
E alem do mais, existe um lugar onde e totalmente possvel viver como adulto sem ter uma carteira de motorista: Nova York, onde todos os grandes fotgrafos dos Estados
Unidos vivem e trabalham.
E adivinha? L eles tambm tem ciclovias.
De qualquer forma, deixei a bicicleta do lado de fora da ACM e entrei para achar meu irmo deitado num banco, puxando umas cordas que faziam alguns pesos atrs dele
subirem alguns centmetros. O que no era de espantar e que tinha um bando de meninas de 14 anos reunidas a sua volta, rindo animadas. Desde quando se espalhou a
noticia de que o prprio treinador Hayes tinha falado para Liam fazer o teste para os Quahogs, todas as meninas de 14 anos da cidade tem ligado l para casa o dia
inteiro, perguntando pelo Liam.
Evidentemente, todas as Tiffanys e Brittanys de quem tenho anotado as mensagens descobriram onde Liam gasta o tempo livre-quando ele no esta em Duckpin Lanes.
-Com licena, senhoritas-disse a elas-, mas preciso falar com meu irmo.
As Tiffanys e Brittanys riram como se eu tivesse falado algo engraado. Serio, nunca vi tantas barrigas bronzeadas na minha vida. Ser que as mes dessas meninas
as deixam sair de casa vestidas desse jeito? Eu podia apostar que elas saiam de casa com roupas de verdade e tiravam tudo assim que as mes no estavam mais olhando.
-Agora no Katie-disse Liam, o rosto ficando muito vermelho.
No porque ele estava envergonhado, mas porque estava levantando muito mais peso do que provavelmente deveria, para impressionar as meninas.
-Ah, sim, agora-falei, puxando um dos pelos da perna dele.
CRASH! fizeram os pesos atrs dele.
Liam disse uns palavres bem cabeludos e as meninas dispersaram dando risinhos histricos, mas recuando s ate o bebedouro perto da mesa onde entregam toalhas.
-Voc no viu Tommy Sullivan de verdade em Duckpin Lanes ontem a noite-disse para meu irmo.-Ou viu?
-No sei - disse Liam. - Talvez no. Talvez tenha sido outro cara que veio ate mim e perguntou se eu era o irmo mais novo de Katie Ellison e se apresentou como
Tom Sullivan. Por que voc tinha que fazer isso? Puxar o pelo da minha perna desse jeito? Eu odeio quando faz isso. Eu podia ter me machucado seriamente, voc sabe...
-Tom Sullivan?
Pela primeira vez desde que eu ouvi a noticia de que Tommy Sullivan estava de volta  cidade, meu corao ficou mais tranqilo. Tommy nunca chamou a si mesmo de
Tom. Ele sempre foi Tommy, desde o jardim de infncia-quando eu o conheci.
Talvez quem quer que Liam tenha encontrado ontem a noite no seja Tommy Sullivan-o meu Tommy Sullivan no fim das contas!
- Talvez fosse outra pessoa-disse esperanosa. - Algum outro Thomas Sullivan.
O olhar que Liam dirigiu a mim foi muito sarcstico.
-Claro-disse ele. -Algum outro Thomas Sullivan que me disse que tinha sido da sua sala na escola e queria saber como voc estava... e tem cabelo ruivo?
Meu corao parou de bater completamente. Juro, por alguns segundos eu no consegui nem respirar. Eu podia ouvir o rock que tocava no sistema de som da academia
- estava ligado na estao local de musica pop.
Mas o som parecia muito distante.
Porque s tinha um Tommy Sullivan que eu conheo que foi da minha sala na escola.
E apenas um Tommy Sullivan que eu conheo que tem cabelo ruivo.
Aquele cabelo! Quantas vezes desde o oitavo ano, quando Tommy deixou a cidade, eu tinha visto um garoto-um turista, geralmente-com cabelo ruivo e fora checar, com
o corao acelerado, certa de que era Tommy e de que teria que olhar naqueles seus olhos amendoados, que em certas luzes eram to verdes quanto o mar na mar alta,
e em outras, mbar como folhas num dia de outono, algumas vezes ate mesmo dourados, como o mel-s para o cara virar e acabar no sendo o Tommy.
Ufa, eu sempre dizia quando isso acontecia.
Mas ser que Liam podia estar dizendo a verdade? Ser que minha sorte-no que diz respeito a Tommy Sullivan, pelo menos-tinha enfim acabado?
-O que voc disse?-perguntei, deslizando para o banco ao lado de Liam.
O que foi um erro, j que o banco estava molhado de suor. Mas no liguei muito, porque ainda no tinha mesmo tomado banho.
-Quando ele perguntou como eu estava, o que voc disse?
-Eu disse que voc estava bem-disse Liam. Disse que voc estava namorando Seth Turner.
Meu sangue gelou. Eu no podia acreditar naquilo. Liam disse para Tommy Sullivan que eu estava namorando um Quahog.
-Voc disse isso a ele? Por que disse isso a ele?
- O que mais eu poderia dizer?-disse Liam, levantando do banco para pegar sua garrafa de Gatorade e parecendo incomodado.-Ele perguntou o que voc andava fazendo.
Disse a ele que voc estava concorrendo a Princesa Quahog.
Eu grunhi. Ate podia imaginar o que Tommy deve ter pensado sobre minha candidatura a Princesa Quahog: um titulo honorrio sem absolutamente nenhum beneficio, a no
ser o de que a Princesa Quahog pode andar num Chevrolet conversvel com o prefeito durante o desfile da Feira da Cidade de Eastport (eu pretendo realmente tomar
um Dramin antes, se ganhar), e de abrir o Festival do Quahog, que acontece no terceiro domingo de agosto.
Que por acaso e no final desta semana.
E, tudo bem, para se inscrever voc precisa ter uma media de no mnimo ,0 (o que, acreditem, j elimina MUITAS garotas da minha escola) e estar disposta a aparecer
em um monte de eventos bregas durante a Feira da Cidade de Eastport-como o campeonato de comer quahog (nojento) e as corridas de quahog (chato: mariscos no so
rpidos).
Mas, para compensar isso tudo, a vencedora ganha tambm 1.500 dlares como bolsa de estudo do comit do Festival do Quahog de Eastport.
O melhor de tudo: o premio vem como um cheque ao portador, que ela pode depositar na prpria conta e gastar com o que quiser. Quer dizer: eles no verificam se ela
vai gastar com educao.
O que, vou ser franca, e a razo por que eu estou concorrendo a Princesa Quahog.
E, certo, sei que no tenho nenhuma chance com a Sidney tambm concorrendo (ela no da a mnima para o dinheiro; esta nessa pela tiara).
Mas pelo menos tenho mais chances que Morgan Castle. Porque Morgan Castle mal abre a boca em publico, de to tmida.
Embora ela tenha um talento muito melhor que o meu. Quer dizer, para competir em um concurso de beleza.
E, sim, eu consigo ver que concursos de beleza so sexistas, e tudo mais. Mas da um tempo. Mil e quinhentos dlares? Ate mesmo o segundo lugar paga mil. O terceiro,
quinhentos.
Ento, mesmo que tanto Sidney como Morgan me vencerem (o que e provvel), ainda vou ter mais quinhentos dlares do que teria se no tivesse me inscrito (a nica
outra participante e Jenna Hicks, que tem vrios piercings no nariz e nas sobrancelhas, s veste preto no importa o calor, e cuja me a fez entrar para que pudesse
interagir com mais garotas de sua idade que no dem "Kafka" como resposta para Interesses nas paginas do MySpace. O que, sem querer ser ma ou algo assim, no faz
de Jenna uma candidata seria).
O que e bom, porque meus pais me fizeram diminuir minhas horas no Gull'n Gulp para uma noite por semana quando voltar a escola no prximo ms, ento vou precisar
de muito da grana.
-O que Tommy disse?-perguntei. -Quando contou sobre o concurso de Princesa Quahog...
Liam encolheu os ombros:
-Ele riu.
Senti os cabelos na minha nuca se arrepiarem.
-Ele riu?-falei, no gostando nem um pouco de ouvir aquilo. -Riu como?
-Como assim riu como?-quis saber Liam.
-Ele riu como se achasse engraado ou como um gnio do mal? Foi ha ha ha? Ou foi um ha ha diablico?
-O que ha de errado com voc?-perguntou Liam, alto o suficiente para fazer as Tiffanys e as Britannys voltarem a dar risinhos perto da mesa das toalhas.
Que se dane. Podem rir. O que garotas de 14 anos com a barriga de fora e calcas de ioga sabem sobre dor? (No apenas o tipo de dor que sente quando seu piercing
no umbigo feito ilegalmente na cidade infecciona e voc tem que contar a sua me para que ela a leve ao medico-e depois deixa voc de castigo.)
Estou falando de dor de verdade, como a de tentar entender o que Tommy Sullivan esta fazendo de volta a cidade. Ele e os pais se mudaram-para Westchester, perto
de Nova York, num outro estado-no vero anterior ao meu ano de caloura... o mesmo vero em que brinquei de verdade e conseqncia e beijei Seth pela primeira vez.
Eles nunca falaram que estavam indo embora por causa do que tinha acontecido no ano anterior. Na verdade, minha me, que era a corretora deles e vendeu a casa, disse
que a sra. Sullivan contou que eles estavam se mudando para que o sr. Sullivan ficasse mais perto do trabalho, em Manhattan.
Mas todo mundo meio que concluiu que o que tinha acontecido com Tommy-e o muro do ginsio da Eastport Middle School-fora o principal motivo.
Ento, por que voltar? E verdade que os avos dele ainda moram aqui-ns os vemos s vezes, quando ma me e papai nos obrigam a almoar no Iate Clube, do qual so
scios no porque temos um iate (o barco do papai e usado exclusivamente para pescar, no tem nem um banheiro; o que no e a nica razo para eu no entrar ali,
mas e uma delas), mas porque e bom conhecer gente se voc trabalha no ramo imobilirio, como eles.
E, tudo bem, imagino que Tommy deva vir visitar os avs algumas vezes... embora, na verdade, antes isso nunca tenha me passado pela cabea. Por que eles simplesmente
no iam visita-lo em Westchester? Quer dizer, Eastport no tem como trazer muitas lembranas boas para ele. Por que ele ia querer vir aqui?
Mas mesmo se simplesmente aconteceu de ele estar aqui porque estava visitando os avs, por que ele iria a Duckpin Lanes, que e onde todos os caras da cidade vo?
Esse e o ULTIMO lugar onde voc imaginaria que um cara to universalmente desprezado como Tommy Sullivan poderia ir.
-Katie?
Olhei para cima e vi Seth sorrindo para mim, com aqueles lindos olhos azuis e os bceps definidos, recm sados da malhao.
-O que voc esta fazendo aqui?-quis saber. - Voc nunca vem a ACM.
O que no e exatamente verdade. A ACM foi onde fiz meu primeiro curso de fotografia. Aquele que me fez ficar louca por cmeras logo de cara, mesmo que o instrutor-o
ranzinza do sr. Bird, proprietrio da Eastport Old Towne Photo-no fosse muito encorajador.
Mas eu deixei essa passar porque, vocs sabem, ele e lindo. E por acaso e meu namorado. Bem, um deles, pelo menos.
-Ah, eu s vim ver como Liam estava-disse, enquanto Seth abraava minha cintura e me dava um beijo.
Isso me deixou feliz por ter passado rimel. J era bastante ruim o fato de que eu estava com o mesmo cabelo de quando tinha acordado.
Naturalmente, no mencionei por que tinha ido ver Liam. Em minha longa e variada carreira de mentirosa - que comeou aproximadamente na mesma poca em que Tommy
Sullivan saiu da cidade-aprendi que s vezes e mais educado mentir para as pessoas do que contar a verdade. Especialmente quando a verdade pode machuc-las. Seth
no agenta sequer ouvir o nome de Tommy. Fica todo quieto e de mau humor toda vez que o assunto surge... apesar de o irmo dele parecer perfeitamente feliz de trabalhar
com o pai.
Embora provavelmente no to feliz quanto estaria se estivesse jogando futebol americano na faculdade.
Ento eu achei melhor, ao longo dos anos, simplesmente no tocar no nome de Tommy na frente do Seth.
-Tentei ligar para voc a manha toda-disse Seth. -Seu celular esta desligado?
Oops. Eu tinha conseguido juntar todos os pedaos do meu telefone de volta e coloquei o carregador na tomada, mas me esqueci de liga-lo. Tirei o telefone do bolso
do meu short e apertei POWER. Um segundo depois vi meu protetor de tela-uma foto de Seth olhando para mim, apaixonado, sobre uma poro de bolinhos de quahog.
-Minha geniozinha-disse Seth carinhosamente.
Porque mesmo sendo a melhor da turma, eu sempre fao coisas como esquecer de ligar meu celular.
Um segundo depois, ele tocou:
-O que aconteceu com voc ontem  noite?-perguntou Sidney.-A ligao caiu. Eu tentei ligar para voc de novo um milho de vezes depois e s caia na sua caixa de
mensagens.
-Bem-falei-, deixei meu telefone cair e ele explodiu. Tive que recarreg-lo.
-Ah. Ento. Quem era?
-Quem era o que?
-Quem seu irmo viu em Duckpin Lanes?-quis saber Sidney.
-Ah-disse, pensando rpido, vendo Seth comear a mostrar a Liam como se usava outra maquina ao lado, enquanto as Tiffanys e as Brittanys ficavam em volta, olhando
mais apaixonadas do que nunca.
Porque, bem, era o irmo mais novo de Jake Turner: eu nao podia culp-las. Senti o mesmo por ele quando comecei o nono ano. Ainda sinto. Bem, mais ou menos.
-Aquilo... nao era ningum. S um cara que o Liam conhecia do acampamento.
-Por que ele achou que voc ligaria para isso?
-Nao sei-disse eu.-Porque ele deixou essa coisa de Quahog subir a cabea completamente, quem sabe?
-Ah, verdade. Bem, onde esta voc?
-Na ACM-falei-com Seth.
Eu nao mencionei toda a parte de ter que ir ate a ACM para ver meu irmo, e nao Seth, muito menos nada sobre Tommy Sullivan estar de volta  cidade. Quer dizer,
nao da para contar isso para ningum. Para nenhum dos meus amigos, pelo menos. Todos conseguiram esquecer que eu andava com Tommy Sullivan. Nao quero fazer nada
para lembr-los desse fato.
-Ah, bom-disse Sidney.-Chame o Seth, v para casa e pegue o biquni. O vento esta forte, ento Dave quer fazer kite-surf. Ns vamos para o Point.
Point e a praia particular que pertence ao Iate Clube de Eastport. Ningum em Eastport vai para as praias publicas, porque nao quer ficar junto de um monte de Turistas.
Alem disso, no jornal esto sempre falando que acharam traos de e. coli na gua de alguma praia publica (culpa de turistas com trailers, que ilegalmente esvaziam
seus banheiros na gua).
Ainda assim, por causa de toda essa coisa do Tommy, eu nao estava exatamente no esprito de ir a praia.
-Nao sei-resmunguei. -Eu estava meio que pensando em ir para casa e praticar...
-Para o concurso?-disse Sidney com desgosto. - Ah, esquece.
-... e eu tenho o turno do jantar no Gulp hoje.
-Qual e o problema? Leva as roupas do trabalho. Voc pode se trocar no clube. Precisa caprichar mais no seu bronzeado do que naquela coisa de Gerson...
-Gershwin-corrigi.-E "I've got rhythm", de George Gershwin.
Adoro a Sidney e tal, mas, francamente, Gerson?
-Tanto faz-disse Sidney.-Pegue suas coisas e v para o clube.
E  por isso que mais tarde eu estava deitada numa toalha azul e branca do Iate Clube de Eastport, escutando a gua bater na areia (eu nao iria tentar enganar ningum
dizendo que estava escutando o som das ondas, porque e claro que nao tinha ondas no mar de Long Island) e vendo meu namorado e Dave Hollingsworth tomarem uma surra
no kite-surf.
-Alerta de gato-disse Sidney, deitada ao meu lado, com uma voz indiferente, enquanto um garom do clube passava na areia quente segurando uma bandeja de bebidas
para algumas mes jovens e animadas sentadas sob uma barraca de praia, olhando seus filhos construrem castelos de areia.
Eu mal levantei a cabea. Sid estava certa. Preciso mesmo caprichar no meu bronzeado. Comparada a ela, eu parecia mesmo um cadver. Sidney tambm estava certa sobre
passar o dia na praia. O dia estava lindo - 25 graus com uma brisa fresca vindo da gua, cu limpo e um sol de rachar. O mar brilhava a nossa frente como uma safira
azulada. Nos nao teramos muitos outros dias como esse. A escola ia comear em algumas semanas, e ento tudo estaria acabado.
Tambm ajudou o fato de que Seth, quando me viu de biqumi, ronronou aprovando:
-Ei, gostosa!
Ah, sim. Eu s quero saber de praia hoje. Quem se importa com o que Tommy Sullivan estava fazendo em Duckpin Lanes ontem a noite? Quem se importa com o fato de ele
estar perguntando sobre mim? Ele provavelmente estava na cidade apenas para visitar os avos. Provavelmente s perguntou por mim para o Liam por conta dos velhos
tempos, nada mais. Quer dizer, por qual outro motivo ele perguntaria sobre mim?
-Cansei dos garons daqui-disse em resposta ao alerta de gato da Sidney.-Voc soube daquele cara, Travis? Ele dava Coca normal para todo mundo que pedia diet. Shaniqua
me disse que ele ficava se gabando disso la no Sea Grape. Isso e to errado.
-Nao o garom, bobinha-disse Sidney.-Aquele gato ali.
Eu virei minha cabea para olhar para onde ela estava apontando. Parecia que tinha caras em todos os lugares -alguns gatos, e alguns nao to gatos-com seus cal~coes
de banho largos, levando surra no kite-surf, jogando uma bola de futebol americano ou jogando frisbee de forma perigosa. Esse e o problema dos caras, eu percebi.
Eles so totalmente incapazes de ficar sentados quietos. Ao contrario de mim. Eu poderia ficar deitada numa posio sem me mexer por horas.
Se nao tivesse que ir ao banheiro o tempo todo por causa de tanta Coca diet que bebia.
-Nao aquele-disse Sidney, notando a direo do meu olhar.-Aquele ali, saindo da gua nesse momento. Aquele com a prancha de windsurf. O ruivo.
Minha cabea virou to rpido que ouvi os ossos na minha nuca estalarem.
Nao podia ser. Nao podia.
Porque o cara saindo da gua tinha mais de 1,80m 30cm mais alto do que o Tommy na ultima vez que o vi e uma pele dourada. O cara saindo da gua tambm era totalmente
sarado. Nao de um jeito forto, como alguns dos caras que eu vi na academia da ACM, mas com um corpo atltico magro, bceps bem definidos, e um abdome que deixaria
um tanque de verdade com inveja.
Enquanto Tommy Sullivan, na ultima vez em que o vi, tinha o peitoral para dentro, pele branca como leite (onde nao era coberta por sardas), cabelo da cor de uma
moeda de cobre nova e braos to finos quanto um palito de dente.
Bem, e verdade, eu posso estar exagerando um pouco. Ainda assim, ele nunca foi nada que desse muita vontade de olhar.
Nao como aquela viso diante de ns, que estava balanando a gua do cabelo marrom-avermelhado um pouco comprido enquanto se inclinava para deixar a prancha (revelando,
enquanto isso, o fato de que, sob seu short largo-to pesado da gua que tinha descido perigosamente da cintura-, havia o que parecia ser um glteo excepcionalmente
formado).
Sidney, que parecia nao ser mais capaz do que eu de afastar o olhar daquele exemplo de deus em forma humana, disse:
-Eu acho que morri e fui para o Cu dos Gatos.
-Cara, voc tem namorado-eu a lembrei automaticamente.
-Cara, voc tambm-lembrou ela de volta, esquecendo de mencionar (porque ela nao sabia) que, na verdade, eu tenho dois namorados.
Mas ficou muito difcil me lembrar de algum deles quando o garoto do windsurf se ergueu depois de deixar a prancha, virou-se e comeou a andar na direo da sede
do clube... e na nossa direo.
A mo da Sidney voou para segurar meu pulso com tanta forca que doia-principalmente porque ela estava afundando as unhas pintadas a francesinha no meu brao.
-Cara, ele esta vindo para c-disse ela.
Como se eu nao estivesse vendo aquilo. O garoto do windsurf estava se movendo pela areia diretamente na nossa direo... que nao era o caminho mais curto para a
sede do clube. Fiquei feliz pelas lentes do meu Ray-Ban serem polarizadas, assim pude perceber os pequenos detalhes que seriam impossveis de notar de outra forma,
considerando-se o brilho da gua... os pelos dourados que cobriam suas pernas... os pelos no abdome definido que subiam da barra do short... o queixo quadrado e
os lbios cheios, esboando um sorriso... os olhos mbar sorridentes se apertando na forte luz do sol, porque os culos escuros estavam pendurados em um cordo em
volta do pescoo...
Espere. Olhos mbar?
-Oi, Katie-disse Tommy Sullivan para mim com - ma voz grave.
Ento ele passou direto por nos subindo os degraus para o deque da sede do clube, e, passando pelas portas duplas, desapareceu dentro do saguo gelado pelo ar-condicionado.
Quatro
Sidney voltou o olhar incrdulo para mim no momento em que as portas duplas se fecharam atrs dele.
- Espera um minuto - disse ela tirando os culos escuros para olhar fixamente para mim. - Voc conhece aquele cara? Quem e ele? Nunca o vi antes. Eu me lembraria.
Mas eu no conseguia responder. Porque estava totalmente congelada.
Tommy Sullivan. Tommy Sullivan estava de volta  cidade. Tommy Sullivan estava de volta  cidade e tinha dito oi para mim.
Tommy Sullivan estava de volta a cidade, tinha dito oi para mim e estava um gato.
No. No. Isso no fazia sentido.
De repente eu estava de p. No podia ficar deitada ali nem mais um segundo. Estava surtando, basicamente.
-Katie?-disse Sidney protegendo os olhos do sol com uma das maos e olhando para cima. -Voc esta bem?
-Estou tima-disse automaticamente.
Exceto pelo fato de que estava mentindo (para variar). Eu no estava tima. Estava longe de estar tima. Precisava sair dali. Precisava sair. Precisava... eu no
sabia de que precisava. Eu me virei na direo dos degraus do deque da sede do clube, ento percebi que aquele era um lugar totalmente errado para ir. Era para onde
Tornmy tinha acabado de ir!
E eu no queria esbarrar com Tommy.
Ento me virei novamente, agora na direo da gua.
-Katie?-Sidney me chamou.-Aonde voc esta indo? Voc no vai entrar na gua, vai?
No respondi. Eu no podia responder. Comecei a andar para a gua, passando pelas crianas que construam castelos de areia-umas delas gritou comigo, indignada,
quando acidentalmente causei a queda de uma de suas torres.
No me desculpei. Continuei andando, passei pelos bebes brincando com suas avos na beira da gua, pelos garotos mais velhos na altura onde a gua batia no joelho,
e pelos garotos ainda mais atrevidos que remavam com a gua na altura das minhas coxas e os que flutuavam nas bias.
Atrs de mim, escutei Sidney chamar:
-Katie!
Mas continuei andando ate que a gua ficou na altura da minha cintura, e depois finalmente das minhas costelas, e ento o cho de areia fofa desapareceu sob meus
ps e eu enchi o pulmo de ar, fechei bem os olhos e me deixei afundar.
Era silencioso debaixo d'gua. Silencioso e frio. Pensei em ficar l embaixo, onde Tommy Sullivan nunca, mas nunca mesmo, iria me encontrar.
Mas ento eu me lembrei do e. coli e me ocorreu que alguns deles poderiam ter flutuado ate a praia particular. S porque o Iate Clube mantem os turistas afastados
da praia, no quer dizer que consegue manter as fezes deles longe da gua.
Ento eu nadei bem rpido ate a areia e voltei para minha toalha, pingando e com frio.
Mas pelo menos tinha tirado a imagem do novo e melhorado Tommy Sullivan do meu crebro. Em vez disso, tudo em que eu conseguia pensar eram doenas contagiosas.
O que, acreditem, era prefervel.
-O que foi isso?-perguntou Sidney quando eu ia, ofegante apos nadar na minha toalha.
-Fiquei com calor-foi minha desculpa esfarrapada.
-Meu Deus, eu percebi-disse Sidney.-Pensei que voc odiasse entrar na gua. Achava que voc ficava enjoada dentro d'gua.
-S sobre a gua-respondi.-Eu enjo em barcos.
-Mas voc tem aquela outra coisa, aquela coisa dos vermes...
-Eu tenho certeza de que vai ser tranqilo hoje - menti.-A gua parece clara.
-Ah. Ento, quem era aquele cara mesmo?
-Humm, aquele cara?
Bacilo. Isso que o e. coli e. Uma forma de bacilo. Era nisso que eu devia me concentrar. Bacilos. No em Tommy Sullivan. E no fato de que ele esta de volta. E gato.
Muito gato.
-Ah, aquele  o cara de quem Liam estava falando ontem  noite.
O que, eu pensei impressionada comigo mesma, nem era uma mentira.
-Aquele do acampamento?
-Ahan.
Bem, certo, isso era uma mentira.
-Humm-disse Sidney interessada. -Lembre-me de entrar para o acampamento um dia desses.
E foi isso. Assim foi o final da conversa. Especialmente por que Tommy no voltou. Eu fiquei deitada l-depois de ficar embaixo do chuveiro da praia por vinte minutos,
porque, bem, bacilos-esperando, tensa de ansiedade, pensando freneticamente no que eu diria se ele voltasse e tentasse falar comigo...
Mas ele parecia ter ido embora.
Talvez, pensei comigo mesma, aquele no fosse Tommy no fim das contas. Talvez fosse algum cara que eu servi no restaurante ou algo assim. Talvez apenas se parecesse
com Tommy Sullivan. Ou com Tommy Sullivan se ele tivesse ficado gato.
Talvez fosse apenas coincidncia Liam ter encontrado com um cara chamado Tommy Sullivan na noite anterior e eu ter visto um cara que poderia ser um Tommy Sullivan
mais velho e gato hoje.
S que... se ele no era Tommy Sullivan, como ele sabia meu nome?
E aqueles olhos mbar?
Seth e Dave voltaram da gua logo depois e fomos ate o deque tomar Coca-Cola. Nenhum sinal de Tommy Sullivan. Ou do Cara Que Podia Ser Tommy Sullivan Se Tommy Sullivan
Tivesse Ficado Gato.
Talvez fosse tudo minha imaginao. Talvez aquele cara fosse algum que a gente conhecesse da escola, algum garoto que eu nunca tinha notado antes e que cresceu
trinta centmetros no vero e comeou a malhar, como meu irmo, ou algo do gnero.
Era possvel. Coisas mais estranhas j tinham acontecido.
Depois de trocar de roupa e ir de bicicleta ate o Gulp para o trabalho, eu tinha esquecido completamente o incidente na praia-sem contar as noticias alarmantes de
Liam. No porque estivesse me concentrando em pensar em bacilos em vez disso, mas porque Seth, que me encontrou l para ficarmos um pouco no carro antes do meu turno,
no parava de me falar como eu estava bonita no meu biquni (eu sabia que andar de bicicleta l valer a pena). Ele comentou que nos teramos um ano incrvel - nosso
ultimo ano no colgio-e como estaramos lindos quando nos coroassem Rei e Rainha do Baile de Formatura.
O que, vou admitir, e uma coisa meio brega para se falar. Na verdade, Seth e eu temos verdadeiras conversas intelectuais de tempos em tempos. Bem, intelectuais pode
ser um pouco de exagero. Mas de vez em quando eu arrasto Seth para uma exposio de fotografia na cidade e tento explicar as imagens para ele, por que funcionam
ou no funcionam, na minha opinio.
E, tudo bem, em geral a gente simplesmente acaba dando uns amassos em algum parque ou algo assim.
Mas Seth era ,ais do tipo forte e silencioso. Ele e uma pessoa realmente boa.
E  por isso que, voc sabe, nunca vou poder terminar com ele. Porque isso seria maldade e eu no sou uma garota ma.
E  por isso que, mesmo depois do comentrio sobre o rei e a rainha do baile uma coisa levou a outra e logo nos estvamos dando uns amassos na cabine do carro dele...
apesar de ser dia claro e eu ter um turno de seis horas me esperando.
 simplesmente muito difcil se preocupar com um cara com quem voc no falou nos ltimos quatro anos quando a lngua de um outro esta na sua boca. Especialmente
quando acontece de ser a lngua de Seth Turner, que e provavelmente a lngua mais disputada de Eastport. Ao menos entre garotas adolescentes. E alguns garotos tambm.
Foi s depois que sai da picape do Seth e pedalei ate os fundos do restaurante, na entrada dos funcionrios, que vi Eric Fluteley esperando por mim ao lado do bicicletario.
Ento, claro, eu tinha que reclamar com ele por causa de toda aquela coisa de Morgan Castle. O que no foi fcil fazer enquanto o beijava, mas eu consegui. Minha
me diz que sempre levei jeito para fazer varias coisas ao mesmo tempo, que e por isso que eu tiro notas to boas e ainda consigo manter uma vida social decente
e tudo mais, e que mesmo quando eu era uma criancinha eu conseguia ver TV, colorir e fazer bolo no meu forninho de brinquedo simultaneamente.
O que no  to diferente, se voc for pensar, de beijar um rapaz enquanto ao mesmo tempo o acuso de ser um mentiroso sem-vergonha.
Acho que deve ter algo errado comigo. Quer dizer, por que eu preciso de DOIS namorados para ser feliz? Sidney parece totalmente satisfeita com apenas um.
Embora, na verdade, algumas vezes eu suspeite que no sou to feliz assim. Nem mesmo com dois namorados.
Eu sei, eu sei. Egosta, certo? A maioria das garotas morreria por UM namorado, e eu tenho DOIS, e ainda estou reclamando.
E, definitivamente tem algo errado comigo.
Entrei no Gull'n Gulp precisamente na hora em que meu turno estava comeando (porque eu consigo beijar e ainda ficar de olho no relgio), e logo estava to ocupada
que no conseguia ter tempo para pensar nessa situao de Seth/Eric... muito menos na coisa toda de Tommy Sullivan, e se ele estava ou no de volta a cidade. As
seis horas, cinco das mesas na minha rea estavam ocupadas, incluindo duas de oito lugares-um nibus de turismo com idosos que vinha subindo a costa. Mal tive tempo
de respirar. Eu definitivamente no tinha tempo para me preocupar com ruivos com belos olhos, barriga sarada e shorts quase caindo que poderiam ou no estar pensando
em se vingar de mim pelo mal que lhes fiz no nono ano.
Foi logo antes de eu ir passar os pedidos de bebidas da mesa do nibus de turismo para Shaniqua (por ser menor de idade, s posso anotar os pedidos, mas no posso
servir bebidas alcolicas, que no Gull'n Gulp so apenas cerveja e vinho) que Jill veio ate mim e disse:
-Ah, Katie, aquele cara achou voc?
-Que cara?-perguntei.
J eram sete horas e o lugar estava lotado-e barulhento. Peggy tira as quartas de folga, ento tnhamos deixado o som alto na cozinha, e estava dificil ouvir qualquer
coisa a no ser naquele momento em particular, Fall Out Boy.
-O garoto ruivo bonitinho que passou aqui mais cedo para perguntar a que horas voc trabalha. Eu disse a ele que voc estaria aqui hoje a noite. Quem e, por sinal?
Era um gato. Espero que Seth no descubra sobre ele! Iria ficar com cimes-disse Jill, percebendo um novo enxame de turistas se aproximar da entrada. - Oops, tenho
que ir.
Fiquei l segurando o pedido com a mo tremula. Um cara ruivo e gato tinha passado para perguntar a que horas eu trabalho?
Em um segundo eu estava me escondendo atrs do balco do bar, discando com fora os nmeros do Liam no celular.
-Yo!
Essa e a forma inacreditavelmente irritante como Liam atende o telefone agora que foi convidado pessoalmente pelo treinador Hayes a fazer teste para os Quahogs.
-Voc disse a Tommy Sullivan que trabalho no Gull'n Gulp ?-perguntei.
-Bem, ola, irmzinha querida-disse Liam numa voz falsa, ento soube instantaneamente que uma das Tiffanys ou Brittanys estava por perto.-E como vai voc nessa linda
noite? Tudo bem, pelo que parece.
-VOCE DISSE?-gritei ao telefone.
-Sim-disse Liam com sua voz normal-, qual e o problema?
-Argh!-Eu no podia acreditar. S podia ser um pesadelo, serio. -Tem alguma coisa que voc no contou a ele sobre mim, Liam? O tamanho do meu suti, por exemplo
?
- Hum-disse Liam-, no tendo acesso a essa informao, no, no contei.
Eu estava com tanto dio que poderia matar meu irmo. Serio.
-Diga apenas uma coisa-falei fechando os olhos enquanto tentava achar pacincia.-O Tommy... ele esta alto?
Liam parou para pensar na pergunta:
-Mais ou menos to alto quanto eu-disse ele depois de pensar por alguns segundos.
O que o faria ter por volta de 1,85m. A mesma altura do cara que eu tinha visto na praia.
-O cabelo dele esta meio compridinho?
-Sim-disse Liam.-Pode-se dizer que sim
Eu estava surtando novamente.
-Ele esta sarado? Quer dizer, malhado?
-E difcil dizer-disse Liam.-Levando em conta os mac~os de cigarro que ele tinha enrolados na manga e a jaqueta de couro...
-Cala a boca-disse.-Estou falando serio! Ele estava sarado?
-Eu no gostaria de encontrar com ele em um beco escuro-disse Liam seco.-Vamos dizer assim.
No consegui me impedir de dizer um palavro em resposta a essa informao. Liam fez um tsc tsc de reprovao.
- Ai, ai-disse ele-, essa e a forma de uma Prin cesa Quahog em potencial falar?
Furiosa, desliguei o telefone na cara dele antes que pudesse falar algo pior.
Eu no podia acreditar. Tommy Sullivan realmente estava de volta  cidade.
E ele realmente estava gato agora-um fato que foi confirmado por mltiplas fontes independentes.
E, aparentemente, ele no s sabia onde eu trabalhava, mas quando tambm.
Isso no era bom. Isso NAO era bom.
- Katie - perguntou Shaniqua, que apareceu na minha frente parecendo preocupada-, voc esta bem? Os turistas esto perguntando para onde voc foi.
-Tudo bem-disse eu.
Eu tinha que sair dessa. No podia deix-lo fazer isso comigo. Tinha que ficar normal. Tinha que ficar fria.
-Sim, desculpa. Preciso de quatro Bud Lights, duas taas de Merlot, trs Cabernets e trs Pinots.
-Sem problema-disse Shaniqua, ainda parecendo preocupada enquanto passei correndo por ela, de volta ao salo. -Ah, e a mesa do canto esta ocupada.
Ah, timo. Exatamente o que eu precisava. Seth e seus amigos tinham vindo comer bolinhos de quahog enquanto eu perdia a cabea pensando na possibilidade de um desagradvel
encontro com Tommy Sullivan. Ser que isso era algum tipo de punio por trair meu namorado? Se era, no era justo. No  traio se tudo o que voc faz e beijar.
Certo?
Peguei meia dzia de cardpios-um gesto ridculo, j que todos os Quahogs na cidade j sabiam o cardpio de cor e no precisavam deles-e fui em direo a mesa do
canto, pensando o tempo todo na minha recente mar de azar. Um nibus de turismo, Tommy Sullivan de volta a cidade, e agora meu namorado e seus amigos ali para acompanhar
minha falta de sorte de perto. Excelente.
S que quando eu cheguei na mesa do canto, Seth e seus amigos no estavam l. S tinha uma pessoa.
Uma pessoa com cabelo castanho-avermelhado, um pouco comprido.
Uma pessoa que parecia ser. considerando a forma como estava toda comprimida na cadeira, e como parecia desconfortvel, bem alta.
Uma pessoa cujos olhos mbar, na luz que vinha das luminrias de vidro com temas aquticos sobre as mesas, tinham se tornado intensamente verde-esmeralda.
Uma pessoa que, 100% de certeza, no era um Quahog, e, por isso, no tinha o direito de se sentar na mesa do canto, o que Jill deveria saber-s que Jill esta na
faculdade e no sabe nada do Eastport High, e ele obviamente tinha perguntado sobre mim, ento ela simplesmente pensou...
Deixei os cardpios carem. No foi proposital. Meus dedos pareciam ter ficado dormentes, e os cardpios simplesmente escorregaram das minhas mos. Sentindo o rosto
ficar vermelho de vergonha ao ver Tommy olhar para o cho, onde os cardpios se espalhavam em todas as direes, me abaixei para recolh-los. Eu no podia nem contar
com meu cabelo para esconder o rosto vermelho porque Peggy nos faz prender o cabelo para que no caia na comida.
No que tivesse feito alguma diferena se meu cabelo estivesse solto, porque, quando saiu da mesa para me ajudar a recolher os cardpios, Tommy teria visto meu rosto
brilhante de qualquer forma.
Foi s quando todos os cardpios estavam juntos, depois que eu me levantei e ele voltou para a mesa, que me atrevi a levantar o olhar para encontrar o dele novamente.
E vi que ele estava sorrindo. Sorrindo. -Oi, Katie-disse ele, com a mesma voz grave que usou quando passou por mim e por Sidney na praia - Quanto tempo!
Cinco
Eu falei a primeira coisa que passou pela minha cabea. Bem, no a primeira coisa, porque essa foi um palavro, e estou tentando com muito afinco no falar palavres.
A no ser para meu irmo.
Eu disse a segunda, que era:
-Voc no pode se sentar ai.
E, tudo bem, eu sei que isso soa infantil.
Mas era a verdade.
-O que?-disse Tommy levantando as sobrancelhas.
-Voc no pode se sentar ai-repeti.
Eu sabia que estava parecendo uma criana. Mas no conseguia me segurar. Meu corao estava batendo muito forte e eu me sentia enjoada, como quando esqueo de tomar
um Dramin antes de entrar no barco do meu pai.
-Essa mesa  reservada para Quahogs. E voc no e um Quahog.
O que podia, quase com certeza, se qualificar como a frase mais idiota do ano.
-Eu sei disso-disse Tommy calmamente com sua nova (bem, provavelmente no to nova para ele, mas nova para mim) voz grave. -Posso ter ficado longe por um tempo,
mas ainda estou familiarizado com os costumes locais. Mas acho que vou ficar aqui de qualquer forma. Sua amiga Jill j me assegurou que todas as outras mesas na
sua rea esto ocupadas.
Quando disse o nome de Jill, ele deu uma olhada para a entrada do restaurante. Segui seu olhar e vi que Jill estava olhando para nos. Ela levantou a mo e acenou
para a gente, animada, como se estivesse me dizendo:
"Olha, fiz um favor para voc! Arrumei uma mesa para o seu amigo gato! Pode me agradecer depois."
Tommy sorriu para ela.
Inacreditavelmente, Jill, que e assediada por um zilhao de clientes homens por dia ficou vermelha e olhou para o outro lado, dando uma risadinha.
Inacreditvel.
Bem, ela no sabia. Ela no sabia que estava flertando com Tommy Sullivan. Como poderia saber? Ela nem mesmo vivia aqui ha quatro anos.
-Tommy-falei olhando de volta para ele.
Eu no podia acreditar que aquilo estava acontecendo. No podia acreditar que estava realmente falando com ele. E no Gull'n Gulp, dentre todos os lugares possveis.
-Na verdade, agora e s Tom-disse ele com um sorriso.
E de repente me peguei me sentindo como Jill devia ter se sentido quando ele dirigiu aquele sorriso na direo dela um momento antes. Onde quer que tenha estado
desde a ultima vez que o vi, Tommy-quer dizer, Tom -Sullivan aprendeu a sorrir de um modo que causava algum tipo de forca eletromagntica secreta ou algo que faz
a cartilagem dos joelhos das meninas derreter. Tive que segurar no tampo da mesa para simplesmente no cair.
-Tom, ento-disse eu fazendo uma cara seria.
Porque, com Deus como minha testemunha, eu no ia mais deixar Tommy Sullivan usar seu sorriso-vodu em mim.
-Enfim. Voc sabe que se Seth Turner e aqueles caras entrarem e o virem aqui na mesa deles, vo dar uma surra em voc.
-Eles podem tentar-disse Tommy.
No como se quisesse se gabar. Mas de maneira realista, totalmente indiferente, quase entediada.
E posso apenas dizer que quando ele disse isso, meus joelhos ficaram ainda mais fracos?
Porque, aparentemente, no existe nada mais sexv que um cara que no se assusta com a possibilidade de levar uma surra do seu namorado.
Mas o fato de ser Tommy Sullivan me fazendo sentir isso estava me deixando surtada... exatamente como na praia, mais cedo. De repente tive um desejo insano de entrar
no mar e afundar a cabea na gua novamente, com ou sem e. coli. Eu precisava me acalmar. Precisava ficar sozinha. Precisava ficar debaixo d'gua apenas com os peixes
e as algas.
S que eu no podia. Porque estava no trabalho.
-Ningum se esqueceu do que voc fez, Tommy - eu me ouvi falar para ele.-Quero dizer, Tom. Eu sei que foi ha quatro anos, mas essa e uma cidade pequena, e os Quahogs
ainda so como deuses por aqui, ento...
-Uau. Eles finalmente conseguiram entrar na onda no e?
O tom dele no era de acusao. Ele, na verdade parecia que estava se divertindo. Seus olhos-ainda verdes como o rabo da sereia de vidro na luminria sobre sua cabea-estavam
sorrindo para mim.
E isso, por alguma razo, s me deixou mais furiosa.
-Eu no sei do que voc esta falando-disse nervosa.
-Quer dizer, voc realmente foi assimilada, no foi? -disse ele, balanando a cabea. -Eu no acredito que Katie Ellison, de todas as pessoas,  um deles agora.
Sempre achei que voc fosse mais esperta.
-No existe essa coisa de ns e eles, Tommy- informei.-Nunca existiu. Ns todos somos apenas pessoas.
-Certo. -O sorriso nos olhos dele desapareceu e ele no parecia mais divertido. -Foi por isso que fui expulso da cidade. E  por isso que eu no posso me sentar
aqui.
Antes que eu pudesse abrir minha boca para protestar -porque NAO era por aquilo que ele no podia se sentar ali; no podia porque apenas Quahogs (e suas acompanhantes)
podiam-ouvi Shaniqua chamar meu nome. Eu me virei e a vi sinalizando para mim das duas mesas grandes. Meus turistas precisavam de ateno.
-Tenho que ir-disse para Tommy. -Mas, serio... voc no pode se sentar aqui.
-Tecnicamente-disse Tommy-eu posso. Especialmente levando em considerao que j estou sentado.
-Tommy-, balancei a cabea, sem acreditar que aquilo estava acontecendo-, o que voc esta fazendo aqui? Serio.
-De verdade? Eu s quero falar com voc-disse ele, deixando o tom seco de lado. -E, pelo que seu irmo me falou, esse e o lugar onde tenho mais chance de encontr-la
sem seu namorado... ou devo dizer seus namorados ?
Eu gelei. De repente tive que me segurar a mesa com mais fora do que antes.
Ele sabia. Ele sabia sobre Eric.
S que... como? Liam no podia ter contado a ele porque Liam no sabe. Eu sei que Liam no sabe porque, se soubesse, j teria gritado comigo por causa disso, porque
ele e muito f do Seth...
Ento como ser que Tommy tinha descoberto? Ento caiu a ficha. Primeiro o Iate Clube... agora isso. - Voc esta me espionando?-perguntei, com um tom ultrajado.
- Espionar implica que voc fique se escondendo - disse Tommy calmamente. -Voc e quem parece que esta fazendo carreira nisso, no eu. Embora provavelmente j saiba
que qualquer um que entre com o carro no estacionamento dos fundos tem uma viso perfeitamente clara do que quer que esteja acontecendo entre o gerador de emergncia
e o bicicletario.
Ah, meu Deus! Pega no flagra! Tommy Sullivan me pegou direitinho, no flagra, beijando Eric Fluteley!
Eu tinha certeza de que ia desmaiar. No que j tivesse desmaiado antes. Mas deve ser assim que as pessoas se sentem-um tipo de calor por todo o corpo, seguido de
boca seca. No  de se estranhar que as pessoas no gostem. Nunca quis tanto ser outra pessoa-ou estar em outro lugar. Como Sidney van der Hoff. Ou debaixo d'gua.
-Ns no podemos conversar aqui-me ouvi murmurar.
-Tudo bem-disse ele calmamente. -Aqui no. Onde ento?
Boa pergunta. Em qual lugar poderamos ir onde nem Seth nem qualquer outra pessoa de Eastport pudesse nos ver juntos? Duckpin Lanes estava fora de cogitao, por
motivos bvios. Minha casa? De forma alguma. Nem a casa dos avos de Tommy. E se algum passasse de carro por ali e nos visse juntos-uma candidata a Princesa Quahog
e Tommy Sullivan?
Ah, Deus, aquilo era terrvel. Eu ia vomitar. Ia. O que ele queria? O que Tommy Sullivan podia querer de mim?
-Que tal o barco do seu pai?-perguntou Tommy - Ele ainda tem o barco?
O barco do meu pai? . Talvez funcionasse. Estava atracado nas docas. Meu pai no podia pagar a mensalidade para deixar o barco no Iate Clube. Ningum vai ate as
docas, a no ser homens velhos que gostam de pescar a noite. Ningum nos veria l. Ningum que importasse, de qualquer forma.
-Sim-falei.-L nas docas.
-Perfeito-disse Tommy.
E ele realmente saiu da mesa. Eu no podia acreditar, mas parecia que ele ia embora. Ele estava indo embora! Era um milagre!
-Encontro com voc l depois do seu turno. A que horas voc sai? Esse lugar fecha as dez nas noites de semana, certo?
Minha felicidade por ele estar saindo durou pouco.
-Es... espera-gaguejei.-Hoje? Voc quer que eu me encontre com voc no barco do meu pai hoje  noite?
-Isso vai ser um problema?-perguntou Tommy.
De p ele era to mais alto que eu que precisava levantar meu queixo para conseguir olhar nos olhos dele... que, saindo debaixo da luminria, tinham voltado a ser
da cor de mbar.
-Porque se for, talvez eu possa arrumar tempo para encontrar com voc l amanha de manha. Mas, voc sabe, na luz do dia qualquer um pode passar por ali e nos ver...
-Hoje  noite esta timo-disse eu rapidamente. -Encontro com voc l assim que sair do trabalho. Um pouco depois das dez horas.
Ele sorriu.
-No se atrase-falou e os cantos da boca se curvaram para cima.
E ento ele estava saindo parecendo impossivelmente alto e de ombros largos e to cool entre todos aqueles turistas gorduchos de pernas brancas que andavam a nossa
volta no caminho para o banheiro, a recepo ou a banquinha de souvenirs do Gull'n Gulp, onde voc pode comprar qualquer coisa, desde um casaco de moletom ate uma
cueca samba-cano, todos enfeitados com as palavras Gull'n Gulp.
-Quem e o gato?-perguntou Shaniqua, que veio ate mim enquanto eu continuava ali, parada, vendo ele ir embora.
Fechei rapidinho minha boca, que percebi, estivera aberta todo aquele tempo.
-Ningum-falei.
-Certo-disse Shaniqua com um sorriso diablico.-Assim como aquele cara de ontem a noite, o que a Peggy disse que viu voc beijando atrs do balco do bar, tambm
no era ningum?
Ento a Peggy no gosta de fofoca, n? Aparentemente fofoca e legal-se for ela fazendo.
-No como aquele cara-disse eu rapidamente. -Nada como aquele cara. Voc ao menos sabe quem era aquele cara?
-O de ontem  noite? Ou esse?
-Esse.
Eu tinha que contar para algum. Simplesmente tinha. Ia explodir se no contasse.
E quem melhor para contar do que Shaniqua, que nem mesmo cresceu em Eastport e s se mudou ha dois anos, de New Hampshire, para poder viver mais perto da cidade,
onde esta tentando entrar no mercado de modelos?
-Aquele era Tommy Sullivan-disse para Shaniqua, mesmo sabendo que o nome no significaria nada para ela.
S que eu estava errada. Porque o queixo da Shaniqua caiu.
- O Tommy Sullivan?-perguntou ela com os olhos arregalados.
-Aham.
-Senhorita-disse um dos idosos do nibus de turismo tentando chamar minha ateno. -Senhorita, nos estamos prontos para fazer o pedido agora.
-J vou-disse a ele.
Para Shaniqua eu disse:
-Espera... voc ouviu falar de Tommy Sullivan?
Serio, essa coisa toda ficou MUITO fora de proporo se ate mesmo uma aspirante a modelo de New Hampshire tinha ouvido falar de Tommy...
- Se ouvi falar dele?-disse Shaniqua balanando a cabea-Como poderia no ter ouvido? Tudo que voc tem que fazer e passar de carro pela escola, e l esta, pintado
com spray bem na parede do ginsio: TOMMY SULLIVAN E UM...
Eu a interrompi antes que pudesse completar a frase.
-E, eu sei. Eles ainda esto tentando juntar dinheiro para remover a tinta.
-E por isso que ainda esta l?-disse Shaniqua balanando a cabea.-Eu sempre me perguntei. Eles podiam pintar por cima...
-No da para pintar por cima daquele cor de laranja fosforescente-disse eu.-Quer dizer, a no ser que voc use preto. Mas essa no e uma das cores da escola.
Shaniqua torceu o nariz:
-Bem, isso e um problema. Ouvi dizer que o ginsio era bem novo quando isso aconteceu. Como algum pode ter feito algo to estpido?
Encolhi os ombros, de repente me sentindo como se, em vez de estar mergulhando no oceano, o oceano estivesse dentro de mim-frio e vasto e muito, muito solitrio.
-Voce sabe como crianas podem ser.
-Aquele pobre garoto...-disse Shaniqua, olhando Tommy indo embora, de costas, to lindo quanto de frente.-O que ele fez para ter algo como aquilo pintado na parede
da escola?
-Senhorita!-gritaram os idosos da minha mesa do nibus de turismo.
-Hum-falei, enquanto ia na direo deles.
Salva pelos turistas. Foi  primeira vez.
-O trabalho chama!
Certo.
Certo, ento estou em apuros. Seriamente em apuros. Tommy Sullivan sabe sobre mim e Eric Fluteley. Tommy Sullivan-Tommy Sullivan, de todas as pessoas-me viu com
Eric Fluteley.
E, tudo bem, que se dane, nos estvamos apenas nos beijando. Isso foi tudo que eu j fiz com qualquer cara, incluindo meu namorado serio de quatro anos.
Mas no vai fazer a menor diferena se Tommy resolver espalhar a noticia por ai. As pessoas no vo ligar. Eu ainda vou ser a menina que traiu um Quahog. No apenas
qualquer Quahog, mas Seth Turner, o irmo de Jake Turner, o mais amado Quahog de todos os
tempos... exatamente o mesmo Quahog cuja carreira promissora foi encurtada
to brutalmente por ningum menos que...
..Tommy Sullivan.
-Katie, espero que no tenha tido problema colocar aquele cara na mesa do canto-disse Jill enquanto levava um casal de meia-idade para uma mesa perto da gua.-Perguntei
a ele se era um Quahog e ele disse que era.
Tive que rir daquilo-mesmo que com sarcasmo. Quer dizer, Tommy pode estar aqui para arruinar minha vida e se vingar de mim por ter arruinado a dele...
..mas pelo menos ainda tem senso de humor.
-No, Jill-disse eu.-No muito.
-Serio?-disse Jill embasbacada-Mas ele e to gato. Eu simplesmente achei... ele me disse que estudava em Eastport.
O que?  timo. E bom saber que no sou a nica mentirosa na cidade, para variar.
-Jill-falei-, aquele cara se mudou daqui ha quatro anos.
-Uau!-disse Jill.-Bem, no vou senta-lo na mesa VIP novamente se algum dia ele voltar.
Espera... o que eu estava fazendo?
-Ah, no-falei.-Se ele voltar, voce pode com certeza senta-lo na mesa VIP.
Porque se Seth e aqueles caras o pegarem l, eles vo dar uma surra nele, e meus problemas estaro resolvidos...
No. Isso e simplesmente errado. No posso contar com meu namorado para me livrar dessa. Eu me meti nisso, e ia ter que me livrar sozinha.
O que significava, antes de tudo, ligar para Seth o mais rpido possvel e dizer a ele que no venha me encontrar depois do trabalho para os nossos amassos habituais
antes de eu ir para casa.
-Tem certeza, baby?-disse Seth, parecendo preocupado.
E por que ele no estaria, depois de eu lhe dizer que o motivo de no encontra-lo era que eu achava que tinha me contaminado com um caso leve de e. coli?
-Tenho-disse ao telefone, tentando soar como algum sofrendo com um bacilo no sangue.-No quero que voce pegue de mim.
S que e. coli s pode ser contrado por comida ou gua contaminadas. Mas Seth no e exatamente um gnio em biologia como eu. O que no quer dizer que seja burro.
Seus talentos simplesmente esto em outras reas que no a acadmica.
-Ento vamos esquecer hoje  noite-disse eu.
Estava agachada atrs do balco do bar, para que Kevin, o subgerente-que, como todos os subgerentes, e ainda mais tirano do que Peggy, a gerente-, no me pegasse
no telefone fora do intervalo.
-Devo estar melhor amanha.
-Mesmo?-disse Seth um pouquinho mais feliz. -Eu pensei que e. coli fosse tipo, superserio. Pensei que voce tivesse que ir para o hospital por causa disso e tudo
mais.
-Ah, no-falei-, no o tipo de 24 horas.
Ta, que se dane. No sou a nica mentirosa da cidade. Mas sou definitivamente a maior. Serio ser que ja existiu algum mais mentiroso que eu na historia de Eastport?
Pelo menos eu me sentia mal por causa disso. No senti nenhum trao de remorso no Tommy quando mentiu para a Jill, dizendo que estudava na Eastport High. Enquanto
isso, eu realmente sempre me sinto horrvel quando minto para o Seth.
Quinze minutos depois de sair do Gulp de bicicleta, cheguei a marina e olhei para o estacionamento quase vazio com os mastros dos barcos aparecendo ao fundo. Fiquei
ali parada, naquela noite calma observando os insetos que voavam atrados pela luz branca do farol da minha bicicleta e escutando o barulho da gua batendo. Era
difcil imaginar qual carro era o de Tommy. Eu s conseguia ver alguns caminhes velhos-mas esses pareciam pertencer aos velhos com suas varas de pescar debaixo
da ponte, onde as percas costumavam se agrupar a noite, segundo os rumores.
Tinha um Jeep Wrangler vermelho, mas aquele parecia ser um carro cool demais para Tommy Sullivan. Tinha que ser de algum turista que havia deixado seu iate na marina
para consertar, tirar cracas ou algo parecido.
Mas fui pedalando na direo do pier e no vi nenhum iate, s os barcos de pesca de costume que pertenciam aos pescadores locais. A lancha de motor duplo do meu
pai com a capota marrom-que ele queria trocar havia anos e estava agora um tanto rasgada e desbotada-balancava com as ondas no fim do pier.
E l estava, dava para ver iluminado pela lua crescente e as lmpadas ao longo da marina algum confortavelmente deitado na proa.
Algum que com certeza no era meu pai.
Eu senti algo quando o vi. Nem sei o que. Era como uma bola de fogo de emoes dentro de mim, incluindo - mas no limitadas a-raiva, remorso, culpa e indignao.
A maior parte da raiva era direcionada a mim mesma. Porque enquanto eu pedalava na direo do barco-bicicletas no so permitidas no pier; mas enfim, no tinha ningum
por perto para me impedir-e vi o quo confortvel Tommy estava, deitado, olhando para as estrelas, no conseguia me segurar e no pensar em como ele estava gato
com aquela camiseta preta apertada e aquele jeans desbotado que parecia marcar cada contorno do seu corpo forte.
E esse no  o tipo de pensamento que uma garota que tem um namorado deve ter sobre outro cara. Muito menos uma garota com dois namorados. Muito menos pensamentos
sobre Tommy Sullivan. Ah, sim. Eu estava numa encrenca seria.
Seis
-Ei!-disse Tommy quando finalrnente me notou no pier olhando para ele, recostando-se sobre os cotovelos. -Suba a bordo.
-De jeito nenhum-disse eu.
Ele riu. No de uma forma malvada, no entanto. Mas como se tivesse achado genuinamente engraado.
-Certo-disse ele, sentando-se e balanando as pernas na proa, em frente  porta da cabine de baixo. -Esqueci o quanto voce odeia barcos. Ate mesmo aqueles que esto
ancorados. Ainda fica enjoada?
- S me diz o que voce quer-falei apertando com fora o guido da bicicleta e tentando manter a voz firme - para eu poder ir embora logo.
-Na-nao-disse ele sacudindo depressa a cabea. -Tome um daqueles remdios que voce sempre carrega - entre no barco-falou com um sorriso que mesmo sob a luz da lua
dava para ver que era amargo. -Voce no vai sair dessa to fcil.
Eu senti uma lufada de raiva to pura e intensa que quase me derrubou da bicicleta dentro d'gua. Algo com que eu no teria me importado, na verdade. Qualquer coisa
para me distrair do fato de que Tommy Sullivan estava um gato.
E eu no podia acreditar que estava pensando nisso. Quer dizer, aquele cara estava praticamente me chantageando para me associar a ele, e eu ainda o achava um gato?
Tem alguma coisa errada comigo. Serio.
Pelo menos eu no era a nica pessoa que tinha alguma coisa que estava errada.
Porque tem que haver algo errado com algum que se lembra de um fato banal como eu nunca ir a lugar nenhum sem Dramin (do tipo que no da sono) na minha bolsa.
E, verdade, e duro viver numa cidade litornea quando voce sofre de enjos crnicos em barcos. No consigo nem botar os ps no Run Agroud-um barco-restaurante to
firmemente ancorado ao pier que mal se move, e que serve um cafe-da-manha incrivelmente popular entre pessoas como a minha me, que ama qualquer coisa bonitinha
e relacionada com o mar-sem pensar que eu vou vomitar.
Mas como Tommy Sullivan conseguia se lembrar disso depois de todos esses anos?
Fazendo cara feia, desci da minha bicicleta, abaixei o descanso, tirei o capacete, procurei na mochila-onde eu tinha colocado meu biquni ainda molhado da praia,
minha maquiagem e essas coisas-e achei uma das pequenas plulas amarelas que eu costumava carregar para todo lado desde os 12 anos. Eu a engoli sem nem mesmo pensar
em pegar a garrafa de gua que tambm tinha na bolsa. Quando j tomou tantos remdios para enjo como eu, no precisa mais de lquidos para engoli-los
Ento, ainda de cara feia, subi no barco do meu pai - anos de pratica (todo mundo em Eastport tem um pai que pesca) me deixaram craque em subir e descer de barcos-e
senti meu estomago embrulhar, como sempre acontecia quando o cho se movia um pouco sob meus ps. Demora um tempo para o Dramin fazer efeito.
-Certo-disse eu, largando a bolsa e o capacete no cho do barco, e ento me sentando no banco em frente ao que Tommy estava sentado.
Eu estava tentando manter uma postura muito profissional. Porque era isso que era. Um encontro de negcios. Tommy Sullivan queria
algo. E eu ia fazer o possvel
para providenciar o que quer que fosse para que ele no me dedurasse para o meu namorado sobre o outro namorado.
-Estou aqui. Agora, o que voce quer?
- Eu disse a voce-disse Tommy olhando para mim de cima do seu poleiro na proa. -S quero conversar.
-Conversar-repeti duvidando.
-Conversar-repetiu ele. -Voce lembra, no lembra, que a gente costumava conversar um bocado.
-Isso foi ha muito tempo.
Descobri que no era muito fcil olhar diretamente para ele-apesar de essa ser uma parte importante de manter uma postura profissional. Sei disso porque ocasionalmente
folheio a publicao preferida dos meus pais, Revista Imobiliria, e  o que eles dizem.
Mas a Revista Imobiliria nunca publicou nenhum artigo sobre como voce deve manter contato visual com um cara cuja ris muda de cor por causa da luz, e que ainda
por cima fica to bem de jeans que todos os pensamentos sobre seu(s) namorado(s) fogem s de v-lo.
Seth Turner, disse com firmeza a mim mesma. Voce  a namorada de Seth Turner, o garoto mais popular de toda Eastport depois do irmo mais velho dele. Seth Turner,
o era por quem voce era apaixonada durante todo o primrio, e que voce ficou to feliz de beijar no ultimo ano antes do ensino mdio, quando ele finalmente a notou.
E, tudo bem, talvez ele tenha se tornado uma pessoa sem graa para se conversar, mas voce no quer terminar com ele, porque o que as pessoas iriam pensar?J e ruim
o suficiente voce o estar traindo com Eric Fluteley. No piore ainda mais as coisas.
S que, bem, o luar meio que realava os contornos do rosto de Tommy, fazendo-o parecer ainda mais bonito e misterioso do que na praia, quando eu no sabia ainda
quem ele era.
E o barulho da gua batendo contra o casco do barco era muito romntico.
Deus, o que ha de errado comigo? Sou pior do que Ado Annie, a garota no musical Oklahoma!, que se deixa levar tanto por qualquer cara que no consegue dizer no.
No, espera. Eu no sou to ruim quanto ela. Eu sempre digo no...
Menos para beijar.
E Tommy Sullivan parecia muito divertido de se beijar...
Ah, Deus.
-Ento, Liam me disse que voce esta concorrendo a Princesa Quahog-disse Tommy, casualmente interrompendo meus pensamentos sobre beij-lo.
Princesa Quahog Sim! Concentre-se nisso. Qualquer coisa menos a boca de Tommy Sullivan.
-Sim-falei-, estou.
Ento, porque eu me lembrei, muito claramente, de ter feito piadas com Princesas Quahog quando Tommy e eu costumvamos andar juntos, acrescentei depressa:
-O dinheiro e realmente muito bom. So 1.500 dlares para o primeiro lugar. Que a Sidney vai ganhar claro, mas eu tenho uma chance de ficar em segundo. As nicas
candidatas so Morgan Castle, e voce sabe que ela mal fala. E tambm tem a Jenna Hicks...
Minha voz sumiu. Eu no queria falar nada de ruim sobre Jenna, que provavelmente e uma pessoa muito legal. Ela s nunca fala com ningum, ento e difcil perceber
isso.
Eu no precisava ter me preocupado. Tommy falou por mim. Ele sempre soube como dizer o que eu estava pensando, mas no queria revelar por medo de parecer ma e me
tornar to impopular quanto ele sempre foi.
-Jenna ainda veste s preto?-quis saber Tommy.
-Ainda-disse eu.
Eu no podia acreditar que ele se lembrava. Quer dizer, uma coisa era se lembrar de mim e do Dramin, considerando o quanto Tommy e eu costumvamos andar juntos.
Mas era outra bem diferente se lembrar de Jenna Hicks, com quem tenho quase certeza que Tommy nunca andou. Quer dizer, mesmo Jenna, uma ningum como ela sempre foi,
considerava Tommy ainda mais ningum do que ela.
-A me a esta obrigando a participar. Eu acho que ela pensa que a Jenna vai fazer novos amigos, ou algo assim. Alguns que no se interessem por, voce sabe... Morte.
No que estivesse adiantando.
-Ainda assim-acrescentei-o segundo lugar ganha mil dlares.
Tommy assobiou:
- uma grana.
- no que eu estou pensando. Quero muito comprar a nova Leica digital...
-Ainda na coisa da fotografia-disse ele.
No foi uma pergunta.
-Sim-falei, tentando afastar uma repentina enxurrada de memrias de todos os tempos quando ele e eu fizemos matrias juntos para o Eastport Middle School Eagle,
ele escrevendo as matrias e eu fotografando.
E rezando fervorosamente o tempo todo para Sidney no descobrir o quanto eu realmente gostava de estar com algum to impopular quanto Tommy. Provavelmente seria
melhor, nessas circunstancias, no pensar nisso.
Ainda assim, no resisti e perguntei, porque estava curiosa:
-E voce? Ainda escrevendo?
- Voce esta olhando para o ex-editor chefe-disse ele-do jornal semanal da Academia Militar Hoyt Hall, The Masthead.
-No pode ser!-gritei, esquecendo como era esquisito, a minha animao por causa dele... editor chefe, isso e grande.-Que maravilhoso, Tommy! Editor chefe?
Ento eu pensei em algo e meu sorriso foi se apagando.
-Espera, voce disse ex-editor chefe?
Ele balanou a cabea positivamente.
-Eu sai. Apareceu coisa melhor.
-O que poderia ser melhor que editor chefe?- perguntei, realmente tentando imaginar.
Ento, porque tinha acabado de cair a ficha, eu gritei:
-Espera... academia militar?
Ele encolheu os ombros novamente.
-Nada demais.
Ento-acho que por causa da minha expresso, que ainda era de descrena-ele acrescentou:
-Eu no odiava o colgio, Katie. Quer dizer, no era como nos filmes. Para comear no era s para meninos. Graas a Deus.
Eu pisquei. Tinha esquecido, naqueles poucos momentos, tudo sobre odia-lo. Em vez disso, eu apenas me sentia muito, muito mal.
Embora fosse discutvel por quem eu me sentia pior - por ele ou por mim.
-Ah, Tommy-falei. -Foi para l que voce foi depois daqui? Escola militar?
-Eu quis-garantiu ele com um sorriso.-Achei que podia ser til aprender um pouco de defesa pessoal. Depois do que aconteceu aqui, e tudo mais, antes de eu ir embora.
Ento era isso que ele quis dizer quando disse no restaurante, eles podem tentar.
E por que ele estava to sarado.
-Estou surpresa de voce ter voltado, de qualquer forma-disse olhando fixamente para os meus sapatos... meus Pumas, porque e difcil ficar a noite inteira de p de
sandlias.-Quer dizer... voce s pode odiar isso aqui.
-Eastport?-disse Tommy parecendo surpreso.- No odeio Eastport. Eu adoro Eastport.
-Como pode dizer isso?-perguntei, olhando para cima surpresa. -Depois do que aqueles caras fizeram com voce?
-Voce pode adorar um lugar e ao mesmo tempo odiar algumas coisas nele-disse Tommy. -Devia saber disso.
Eu olhei para ele:
-Do que esta falando?
-Bem, olhe para voce. Esta concorrendo a Princesa Quahog, mas voce no suporta quahogs.
Eu engasguei-apesar de secretamente estar aliviada por ele estar se referindo apenas ao meu dio por quahogs, os mariscos.
-No odeio mais quahogs-menti rapidamente me levantando.
-Ah ta-disse Tommy com uma risada sarcstica. -Voce no tocaria num quahog com uma vara de trs metros! Voce sempre disse que eles tem gosto de borracha.
-E que leva um tempo pra conseguir gostar deles - menti um pouco mais, chateada porque ele estava certo... quahogs realmente tem gosto de borracha para mim.
Eu no entendo como algum consegue suporta-los, muito menos fazer uma festa da cidade em homenagem a eles.
-E eu finalmente consegui-menti ainda mais.
Serio, e incrvel a quantidade de mentiras seguidas que consigo inventar quando estou motivada da maneira certa.
-Claro que voce conseguiu-disse Tommy com sarcasmo, descruzando os braos e me fazendo ver~ com esse gesto, como suas mos ficaram grandes desde que eu o tinha visto
pela ultima vez. Nossas mos eram exatamente do mesmo tamanho.
Agora as dele pareciam ser capazes de engolir as minhas por inteiro.
Desviei meu olhar das mos dele com esforo-imaginando, enquanto o fazia, por que eu no conseguia parar de pensar em como seria a sensao de ter aquelas mos grandes
tocando minha cintura, se Tommy Sullivan resolvesse esticar os braos na minha direo, me agarrar me puxar para ele e comear a me beijar...
No que ele tivesse dado alguma indicao de que beijos estivessem em seus planos. E s que, com a luz da lua e o som da gua e o fato de ele ter ficado to gato
e o fato de eu basicamente ser viciada em beijar, era meio difcil no pensar nisso.
Tommy aparentemente no estava tendo nenhum problema em resistir a esse tipo de pensamento. Pelo menos foi o que transpareceu com sua pergunta seguinte.
-Entao... Seth Turner. Acho que finalmente deu certo para vocs, tambm.
Eu sabia o que ele queria dizer. Sabia exatamente o que ele queria dizer. Porque Tommy tinha sido uma das poucas pessoas para quem eu revelei o segredo da minha
queda por Seth, ainda na sexta serie. Eu tinha imaginado que contar para Tommy fosse seguro o suficiente, considerando que ele no tinha outros amigos alem de mim.
Ento para quem ele ia contar?
-Sim-disse de modo inocente.
Aonde ele queria chegar com aquilo?
-Ele tambm deve ser algo de que voce aprendeu a gostar-observou Tommy.
-Voce no o conhece-falei, levando minha mo  cabea para ajeitar uma mecha de cabelo, porque Sidney e eu lemos na Glamour que garotos gostam de meninas que brincam
com os cabelos.
Embora o que eu estava fazendo, tentando fazer com que Tommy Sullivan gostasse de mim (voce sabe, daquela forma), eu no conseguiria explicar nem em um milho de
anos.
-Ta bom, ta bom-disse Tommy, que parecia no ter notado meu truque de mexer no cabelo.
Eu sei! Eu com certeza estava flertando com Tommy Sullivan! Tommy Sullivan, a pessoa mais odiada de toda Eastport.
Mas eu no conseguia me segurar.
-As coisas mudaram desde que fui embora-continuou Tommy. -Especialmente voce.
-Ah-disse eu, desconfortavelmente ciente de quo errado ele estava-, eu no estou to diferente assim.
-Talvez no por dentro-disse Tommy-, mas e por fora? Voce passou por todo aquele velho clich da lagarta que vira borboleta.
Isso foi meio engraado, vindo de quem vinha.
-Eu s tirei o aparelho-falei-e fiz luzes, e aprendi a arrumar meu cabelo.
-No seja modesta-disse Tommy quase como se estivesse impaciente comigo-, e no e s a sua aparncia. Voce parece ter se livrado rnilagrosamente do estigma de ter
andado comigo tanto tempo atrs. Na verdade, pelo que eu pude observar, voce e uma das pessoas mais queridas e mais populares da cidade.
-Depois de Sidney-ressaltei, observando que os olhos dele, na luz da lua no pareciam ser nem verdes nem cor de mbar, mas quase prateados.
Tambm percebi que seus lbios eram msculos e pareciam fortes.
Quem imaginaria que o Tommy Sullivan magrinho iria crescer e ter lbios to bonitos? Eu no imaginava. Isso com certeza.
 -Sidney sempre foi popular-concordou Tommy-, mas no to universalmente querida como voce parece ser. Voce tem o pacote completo: bonita, amigvel, trabalhadora,
simptica com os mais velhos...
Fiquei imaginando como ele poderia saber disso, mas depois me lembrei dos turistas.
-...talentosa, melhor aluna da sala... agora que eu no estou mais por perto para competir com voce. Filha de dois moradores locais muito queridos, irm de um futuro
Quahog. Na verdade, a no ser pela sua aparente inabilidade para se contentar com apenas um cara de cada vez, voce se transformou na candidata ideal a Princesa Quahog.
Eu tinha me deixado levar, escutando todas aquelas coisas boas que ele estava dizendo sobre mim, que meio que me inclinei na direo dele e me deixei a disposio
para ele me agarrar... imaginando que a qualquer momento ele fosse passar os braos em volta da minha cintura e comear a me beijar.
Mas quando ele chegou a parte sobre minha inabilidade de me contentar com apenas um cara de cada vez, olhei para ele e gritei:
-Ei! Isso no e justo! No posso fazer nada se os caras se sentem atrados por mim.
-Voce na verdade pode fazer alguma coisa. Dar uns amassos com eles atrs de geradores de emergncia - ressaltou Tommy num tom seco.
Eu fechei a cara.
-No sei o que quer de mim, Tommy-disse irritada-, mas eu no vou ficar aqui nem mais um segundo se voce for apenas me insultar.
E eu me virei para ir embora.
E exatamente como eu esperava que ele fosse fazer ele esticou o brao e me segurou, bem acima do cotovelo, puxando-me de volta para perto dele.
-No to rpido-disse ele com uma risada-, ainda no acabei de falar com voce.
-Ah, voce acabou, com certeza-falei com certeza na voz, olhando para ele por entre meus clios (outra dica da Glamor) - tudo que voce fez desde que voltou a cidade
foi me espionar para depois ficar me insultando na minha cara. E melhor que no tenha voltado aqui para escrever uma materia-denuncia sobre Eastport ou algo assim,
Tommy, ou eu juro que vou...
-Vai fazer o que?-perguntou ele, ainda parecendo se divertir. -Vai me largar como uma batata quente e fingir que nunca me conheceu, muito menos que ia para a minha
casa depois da escola para estudarmos juntos e comermos os cookies de manteiga de amendoim que minha me fazia? Ah, espera, voce j fez isso.
Mas eu no me importava com o que ele dizia. Porque ele ainda estava segurando meu brao. Sua mo era to grande que os dedos e o dedo quase se juntavam em volta
do meu brao.
E, agora que eu estava to perto dele, dava para sentir o aroma suave de sua loo ps-barba.
 difcil ficar chateada com um cara que cheira to bem
-Bem-falei com uma voz um pouco mais calorosa-, se voce no esta escrevendo uma matria- denuncia horrvel sobre Eastport, o que quer comigo, ento?
-Eu s queria dizer uma coisa-disse Tommy olhando nos meus olhos.
Mas, em vez de me beijar, o que eu estava comeando a pensar que ele faria, ele disse:
-Eu me matriculei na Eastport High. Vou comear l nesse outono.
Sete
-O QUE?
Soltei meu brao da mo dele.
-Espere um minuto... quando voce disse ex-editor chefe voce queria dizer que... Tommy, voce esta de volta a Eastport permanentemente?
-Sim-disse ele com calma.
-Era a isso que Jill se referia-falei, comeando a andar de um lado para o outro no barco do meu pai (9 metros da proa a popa)-quando disse a ela que estudava em
Eastport High. Porque voce vai estudar em Eastport High!
-Eu me matriculei na semana passada-disse Tommy num tom indiferente.
-Tommy!
Aquilo era horrvel. Era terrvel. A pior coisa que eu tinha ouvido na vida.
-Voce... voce no pode fazer isso.
-Hum, me desculpe, Katie, mas, sim, eu posso.  um pas livre.
-No e isso que eu quero dizer. -Senti o peito apertado.
-Se esta chateada porque minha presena vai fazer voce perder a posio de melhor da turma-disse Tommy suavemente-, acho que posso entender sua reao. Mas eu nunca
soube que voce era to competitiva...
-No e isso!-gritei.
Porque eu no tinha nem sequer pensado nisso. Era verdade que Tommy e eu sempre competimos pelo primeiro lugar da sala - especialmente em literatura - e que desde
que ele foi embora mantive a posio com facilidade, nem tanto por ser mais inteligente que meus colegas (da forma como eu sempre suspeitei que Tommy era), mas porque
eu sou uma das nicas pessoas na minha serie que realmente estuda. Porque eu meio que gosto disso... um fao que meus amigos aceitam, mas no entendem muito bem.
-O que eu quero dizer-continuei-e que eles vo matar voce.
-Pensei que no existisse nos ou eles-ressaltou Tommy.-Pensei que todos fossemos apenas seres humanos. Ou no foi isso que voce me falou hoje mais cedo?
-Tommy!
Eu no podia acreditar que ele estava usando minhas prprias palavras contra mim. E mais, que estava fazendo disso uma piada.
-Isso e serio! Voce no entende? Isso e... isso  ...
 Eu no conseguia pensar em uma palavra forte o suficiente para explicar o que sentia sobre aquele assunto. Ele e o escritor, no fim das contas no eu. Finalmente
me contentei com:
- Tommy, isso  ridculo!
-Sua f - disse Tommy, descendo da proa e se levantando ate ficar do seu tamanho real - na minha habilidade em me proteger dos seus amigos e realmente emocionante,
Katie.
Eu olhei para ele. No conseguia acreditar que ele pudesse ser to... to... gato.
E to burro.
O que tinha acontecido com ele? - Tommy Sullivan nunca foi burro.
Mas, eu acho que as pessoas realmente mudam. Tommy Sullivan nunca foi gato tambm. E agora olha s para ele.
O que era, na verdade, um dos problemas. Eu no conseguia parar de olhar para ele.
Bem, chega, decidi. Eu o encarei, levantando meu queixo para olhar bem nos seus olhos.
-No estou brincando, Tommy-falei. -Se acha que algum esqueceu o que voce fez, esta seriamente enganado.
- No-disse Tommy, tenso. -Da para ver que eles ainda nem se preocuparam em apagar meu nome da parede do ginsio...
Ah, meu Deus. Ser que todo mundo ia mencionar isso hoje?
-Porque a remoo da tinta no esta no oramento... - No-interrompeu Tommy de modo decidido.- Porque eles querem que as pessoas se lembrem. Isso e um aviso para
qualquer um que possa querer se meter com os todo-poderosos Quahogs...
-Shh!-fiz eu, para ele calar a boca, olhando em volta para ter certeza de que os pescadores debaixo da ponte no o tinham ouvido.
-Olhe para voce-disse Tommy com uma risada. -Tem medo ate de dizer qualquer coisa negativa sobre eles em voz alta.
-No tenho-insisti. -E s que voce sabe como as pessoas aqui so em relao aos Quahogs.
Eu no consegui evitar soltar um grunhido frustrado.
- Tommy, por que voce tem sempre que andar por ai antagonizando todo mundo? Voce no sabe que se vai muito mais longe na vida sendo amigvel?
-Essa e uma forma engraada de se falar-disse Tommy com uma risada.
Eu olhei para ele com suspeita:
- O que voce quer dizer?
-Bem, o que voce chama de ser amigvel, eu chamo de mentir. Como o fato de voce ainda fingir que ama seu namorado, mesmo que esteja claramente to de saco cheio
dele que esta ficando com outro cara.
Tomei flego para negar isso, mas ele continuou:
-Mas imagino que voce ache que iria antagonizar muitas pessoas se fizesse a coisa certa e simplesmente terminasse com ele.
-Isso...-comecei a gritar, mas ele me cortou.
-O negocio e que dizer a verdade pode antagonizar muita gente. Mas estou disposto a correr esse risco. Ao contrario de algumas pessoas.
-Mas existem algumas coisas que as pessoas no PRECISAM saber-gritei.
Eu no conseguia acreditar que depois daquele tempo todo ele ainda no tinha percebido isso.
-Como o fato de dois dos seus principais jogadores e mais um monte de seus colegas de time terem colado nas provas de admisso para a universidade?-perguntou Tommy,
indo direto ao assunto.
E l estava.
Ele falou. No eu.
Era impressionante. Toda a dor e a ansiedade daquele dia ha quatro anos voltaram imediatamente, como se nem um segundo tivesse se passado desde ento. De repente,
eu tinha 13 anos novamente, com meu aparelho e com um caso serio de cabelo armado (eu ainda no tinha conhecido Marty ou aprendido sobre produtos e formas de ajeitar
meu cabelo), implorando a Tommy que no dizesse o que ele estava to disposto e determinado a fazer, independentemente de quais fossem as conseqncias.
E as conseqncias acabaram por ser muito mais severas do que mesmo eu poderia ter previsto-para ns dois.
-Falei para voce no publicar aquela historia-tentei lembra-lo quatro anos depois do ocorrido.
-Sim-disse Tommy encostando novamente na porta da cabine e cruzando os braos sobre o peitoral (um ato que fez com que seus bceps impressionantemente redondos inchassem
um pouco... uma viso que me fez olhar para outro lado, j que me deixava um pouco sem ar)-, voce falou.
-No porque eu pensasse que era errado aqueles caras serem pegos pelo que estavam fazendo-continuei, tentando faze-lo entender algo que, ha quatro anos, eu mesma
no tinha conseguido entender muito bem-, mas ainda no consigo entender por que VOCE tinha que ser a pessoa a denuncia-los. Voce poderia ter contado diretamente
para o editor chefe do Gazette. Ele teria publicado a matria. O sr. Gatch nunca foi amiguinho do treinador Hayes, como o editor de esportes.
A expresso de Tommy, na luz da lua, s poderia ser descrita como incrdula.
- Era minha histria, Katie-disse ele.-Eu queria escreve-la.
- Mas por que?-perguntei.-Se voce sabia exatamente como as pessoas iriam reagir?
- Voce sabe por que-disse ele. -Voce sabe como eu me sentia sobre esportes... e sobre os Quahogs, especificamente.
- Certo. E  por isso que eu no entendo por que... -Porque o que eles fizeram era errado, Katie-explicou Tommy pacientemente, como se eu tivesse 13 anos. -Eles
estavam arruinando o time. Quer dizer, quem aqueles caras estavam prejudicando com o que eles fizeram? Outros alunos, essas so as pessoas. Alunos que estavam fazendo
as provas naquele dia e no estavam colando, alunos que realmente estudaram. E tudo bem, eu no era um desses alunos porque eu no ia tentar entrar na faculdade
na stima serie. Mas ainda assim. O que eles fizeram foi errado. E no foi
como se eu no tivesse dado a eles a chance de se entregarem antes de eu publicar a matria.
- Ah, ta-falei entediada-, como se eles fossem fazer isso. Bolsas de estudo estavam em jogo, Tommy. Alem disso, eles no achavam que voce teria coragem de realmente
fazer o que fez.
-Bolsas de estudo?-riu Tommy, sarcstico.-E, foi com isso que todo mundo ficou to chateado. Porque eles perderam a chance de ter bolsas de estudo decentes. Qual
e, Katie. Ningum ligava para o futuro daqueles caras. A nica coisa que importava para todo mundo nessa cidade estpida era uma coisa, uma nica coisa: o campeonato
estadual.
-Do qual eles tiveram que desistir-lembrei a ele.
-Como bem deveriam-disse Tommy, firme.- Eles eram um bando de desonestos. No mereciam jogar.
- Tommy-disse eu balanando a cabea, ainda sem acreditar que, depois de todo aquele tempo, ele no conseguisse ver a magnitude do que tinha feito-, eles eram Quahogs.
Eu disse a voce para no publicar aquele artigo. Eu falei que as pessoas no iam gostar...
Ele levantou uma das mos fazendo um sinal para interromper o fluxo das minhas palavras.
-No se preocupe, eu escutei voce da primeira vez. E eu no a culpo, Katie, por escolher se livrar de mim naquela poca. Voce fez o que tinha que fazer para sobreviver.
Esse e o territrio dos Quahogs. Eu entendo isso.
Ele no sabia. Eu no podia acreditar, mas era verdade. Tommy Sullivan no tinha idia de como eu consegui sair fora daquela areia movedia de impopularidade na
qual tinha medo de afundar por causa da proximidade com ele depois que a historia saiu no Eagle. Ou o que eu tinha feito para convencer meus amigos-e, mais importante,
Seth Turner-de que Tommy e eu estvamos longe de ser amigos.
Ele no poderia saber, ou teria que ter falado alguma coisa.
Ento e claro que ele no me culpava.
Ser que ele fazia idia de quantas noites eu passei em claro, me culpando pelo que eu tinha feito... ou no tinha feito, para ser mais precisa?
Bem, eu no ia dizer isso a ele. Quer dizer, e verdade que eu sou uma mentirosa, e que, sim, eu sou louca por garotos-uma combinao mortal, na maioria das vezes.
Mas no sou burra.
-Se voce sabe disso-disse eu-, ento por que voce quer voltar para c, Tommy?
Ele sorriu. Foi um sorriso bom... o tipo de sorriso que eu me lembro de ver em seu rosto quando ns dois fazamos aulas de literatura avanada... mas ainda estvamos
na quinta serie.
-Isso e um segredo s meu-disse ele ainda sorrindo-, mas voce pode descobrir. Talvez.
Eu o olhei. No gostei de como aquilo soou. No gostei nem um pouco de como aquilo soou.
-Voce no pode pensar-falei, tentando pela ultima vez convence-lo do quo idiota estava sendo, porque, na verdade, eu no tinha certeza de que seria capaz de agentar
se aquele rosto lindo ficasse todo deformado- que vai simplesmente entrar todo feliz na Eastport High na semana que vem e ser recebido de braos abertos.
-Ah, eu no sei-disse Tommy despreocupado, todos os caras com quem me desentendi j saram ha muito tempo.
-Mas os irmos deles no saram-lembrei-o.- Como Seth.
-Voce realmente acha que Seth se lembra de como tudo aconteceu?-perguntou Tommy.
-E claro que ele se lembra, Tommy.
-Eu no teria tanta certeza-disse Tommy.-Ser que eu sou a nica pessoa que se lembra que Seth Turner achava que arvores soltavam ar frio, porque quando voce ficava
na sombra era mais fresco que no sol?
Fiquei toda vermelha de vergonha. E verdade que Seth no e o cara mais brilhante que eu conheo, mas...
-Isso foi no sexto ano!-gritei.
-Exatamente-disse Tommy.-No sexto ano, voce e eu sabamos direitinho que o ar era frio por causa das frentes frias vindas do Canad. Seth, Sidney e o resto deles?
No sabiam muito bem. Mas acho que voce sempre soube disso. Eles sempre foram seus amigos. Embora eu tenha que dizer que acho que o coitado e idiota do Seth merece
um tratamento melhor. Porque serio, Katie. Eric Fluteley? Aquele cara no e melhor que o restante deles.
-Ah como se voce fosse muito diferente-gritei fazendo drama.
Porque eu sabia perfeitamente bem que Tommy estava certo. Eu estava me aproveitando da natureza crdula e inocente de Seth. E me sentia podre por causa disso. De
verdade.
-Andando por ai espionando as pessoas...
-Observando o mundo a minha volta-corrigiu Tommy. -Isso e o que um bom jornalista faz. Ento... eu devo deduzir da sua reao a isso tudo que voce vai ser uma das
pessoas a me ignorar nos corredores da Eastport High na semana que vem?
Estreitei os olhos e o encarei.
- Isso depende. Voce vai me tratar da mesma forma que tratou Jake Turner e aqueles caras, e deixar eu ser a pessoa que vai contar para Seth sobre Eric e eu, antes
que voce faca isso?
-Katie-disse ele olhando para mim e parecendo ofendido-, eu sou um dedo-duro, e verdade. Mas s quando e para o bem comum. O fato de voce ficar com Eric Fluteley
escondida de seu namorado no prejudica ningum a no ser seu namorado, e possivelmente Eric. O problema e todo seu.
Quase desmaiei de alivio.
-Ah, que bom.
Eu estava prestes a dizer a ele que no claro que eu no seria uma das pessoas a ignora-lo nos corredores da Eastport High na semana seguinte... que eu faria tudo
que estivesse a meu alcance para ajuda-lo a tentar se enturmar... quando ele continuou, como se eu no tivesse dito nada.
- claro que eu imagino que voce talvez queira se perguntar por que parece no se satisfazer com apenas um cara. Ou mesmo com dois, se todas essas mexidas no cabelo
e esses olhares para mim significam o que eu acho que significam.
Eu engasguei, completamente chocada. No. De jeito nenhum. Ser que ele tinha acabado de... acabado de insinuar... mais que insinuar, atestar na minha cara... que
eu estava flertando com ele?
Fui ficando vermelha como uma beterraba-de raiva, pensei comigo mesma. No foi por vergonha. Porque eu no tinha flertado com ele. Eu no tinha flertado... no muito.
Dei um passo para trs, para longe dele, preparando-me para voltar para o per, para longe de Tommy Sullivan e daqueles seus olhos que mudam de cor o tempo todo.
Isso era para provar como eu NAO estava interessada em flertar com Tommy Sullivan. No podia acreditar que ele ainda tinha tido a cara de pau de mencionar que eu
pudesse estar fazendo isso.
Bem, eu ia mostrar a ele. Ia sair do barco do meu pai sem nem mais uma palavra. E sobre no ignora-lo na semana seguinte nos corredores da Eastport High, bem, de
jeito nenhum eu ia dar a ele a satisfao de ser amigvel. Se ele era o tipo de pessoa que confunde ser amigvel com intenes romnticas...
S que no primeiro passo que eu dei para me afastar dele meu p esbarrou em meu capacete, eu acabei perdendo completamente o equilbrio e teria caldo de bunda no
cho do barco do meu pai...
..se antes Tommy no tivesse esticado os braos e me segurado.
Foi apenas natural eu ter jogado meus braos em volta do pescoo dele. No que eu tenha achado que ele fosse me deixar cair-parecia ter a situao bastante sob controle-mas,
voce sabe. Prevenir nunca e demais.
Quanto tempo ficamos daquele jeito-nossos braos em volta um do outro sob a luz da lua, com o som da gua batendo acariciando nossos ouvidos e nos olhando fixamente
nos olhos-eu provavelmente nunca vou saber. Tempo suficiente para ficar com a cabea bastante leve - embora isso pudesse ter sido efeito do Dramin.
E essa  a nica explicao que eu consigo dar para meus olhos terem comeado a se fechar e minha boca ter comeado a chegar mais e mais perto da de Tommy, ate que
ele repentinamente quebrou o silencio, sussurrando com o hlito quente contra meu rosto:
-Katie.
-Hummmm?-perguntei com os clios tremulando.
-Acha que eu vou beijar voce ou algo assim?
-Ah, Tommy-suspirei e fechei os olhos antecipando um beijo intenso e de aquecer a alma.
S que depois disso eu s me lembro de Tommy Sullivan me soltando.
Srio.
Ele no me deixou cair em nada. E s que num minuto eu estava quase deitada nos braos dele e no seguinte estava completamente na vertical, novamente sobre meus
ps.
Enquanto eu piscava para ele, confusa, Tommy disse com um sorriso maroto:
-Acho que voce j beijou o bastante para um dia. Katie. Vamos l. Deixa eu te levar para casa.
Obviamente, considerei isso um insulto. Sem contar que fiquei sem reao. O que havia de errado comigo?
Eu no tinha outra opo, claro, a no ser recusar a oferta de carona. Mesmo se no estivesse com minha bicicleta, provavelmente teria ido a pe ate em casa, em vez
de andar num carro com um cretino como Tommy Sullivan.
S que era muito difcil continuar pensando nele como um cretino quando ele insistiu em ir me seguindo de carro-o Jeep Wrangler, acabei descobrindo-para se assegurar
de que eu chegaria em casa inteira. Porque ele disse que, mesmo com as luzes e o capacete, no achava seguro eu andar de bicicleta no escuro com todos aqueles motoristas
bbados que so pegos todas as noites no posto de policia.
E isso-tudo bem, eu admito-foi totalmente fofo da parte dele. Seth nunca me segue quando estou de bicicleta para ter certeza de que cheguei bem em casa. E ele e
meu namorado, no meu inimigo mortal.
Mas ento Tommy teve que estragar os sentimentos carinhosos que eu talvez pudesse estar nutrindo por ele ao fingir sussurrar meu nome quando eu estava na grama molhada
de orvalho a meio caminho da porta da frente, depois de estacionar minha bicicleta.
Eu no queria me virar. Eu no queria falar com ele - muito menos ve-lo-outra vez.
Mas foi legal da parte dele me seguir ate em casa.
E-bem, que se dane. Ele tem mesmo uma boca totalmente linda.
Ento eu parei e me virei.
-O que foi?-perguntei com a voz menos amigvel possvel.
-Vai ter tempo de sobra para beijar depois...
Ele teve a cara de pau de me assegurar disso, com uma voz que deixava claro que ele estava fazendo tudo que podia para no cair na gargalhada.
Eu estava com tanta raiva que quase joguei a bolsa na cabea dele, com o biquni molhado e tudo.
-Eu no beijaria voce-informei de modo acido, nem mesmo me importando se a sra. Hall, nossa vizinha fofoqueira da casa ao lado, poderia me ouvir-nem que fosse o
ultimo cara na Terra!
Mas Tommy no se sentiu nem um pouco insultado. Ele apenas riu e saiu com o carro.
E foi definitivamente um riso diablico do tipo mua h ha,e no do tipo h ha.
Oito
-Querida, voce esta se sentindo bem?-quis saber minha me, enfiando a cabea no meu quarto antes de sair para o trabalho na manha seguinte.
-Sim-falei um tanto surpresa.
No e normal meus pais perguntarem sobre minha sade, que e tima, tirando a coisa dos enjos. Normalmente eles ficam mais preocupados com Liam, que tende a ter
contuses relacionadas a esportes.
-Por qu?
-Bem, querida-disse minha me-, so quase nove horas da manha e voce geralmente esta acordada e fora de casa a essa altura. Voce tem que admitir, estar na cama h
essa hora e um comportamento muito estranho para voce.
-Desculpa, eu estava apenas... pensando.
Que minha vida estava oficialmente acabada.
-Sem o seu iPod?-disse minha me sorrindo.
Porque eu no consigo pensar-muito menos fazer o dever de casa-sem escutar musica. De preferncia rock e bem alto.
-Meu Deus, deve ser algo serio. Voce nem esta ao telefone com a Sidney.
-E-disse eu-, bem, isso no e algo sobre o que eu realmente possa falar com a Sidney.
-Ah-disse minha me-, entendi. E o Seth?
Ah, cus. Eu balancei a cabea rapidamente.
-No. No mesmo.
-Bem - disse ela.
Dava para ver que ela estava totalmente hesitante fazer o trabalho de me e mexer onde provavelmente ia preferir no ter mexido e se arriscar a chegar atrasada para
o trabalho? Ou apenas dizer Tenha um bom dia e sair? Ela pareceu ter se lembrado de um livro de auto-ajuda e falou:
-Sabe que sempre pode falar comigo, no sabe, Katie?  algo que tenha a ver com...-e falou mais baixo, ainda que Liam j estivesse l fora com meu pai, jogando bola
antes de meu pai sair para o trabalho, e no pudesse ouvir-garotos?
-Pode-se dizer que sim-disse, sofrendo. -Um garoto, na verdade.
- o Seth?-perguntou minha me, j sem o sorriso e parecendo preocupada-Katie, ele esta fazendo presso para que voce...
-Ah, Deus, me-grunhi alto, percebendo com atraso aonde ela queria chegar-, no estou fazendo sexo com Seth. Ou com quem quer que seja, para sua informao. Eu nem
mesmo gosto de Seth o suficiente para...
Ah, Deus. Coloquei o travesseiro sobre meu rosto. Eu no podia acreditar que tinha dito aquilo.  claro que eu gostava do Seth. Eu amava o Seth.
 s que... bem, Tommy meio que tinha razo: se eu amava Seth tanto assim, o que diabos estava fazendo l fora atrs do gerador de emergncia com Eric Fluteley todos
os dias?
Cus. Tommy tem razo. Eu provavelmente tenho algum tipo de inabilidade psicolgica para ficar com um cara de cada vez.
Mas por que eu deveria, quando nenhum dos dois caras com quem ando dando uns amassos e completamente... bem, certo para mim?
-Se no  Seth-disse minha me curiosa-, quem e ento? Voce disse que tinha a ver com um garoto.
Tirei o travesseiro de cima do rosto e fiquei olhando fixamente para o teto sobre minha cama.
-Se eu contar-falei-voce no vai acreditar.
-Tenta-disse minha me se apoiando no portal.
Olhei para ela:
-Tommy Sullivan esta de volta a cidade.
Ela piscou uma vez. Depois outra vez. Ento disse:
-Ah.
Seus lbios ficaram abertos mesmo depois do som ter sado.
-  -disse eu, colocando novamente o travesseiro - meu rosto.
-Bem, querida - minha me disse depois de um tempo-, isso foi ha muito tempo. Muita gua j rolou desde ento. Tenho certeza de que ningum ainda guarda rancor de
todas aquelas coisas de quatro anos atrs.
-Hum-disse eu embaixo do travesseiro-, meu namorado guarda.
-Ah-disse minha me novamente.-Bem. Sim, mas... quer dizer, no fim das contas foi errado Jake ter colado. Com certeza ate mesmo os Turner...
-Jake e os pais dele, assim como Seth, o treinador Hayes e o resto dos Quahogs do passado e do presente, ainda insistem que tudo foi uma conspirao para for-los
a desistir do campeonato estadual-disse eu, ainda embaixo do travesseiro.
-Querida, tira essa coisa do seu rosto. Eu no consigo ouvir uma palavra do que voce esta falando.
Eu tirei o travesseiro do rosto.
-Sabe o que mais?-disse eu. -Deixa para l. Esquece que eu toquei nesse assunto.
-Agora, Katie, seja justa-disse minha me olhando para o relgio-, eu quero falar disso. Realmente quero. Mas vai ter que ser mais tarde. Seu pai e eu temos que
mostrar uma casa. Mas eu quero saber mais sobre esse caso do Tommy. Vou estar de volta no fim da tarde...
-No se preocupe com isso-disse eu.-Estou bem.
-Katie, querida, no...
-Serio, me-insisti.-Esta tudo bem. Esquece que eu toquei nesse assunto.
Minha me olhou para o relgio novamente, ento deu uma rpida mordida no lbio inferior, mesmo eu j tendo dito a ela milhes de vezes para no fazer isso, porque
assim ela acaba estragando o batom. -Tudo bem-disse ela-, mas nos falamos sobre isso no jantar mais tarde...
- No posso-disse eu-, tenho o ensaio para o concurso de Princesa Quahog, depois do Gulp.
-Ah, Katie. Voce no pode reduzir sua carga de trabalho um pouco? Tenho a sensao de que mal vi voce esse vero.
-Quando a escola comear-disse, torcendo para viver ate l.-Eu j tive ate que abrir mo dos meus turnos nesse fim de semana por causa do concurso.
-Ah, mas querida...
-Preciso do dinheiro - insisti.
Ela revirou os olhos.
-A forma como voce  com dinheiro... O que voce faz com ele afinal?
Oops. Sim. Essa e outra mentira com a qual tenho vivido, junto com todas as outras. Veja eu no posso contar aos meus pais o que eu realmente vou comprar com o dinheiro
que eu ganhei no vero no Gulp.
Isso porque eles me deram uma cmera no Natal. E se eles soubessem que estou guardando o dinheiro para uma cmera nova, ficariam ofendidos e diriam algo como: ''O
que tem de errado com a cmera que nos lhe demos de Natal?"
A verdade e que tecnicamente no tem nada errado com a cmera que meus pais me deram de Natal. E s que ela no e uma cmera profissional. Como vou tirar fotos profissionais
se eu no tenho uma cmera adequada?
Mas no quero magoa-los. Eles no tem culpa de no terem noo dessas coisas.
- Voce tinha que ver as novas jaquetas de veludo lindas da coleo de outono da Nanette Lepore-falei.
E isso no era nem mesmo uma mentira. Sidney me contou que a Nanette Lepore tem jaquetas de veludo totalmente lindas para o outono.
S que no estou muito interessada em comprar uma.
Mame revirou os olhos novamente-o que era irnico, vindo de uma mulher que tem cinco pares de Manolo lahniks que custam quinhentos dlares o par.
-Certo. Bem, nos falamos amanha de manha ento - disse minha me, desistindo. -Ate mais. Tenha um bom dia
Ela fechou a porta do meu quarto novamente, depois de me lanar mais uma ultima olhada curiosa. Acho que dava para ela perceber. Quer dizer, que eu no era exatamente
eu mesma.
Tenha um bom dia. Haha. Certo. Sim, eu ia ter um bom dia. com certeza. Quer dizer, o que poderia dar errado? Vamos ver: Tommy Sullivan, degredado da turma de quem
eu fui amiga e a quem tratei cruelmente quatro anos antes (apesar de ele no parecer saber disso), esta de volta a cidade, e no s esta ciente de que eu o acho
gato agora, mas tambm me pegou traindo meu namorado, que acontece de ser o irmo mais novo do cara cuja vida Tommy arruinou quando contou para todos que ele tinha
colado nas provas, em uma matria - denuncia num jornal de escola...
Ah, sim. Nenhum problema. Tudo vai ficar bem.
Eu. Estou. To. Ferrada.
Especialmente quanto aquela primeira parte: sobre Tommy no parecer saber que o trai.
Eu no tenho tanta certeza de que seja verdade.
Algo me diz que Tommy pode de fato saber perfeitamente bem o que eu fiz.
E talvez seja por isso que ele esteja de volta a Eastport.
Porque, e se a razo de Tommy estar de volta for vingana?
E eu consegui mostrar a ele a forma perfeita de se vingar, numa bandeja brilhante: tudo o que ele tem que fazer e contar a Seth o que viu atrs do gerador de emergncia
do Gull'n Gulp, e minha vida estar acabada.
Porque quando Seth me colocar contra a parede, no vou ser capaz de mentir. Consigo mentir para o Seth sobre ter e. coli. Consigo mentir para o Seth e dizer a ele
que o amo, quando a verdade e que no tenho muita certeza disso (porque se eu realmente o amasse, o que eu estaria fazendo com Eric?).
Mas no consigo mentir-na cara do Seth-sobre o que Tommy viu.
O negocio e que eu nem posso dizer que o culpo. Tommy, eu quero dizer. Por querer igualar o placar. Algumas vezes, no consigo acreditar no que fiz com ele. Ele
tem todo o direito de me odiar.
E ainda assim, ontem  noite, quando estive em seus braos, eu podia ter jurado...
Mas obviamente eu estava enganada. Especialmente quando descobri que o tempo todo ele estava rindo de mim.
A risada diablica de Tommy ainda soava alta nos meus ouvidos quando desci as escadas, um pouco depois da conversa com minha me. Liam, percebi, tinha sado. Provavelmente
tinha aproveitado uma carona para a ACM com meus pais. Ele estava inclinado e determinado a ganhar massa muscular antes do teste para os Quahogs. Nunca tinha visto
algum to empolgado com algo quanto Liam com aquele teste estpido.
Depois de comer uma barra de cereal como caf-da-manha, tirei minha bicicleta da garagem, pus o capacete e tentei dizer a mim mesma que estava sendo ridcula. Tommy
Sullivan no estava de volta a Eastport para se vingar de mim. Porque se estivesse, no teria me avisado. Certo? No teria me contado que me viu com Eric Fluteley
atrs do gerador de emergncia. Ele teria apenas tirado uma foto de ns dois juntos e mandado para Seth por e-mail.
Ou talvez para toda a escola.
Ah, Deus. Eu estou frita.
Foi difcil aproveitar a ida ate a cidade naquele dia. Porque, serio como ele pode? Como ele pode ter se aproveitado de mim daquele jeito, me pegando nos braos
daquele jeito, e rindo em vez de me beijar? Eu no sou nenhuma Sidney van der Hoff, e verdade. Minha me no e uma ex-modelo, e Rick Stamford no se apaixonou por
mim a primeira vista no primeiro dia de aula no nosso primeiro ano (s para me dar um p na bunda trs anos depois).
Mas ainda assim. Nenhum cara nunca riu em vez de me beijar.
Tirando Tommy Sullivan.
Com quem havia obviamente algo muito, muito errado. Quer dizer, alem da parte de ter nascido Tommy Sullivan.
Confortada com esse pensamento, uma vez na cidade, parei num bicicletario-feito para parecer um antigo posto de carona-do lado de fora do Eastport Old Towne Photo
e entrei na loja decorada com tijolos vermelhos.
O sr. Bird estava l, como sempre, no muito feliz de me ver.
-Voce novamente-disse ele, ranzinza, porque ranzinza e como ele e.
-Oi, sr. Bird-falei tirando meu capacete.-Posso ve-la?
-Voce vai fazer um pagamento?-quis saber o sr. Bir, ainda soando ranzinza.
-Pode apostar-eu disse, abrindo a mochila e pegando minha carteira.-Tenho mais cinqenta bem aqui. Ah, e eu preciso pegar minhas fotos da semana passada.
O sr. Bird suspirou, ento saiu do caixa e foi para os fundos da loja. Alguns segundos depois veio carregando um envelope de impresses fotogrficas e uma cmera.
Minha cmera. Aquela que eu estava pagando aos poucos desde sempre.
-Aqui-disse o sr. Bird, seco, colocando o envelope e a cmera na bancada de vidro a minha frente.
Peguei minha cmera-ou a cmera que ser minha um dia-com muito cuidado e a examinei. A Digilux 2 da Leica ainda parecia to linda quanto no dia em que chegou a
loja do sr. Bird, s esperando a oportunidade de que chegasse algum que pudesse apreciar sua lente maravilhosa, sua fabricao meticulosa e seus materiais de primeira
classe.
Algum como eu.
-Ola, bebe-disse eu para a cmera.-No se preocupe, mame no se esqueceu de voce.
-Por favor-disse o sr. Bird cansado-, no converse com a cmera a no ser que esteja pensando em pagar tudo hoje.
-Hoje no-disse eu com um suspiro.
Ento coloquei a cmera de volta no vidro e depois abri o envelope que ele tinha trazido.
-O que voce achou?-perguntei, enquanto olhava as ampliaes que ele tinha feito.
-Desista do pr-do-sol e das gaivotas paradas no per -disse ele melo de saco cheio-e pode ser que consiga chegar a algum lugar.
-Voce esta de brincadeira?
Peguei uma fotografia da qual eu estava particularmente orgulhosa, a foto de um pelicano sentado na proa de um barco, limpando as penas.
-Isso vale ouro.
-Isso-disse o sr. Bird apontando para a foto atrs daquela, que era uma foto que eu tinha tirado s de brincadeira, de Shaniqua e Jill comendo um bolinho de quahog
numa hora da tarde em que no tinha ningum no restaurante, quando Peggy sara para fazer o deposito da tarde no banco-vale ouro.
-Eu concordo-disse uma voz grave de homem atrs de mim.
E eu no pude evitar soltar um grunhido.
Nove
-Isso-falei, soando quase to ranzinza quanto o sr. Bird quando me virei e vi quem estava de p atrs de mim -j e demais.
-O que?-perguntou Tommy de modo inocente.
Ele tinha tirado as fotos do envelope na minha frente e estava dando uma olhada rpida nelas.
-Ele esta certo. Voce tem um olho timo para capturar pessoas. Pelicanos? Nem tanto.
-E o que eu tenho dito a ela ha anos-concordou o sr. Bird.-Qualquer idiota consegue tirar uma foto de um pelicano. Depois vende como carto-postal por 25 centavos.
Grande coisa.
-Enquanto isso-disse Tommy, pegando a foto que eu tinha tirado de Liam e meu pai jogando bola no gramado, a expresso do meu pai concentrado, Liam parecendo um pouco
assustado-conta uma historia de verdade.
-Voce esta me seguindo?-perguntei, pegando minhas fotos de volta das mos de Tommy e olhando feio para ele.
O que no foi fcil. Olhar feio para ele, eu quero dizer. Porque ele estava mais bonito hoje do que na noite anterior, mesmo que estivesse na cara que ele no tinha
se esforado muito para se vestir. Usava apenas uma bermuda larga, chinelos e uma camiseta justa da Billabong.
O que era ainda mais irritante por ser essencialmente o que eu estava vestindo, s que minha bermuda no era larga.
E a roupa caia muito melhor nele do que em mim.
-Uau-disse Tommy-, voce costumava aceitar criticas a sua arte. O que aconteceu?
-Voce no e mais meu editor-disse zangada, colocando minhas fotos de volta no envelope que o sr. Bird me dera.-Agora, serio. Voce esta to desesperado por companhia
feminina que seu nico recurso e seguir as pessoas?
-O que? Eu no posso fazer compras no centro de Eastport se voce estiver num raio de dez quilmetros, ou algo assim?-perguntou Tommy, mais achando graa do que se
sentindo ofendido.
-Ta bom-disse eu com sarcasmo. -Voce no esta me seguindo. Voce apenas acabou entrando na Eastport Old Towne Photo porque precisava de filme.
-Hum, no-disse Tommy. -Notei sua bicicleta parada do lado de fora. Estava na farmcia ao lado buscando uma encomenda para a minha av.
E levantou uma sacola plstica branca que realmente tinha uma receita e uma garrafa dentro.
-Acha que no tenho nada melhor para fazer - perguntou ele-do que perseguir voce?
-Bem, o que eu devo pensar?-perguntei com raiva. -Voce aparece onde eu trabalho, voce aparece aqui... -Eu olhei para o Sr. Bird: - Voce acha que isso constitui assedio?
O sr. Bird encolheu os ombros de uma forma ranzinza:
-O que eu sei sobre isso? Tudo que quero so meus 27 dlares pelas impresses, e o que quer que voce v pagar hoje pela Digilux.
Ainda vermelha-o que esse cara tem que eu no consigo deixar de ficar vermelha quando ele esta por perto?-, enfiei a mo na mochila e tirei minha carteira, contei
27 dlares para pagar as fotos e botei uma nota de cinqenta por cima.
-Aqui-falei para o sr. Bird.-Como esto as contas da Leica?
O sr. Bird pegou seu caderninho (ele e um dos nicos comerciantes no centro histrico que ainda no informatizou seu negcio, ou mesmo aprendeu a usar um computador),
olhou minha pagina e calculou com cuidado meu novo total.
-Quatrocentos e vinte e oito dlares e sete centavos.
Tommy assobiou:
-Quatrocentos contos-disse ele-por uma cmera?
-Na verdade, e uma cmera de 2 mil dlares-disse o sr. Bird, acrescentando, quase como se ele estivesse me defendendo (mas, lembrando que se tratava do sr. Bird,
eu sabia que isso no era possvel).-Ela j pagou quase mil e seiscentos dlares disso.
Tommy balanou a cabea.
-No me admira que voce esteja concorrendo a Princesa Quahog-disse ele para mim, quase que com pena.
Algo na forma com que ele me olhava fez mais sangue correr para meu rosto. Era quase como-eu no sei - se ele estivesse com do de mim, ou algo assim.
O que e ridculo, porque se tem algum no universo de quem Tommy Sullivan devia ter pena, esse algum e Tommy Sullivan.
-Obrigada, sr. Bird-disse eu, jogando minhas fotos e minha carteira dentro da mochila, fechando-a.- Vejo o senhor na semana que vem.
Ento me dirigi a sada, ignorando Tommy, que foi andando atrs de mim.
Mas foi s quando ele se aproximou de onde eu estava tirando a tranca da minha bicicleta, presa em um cano de ferro trabalhado, que eu perdi a cabea:
-Serio Tommy-disse, me levantando de onde estava agachada para colocar a combinao na tranca.
-Agora  Tom-disse ele calmamente.
Ele tinha colocado culos Ray-Ban, ento no dava para ver de que cor seus olhos estavam hoje. Mas eu senti que estavam cor de mbar.
-Tommy.
-Tom.
- Enfim-disse eu-, o que voce quer de mim?
Ele no parecia nem um pouco preocupado com a pergunta. Nem se deu ao trabalho de respond-la.
-Para que so as aquelas fotos? Essas que voce acabou de pegar?
-Eu... eu no sei.
A pergunta me pegou de surpresa. Ns no estvamos falando sobre mim. Estvamos falando sobre ele. E como ele e esquisito. Ainda .
-Voce esta querendo se vingar de mim por no ter andado mais com voce depois que o escndalo da cola explodiu? E isso?
-Ento, vai fazer uma exposio? - quis saber - Uma exposio de fotografias? Como seu talento para o concurso?
Eu continuei olhando para ele:
-Uma exposio? Do que voce esta falando-No, eu no vou fazer uma exposio como meu talento. Voce e louco? Voce ao menos escutou o que eu falei antes? O que eu
deveria fazer, Tommy? Voce era um paria social.
Ele ignorou minha pergunta sobre sua sade mental. E tambm a parte sobre ser um paria.
-Por que no?-perguntou ele, aparentemente se referindo a eu no fazer uma exposio de fotografias.- Voce devia. Essas fotos so realmente boas, Katie. Bem, as
que tem pessoas.
Certo. Agora aquilo j estava muito esquisito. Ele estava me dando dicas para o concurso?
-Primeiro de tudo-disse eu, abaixando para tirar a trava da roda da bicicleta-, desde quando voce sabe alguma coisa sobre fotografia? E segundo, voce tem que fazer
uma performance num concurso de beleza. Voce tem que cantar, ou danar, ou algo assim.
As sobrancelhas de Tommy se levantaram:
-Espera... voce vai cantar?
Eu olhei para ele. No acredito que lembrava que eu sou totalmente desafinada.
No. Espera. Acredito sim. E fcil imaginar que Tommy Sullivan v se lembrar de toda coisa negativa que possa saber a meu respeito.
-No-disse eu.-Vou tocar piano.
Ele levantou as sobrancelhas ainda mais:
-Ah cus. Que no seja "I've got rhythm".
Eu no conseguia acreditar. De verdade. Eu nao podia acreditar que ele lembrava.
-O que?-perguntei. -Eu melhorei muito desde a stima serie, para sua informao.
-Nunca entendi a sua obsesso com essa musica - disse Tommy sacudindo a cabea.-Principalmente porque voce no tem nenhum.
-Nenhum o que?-perguntei. - Ritmo-o disse. Eu tenho sim!
Agora eu realmente no conseguia acreditar.
-Meu Deus, Tommy! E s para voce saber, eu no queria que voce me beijasse ontem  noite, certo? Eu j tenho um namorado.
-Dois-lembrou ele.
-Exatamente. O que quer que voce pense que estava acontecendo ontem  noite... bem, no estava. Era tudo sua imaginao. Quer dizer, no fique se achando. E l vem
um deles agora-disse Tommy. -Um de que?
-Dos seus namorados.
Segui o olhar dele, e quase engasguei com minha prpria saliva. Eric Fluteley estava parando bem ao nosso lado na BMW conversvel do pai.
-Katie-disse ele, quando parou o carro ao nosso lado-, ai esta voce. Eu te liguei a manha toda. Seu telefone no esta ligado?
Eu disse meu palavro preferido (dentro da minha cabea, claro, porque princesas Quahog no falam palavres), e procurei dentro da bolsa. Meu telefone estava desligado.
Como de costume.
-Desculpe-falei, apertando o boto POWER.- Eu esqueci.
-Foi o que pensei-disse Eric com um sorriso amigvel para Tommy, como se dissesse: ela no e uma graa ?
Estava claro que ele no tinha idia de quem Tommy era, apesar de nos trs termos estudado juntos em muitas matrias no Ensino Fundamental.
-Eu queria saber se voce vai estar livre mais tarde. Estou com dificuldade para escolher qual daquelas fotos que voce tirou devo usar para minhas inscries na faculdade,
e estava torcendo para que voce pudesse passar l em casa e me ajudar a escolher.
E esse era o cdigo de Eric Fluteley para passa l em casa para a gente dar uns amassos enquanto meus pais no esto em casa.
-Hum-falei sem pacincia.
Porque tudo o que eu estava fazendo era dar mais munio para Tommy usar contra mim. Apesar de ele no saber do cdigo de Eric Fluteley. Mesmo assim, imaginei que
ele no teria nenhum problema em perceber, pelo simples fato de que as inscries para as faculdades ainda levariam meses para comear.
-Eu no posso hoje, Eric. Tenho o ensaio para Princesa Quahog.
-Ah , verdade-disse Eric, rindo de uma maneira muito falsa. -Como pude esquecer? Acho que vejo voce l ento. Morgan Castle me pediu para ser acompanhante dela,
voce sabe.
-Sei-disse seca.
Serio, ele estava gostando um pouco demais desse joguinho de deixar-Katie-com-ciumes-andando-com-Morgan-Castle.
-Mas voce vai estar no Gulp mais tarde, no vai? -perguntou Eric numa voz mais do que casual.
-Hum...
Eu no podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Que o cara com quem eu estava traindo meu namorado estava tentando marcar um encontro para mais traio...
bem na frente de Tommy Sullivan. E ele nem ao menos sabia disso.
-Sim. Mas. Hum...
Para meu espanto, Tommy Sullivan veio me socorrer: - Esse e o Z4?-perguntou ele a Eric apontando para o carro que Eric estava dirigindo.
-Ha-disse Eric olhando para ele-e sim. E do meu pai. Ei... eu no conheo voce de algum lugar, cara? Voce parece familiar.
E antes que eu pudesse impedi-lo, Tommy estava debruado na janela do carro de Eric com a mo direita estendida.
-Claro que voce me conhece, Eric. Tom Sullivan.
Eu fechei os olhos. Fechei porque tinha certeza absoluta de que um buraco gigante tinha acabado de se abrir debaixo dos meus ps, e que eu estava prestes a ser sugada
para dentro dele.
Porque Eric Fluteley simplesmente tem a maior boca de toda a cidade (bem, sem contar a da Sidney). A nica razo por que ele no contou a todos em Eastport sobre
nossas atividades extracurriculares atrs do gerador de emergncia foi por que eu disse a ele que se contasse, teria que pagar um fotografo profissional para tirar
suas fotos. E poderia custar milhares de dlares.
Mas quando abri meus olhos novamente um segundo depois, vi que no havia nenhum buraco gigante sob meus ps... apenas a calcada da rua principal de Eastport, com
Eric Fluteley na sua BMW e Tommy Sullivan de pe bem ao meu lado.
-Tommy?-disse Eric, abaixando os culos escuros para olhar melhor para o cara que o estava cumprimentando. -Sullivan?
- Tom agora, na verdade-disse Tommy, parecendo surpreso com o jeito estupefato de Eric.-Mas sim. Sou eu mesmo.
-Cara...-Eric disse uma das palavras que eu, como candidata a Princesa Quahog, me proibi de usar.-O que voce esta fazendo de volta a cidade, cara?
-Ele vai estudar na Eastport High no outono-disse eu rapidamente, antes que Tommy pudesse dar a informao.
-Serio?
Os cantos da boca de Eric se contorceram. Dava para ver que ele estava gostando muito daquilo. Eric, sempre preocupado apenas com ele mesmo, no tem nenhum tipo
de sentimento quanto aos Quahogs, nem bons nem ruins. Para ele, toda essa coisa de futebol americano e uma loucura que tira a ateno das pessoas sobre ele.
-Bem, se as coisas ficar em complicadas e voce precisar de uma mo, e s falar. Fiz aulas de autodefesa esse vero na ACM, para ajudar nas minhas tcnicas de luta
no palco.
Serio. Algumas vezes eu fico imaginando por que eu sequer deixo ele me beijar.
Embora, pelo menos, quando nos beijamos ele no consiga falar nada porque a lngua esta ocupada de outra forma.
-Hum, acho que vou ficar bem-disse Tommy obviamente tentando no rir.
Porque a idia de Eric Fluteley brigando com algum simplesmente absurda. Ele ficaria com tanto medo de machucar seu belo rostinho que no serviria para nada.
-Bem, voce e um cara mais corajoso que eu. No posso negar-disse Eric com uma risada genuna.
Um PT Cruiser parou atrs da BMW de Eric e, como ele no estava se movendo, comeou a buzinar. Eric olhou para trs e disse:
-E melhor eu ir. Vejo voce no ensaio, Katie. Bom te ver novamente, Tommy. Boa sorte. Voce vai precisar.
-Obrigado-disse Tommy, enquanto Eric saia com o carro, ainda sorrindo.
Assim que ele saiu do alcance do som, Tommy se virou para mim e perguntou:
-Serio: voce realmente gosta desse cara?
-Ele aprecia minhas habilidades com a cmera - insisti-, o que e mais do que eu posso dizer sobre um monte de gente nessa cidade, que no saberia diferenciar uma
foto de paisagem de um close-up.
-Tenho minhas duvidas se so suas habilidades com a cmera que ele mais aprecia-disse Tommy seco.
Olhando feio para ele, coloquei meu capacete e, subindo no selim, disse da maneira mais natural que uma pessoa sentada a bicicleta poderia:
-Para sua informao, no sou esse tipo de garota. Eu no sei o que voce pensa que viu atrs do gerador de emergncia, mas foram apenas beijos. Algo que voce no
vai nem ao menos experimentar comigo, por sinal.
-Voce fala muito sobre me beijar para algum que diz no estar realmente interessada no assunto-disse Tommy, parecendo se divertir horrores.-Quem desdenha quer comprar.
Furiosa, virei minha bicicleta para ir na direo oposta. Eu queria comear a pedalar para longe dele sem falar mais nenhuma palavra. Mas algo me fez virar e perguntar
com raiva:
-Tommy, apenas me diga o que voce esta fazendo de volta aqui. E porque quer vingana?
Depois disso, e claro, eu podia ter partido. Porque o que ele iria falar? Sim, Katie eu estou aqui para me vingar por aquilo que voce fez cruel, voce no sabe que
eu sei que voce fez, mas que eu sei, e  vou fazer voce sofrer por isso?
E claro que ele no ia admitir. Porque assim eu comearia a tomar medidas para me precaver.
Ento no foi surpresa ele se fazer de desentendido. Levantando ambas as sobrancelhas e dizendo:
-Me vingar? De quem? E por qu?
Mas pelo menos dessa vez eu consegui manter minha boca calada, e ao invs de dizer "voce sabe por que" apenas sai pedalando. O que exigiu muito autocontrole, considerando
o que eu queria fazer, que era convid-lo para ir dar uns amassos atrs do gerador de emergncia do lado de fora do Gull'n Gulp mais tarde.
Eu sei. S preciso desistir dos homens de uma vez por todas. Ser que episcopais podem ir para o convento?
Dez
Eastport leva seu festival anual do quahog muito a serio. O festival traz milhares de turistas e com isso, milhes de dlares de receita. Aprendi com minha experincia
no ramo dos servios culinrios que as pessoas botam na boca praticamente qualquer coisa que tenha sido passada numa massa fina e fritada em bastante leo quente
(como bolinhos de quahog).
E aparentemente elas compram quase qualquer coisa que tenha um farol ou gaivotas pintados nela. Melhor ainda se tiver as palavras Festival do Quahog de Eastport
impresso (viseiras, canecas, camisetas, ate calcinhas).
Porque onde mais voce vai encontrar um festival do Quahog? (Existe um em Rhode Island, na verdade. mas ningum em Eastport gosta quando voce menciona isso.)
Para o festival, a prefeitura interdita a rea do Eastport Park, que fica em frente ao frum, no dia anterior ao comeo da comemorao, para que se comece a montar
as mesas onde a comida vai ser servida durante o Sabor de Eastport, e as barraquinhas que vo vender souvenirs de quahogs, cerveja e outros itens.
Mas outra coisa boa de se andar de bicicleta e que da para fugir de praticamente qualquer barreira para trafego de carros. E foi isso o que eu fiz para chegar ate
o fim do parque, onde foi montado um palco temporrio em frente a uma enorme tenda branca (que estava l para as participantes do concurso de beleza trocarem de
roupa antes de entrar no palco), onde iria acontecer o concurso de Princesa Quahog.
Eu estava muito adiantada para o ensaio, claro. Outra coisa boa de pedalar e que voce nunca tem que perder tempo procurando vaga. Prendi minha bicicleta em um banco
prximo (algo que eu no teria me atrevido a fazer num dia normal, mas, j que tecnicamente o parque estava fechado para o publico, eu sabia que no teria ningum
para reclamar por isso) e me sentei numa daquelas cadeiras dobrveis de metal que tinham sido colocadas para a platia, esperando no ser notada pela sra. Hayes,
a diretora do concurso.
Sim. O concurso de Princesa Quahog e coordenado pela esposa do treinador do time de futebol americano dos Quahogs, que tambm e a diretora das pecas da escola. A
sra. Hayes, uma ex-Princesa Quahog, seguiu sua vitria tentando o titulo de Miss Connecticut, e quando ganhou esse, tentou o Miss Amrica. Ela no ganhou a coroa,
mas chegou entre as cinco semifinalistas graas ao bom uso de fita dupla face. Ela ainda e definitivamente a mulher mais glamourosa de Eastport-se por glamourosa
voce quer dizer cabelo armado e cala capri rosa da Pulitzer, que a sra. Hayes gosta muito. Eric, claro, adora ela.
Ora, ora, se no e Katherine Ellison-falou a sra. Hayes quando me viu... o que, infelizmente, no demorou muito.-Voce trouxe sua cmera, eu imagino.
Eu tinha a Sony que meus pais me deram de aniversario na mochila. Disse:
-Sim, senhora.
-Que bom. Acabei de encontrar com Stan Gatch no Super Stop and Shop, e ele me disse que publicaria fotos do ensaio de hoje no jornal de amanha para divulgar o evento
se entregssemos as fotos a ele ate cinco horas. Voce acha que consegue fazer isso?
-Claro-disse eu, imaginando se a sra. Hayes lembrava que eu no estava l para tirar fotos, mas para participar do concurso.
Mas um segundo depois ela provou que lembrava, quando falou:
-Bem, veja se faz alguma coisa til agora. Venha ate aqui e me ajude a empurrar este piano, j que e voce que vai tocar.
Eu me levantei e me arrastei ate o palco e, sob a direo da sra. Hayes, ajudei os tcnicos de som-que estavam l para se assegurar de que todos os microfones estivessem
funcionando corretamente-a mover o piano para o lado do palco, onde ele ficaria fora do caminho de todo mundo ate o meu numero.
-Isso, bem melhor-disse a sra. Hayes limpando as mos como se ela tivesse feito todo o trabalho pesado (s que ela no fez nada porque no queria amassar suas roupas).-Agora,
onde esto as outras meninas? Falta de pontualidade no e uma caracterstica atraente numa Princesa Quahog.
-Aqui estou eu, sra. Hayes-disse Sidney enquanto corria pelo corredor entre as filas de cadeiras dobrveis ate o palco.
Morgan Castle evidentemente vindo da aula de bale, j que ainda estava de malha rosa, com o cabelo num coque-estava atrs dela, carregando uma bolsa que presumivelmente
tinha suas roupas do dia-a-dia. Jenna Hicks-com cara de poucos amigos e desconfortvel com todas as suas camadas de roupas pretas, apesar do calor - vinha mais atrs.
Ela estava usando os fones de um iPod e parecia estar em seu mundo particular. Como sempre.
- Ah, que bom-disse a sra. Hayes.
Estava na cara que ela no queria perder tempo. Pelo que eu entendi com ajuda do Seth, nesse sentido ela se parece muito com o marido o treinador Hayes.
-Bem, vamos logo com isso.
Passamos a hora seguinte de pe no palco ensaiando os diversos eventos. Como os velhinhos da cidade ha muito tempo decidiram que uma competio de trajes de banho
era muito ousada para um evento de famlia como a feira -esse tipo de coisa, eles achavam, pertencia a concursos de Miss Hawaiian Tropic, em South Beach-, havia
apenas trs eventos no concurso de Princesa Quahog: a apresentao das candidatas; a parte do talento; e o traje de gala, que era tambm quando eles faziam a parte
de perguntas e respostas.
A primeira parte era fcil. Tnhamos apenas que ficar de pe ali no palco enquanto a mestre de cerimnia-a sra. Hayes-nos apresentava. Depois disso, saiamos do palco
e amos a tenda trocar de roupa para a parte do talento. Como meu talento-tocar piano-nao requeria mudana de roupa (apesar de a sra. Hayes ter tentado me convencer
a usar um macaco de lantejoulas brancas vermelhas e azuis que tinha sido usado na cena do desfile de uma produo de muitos anos atrs de The Music Mar- o que eu
recusei categoricamente), eu seria a primeira.
Estava feliz com isso, porque assim acabava a minha parte mais rpido.
A sra. Hayes disse que esse nao e o verdadeiro esprito do entretenimento, mas que se dane. Eu tinha quase certeza de que nao era a nica a me sentir daquele jeito.
Jenna Hicks nao parecia ligar que seu numero fosse o ultimo... e nao por aquela coisa de guardar o melhor para o final tambm. Ela nao queria mesmo estar no palco.
Eu estava surpresa que tivesse vindo para o ensaio e tudo. Mas quando perguntei~ ela disse que nao tinha opo: a me a tinha deixado l. Jenna tinha dado uma r
no carro de algum no ms anterior, e seu carro ainda estava no mecnico.
-E se eu nao me classificar bem nesse maldito concurso-explicou Jenna-minha me nao vai pagar a franquia para consertar meu carro.
-Que droga-falei um pouco chocada.
Eu estava meio que feliz por ouvir aquilo-meus pais nao se metem nem um pouco nas minhas atividades extracurriculares.
Embora eu tenha me perguntado por que Jenna simplesmente nao andava de bicicleta. Quer dizer, por que as pessoas so to dependentes de carros? Nao e como se tivesse
algum lugar que Jenna fosse (a loja de gibis, o Oaken Bucket) ate onde ela nao pudesse simplesmente pedalar se quisesse. Ento ela podia dizer a me para ir em frente
e ficar com o dinheiro da franquia, e largar o concurso.
Eu me sentia mal por Jenna, no entanto, porque, mesmo com a calada Morgan, nao existia chance de ela ficar numa boa posio no concurso. Seu talento, para comear,
era recitar o monologo de Denis Leary no filme O demolidor-aquele sobre apoiar o direito de fumar charutos na reas de nao fumantes e correr pela cidade nu coberto
de gelatina verde - um discurso que aparentemente nao seria muito popular entre os juizes, que tendiam a favorecer apresentaes com bastes a discurso que faziam
apologia da anarquia social.
E as respostas da Jenna, quando a sra. Hayes ensaiou a parte de perguntas e respostas do concurso, passavam perto da hostilidade.
Embora eu ache que consiga entende-la quando a sra. Hayes perguntou:
-Jenna, por favor, diga a platia: o que voce mais ama nos quahogs?
E sua resposta foi:
-O fato de eles terem uma concha protetora dura... como eu.
A sra. Hayes no foi muito receptiva a resposta.
-Agora, Jenna-dissera-, voce pode fazer melhor que isso. Voce quer que a platia e, mais importante, que os juizes acolham voce, toram por voce? Voce quer que eles
gostem de voce, no?
E a isso Jenna respondeu:
-No exatamente.
Fazendo Sidney soltar uma risada que estava tentando segurar a muito custo.
-Srta. van der Hoff-disse a sra. Hayes com um estalo de dedos-, se no consegue se controlar...
-Desculpe, senhora-disse Sidney, ainda parecendo que ia cair na gargalhada a qualquer minuto.
-Agora, Jenna-continuou a sra. Hayes-, voce quer ganhar, no?
- Sim-disse Jenna, pensando, sem duvida, no carro.
-Bem, ento talvez voce possa tentar ser um pouco mais amvel. Vamos tentar uma pergunta diferente. Lembre-se, voce pode receber qualquer uma dessas perguntas amanha
a noite. Elas sero escolhidas aleatoriamente pelos juizes. Jenna, na sua opinio, quais so algumas qualidades que voce considera importantes em um Quahog?
Jenna olhou para ela:
-Voce quer dizer tipo... suculncia?
A sra. Hayes olhou para o cu, como se estivesse pedindo ajuda ao Senhor.
- No, Jenna-disse ela-, eu estava falando do time, no da comida. Vamos tentar outra coisa. Algo fcil. Jenna, como voce definiria amor verdadeiro?
Jenna apenas olhou para a Sra. Hayes como se ela fosse louca.
E meio engraado que, enquanto a sra. Hayes estava perguntando isso, eu tenha visto Seth andando sob as arvores, alto, elegante e mais gato do que nunca, o cabelo
louro escuro caindo de um jeito sexy sobre um olho quando ele sorria para mim.
E eu sabia, com uma lufada de clareza maior que qualquer uma que eu tinha experimentado em toda minha vida, qual era a definio de amor verdadeiro. Era como se
de repente eu tivesse apertado o foco automtico na cmera da minha cabea. Amor verdadeiro era Seth Turner - o simples, confivel e amvel Seth.
E eu fui tomada por um sentimento feliz. Quem ligava se Tommy Sullivan tinha voltado  cidade? Quem ligava se a razo para ele estar ali fosse se vingar de mim pelo
que fiz a ele quatro anos antes? Quem ligava se ele tinha me pego dando uns amassos com Eric Fluteley?
Quem ligava se toda vez que o olhava eu era consumida por um desejo de me jogar sobre ele, passar meus dedos por seu cabelo e lamber seu rosto todo? Tudo ia ficar
bem.
Porque eu tinha Seth. O doce e animado Seth, que naquele momento estava sentado em uma cadeira de metal dobrvel ao lado do namorado da Sidney, Dave, fazendo caretas
para mim da platia, tentando me fazer rir durante o ensaio.
S que a minha lufada de clareza durou pouco. Porque no mais que um minuto depois-a sra. Hayes tinha passado para Morgan, perguntando a ela o que ela mais amava
nos quahogs, e Morgan estava gaguejando algo sobre quahogs serem uma importante fonte de protena para as gaivotas da regio-Eric Fluteley veio andando pelo corredor.
E eu fiquei horrorizada ao sentir meu corao se encher de amor por ele, tambm! Quer dizer, ele estava to bonito, com o cabelo escuro cacheado, uma camisa de boto,
as mangas dobradas nos cotovelos, cala caqui limpissima e bem passada e uma piscadela na minha direo.
Eu no podia fazer nada a no ser lembrar como ele estava sexy como Bender em Clube dos Cinco, e como estava gato como Jud, e como ele sempre elogiou o que ele chama
de meu chi, ou forca interior, que ele diz parecer realmente grande, e como diz que nos provavelmente ramos almas gmeas numa vida passada.
Como uma garota e capaz de no beijar um cara que diz todas essas coisas para ela?
-Srta. Ellison.
Ento ta. Talvez eu no saiba o que e o verdadeiro amor. Talvez eu realmente precise dar um tempo de garotos, em vez de olhar a proporo de garotos/garotas nas
faculdades em que eu estou interessada em estudar no prximo ano, e basear minha deciso em onde tem a maior quantidade de garotos. (O Rensselaer Polytechnic Institute,
75 caras para cada 25 meninas. O que parece exatamente certo para mim. Embora eu no tenha certeza de onde e o Rensselaer Polytechnic Institute ou se eles tem um
curso de fotografia. Mas com tantos garotos, quem se importa? Eu me formaria em microbiologia se fosse necessrio.)
-Srta. Ellison!
Sidney me deu uma cotovelada forte, e eu percebi que a sra. Hayes estava falando comigo.
-Sim, senhora-falei enquanto Sidney sorria.
-Sua vez, srta. Ellison-disse a sra. Hayes, dura como pedra.-Por favor diga a nossa platia, e aos nossos jurados, o que voce mais ama nos quahogs.
-Ah, essa e fcil-disse eu, com o sorriso que Sidney tinha escolhido como o meu melhor na noite em que praticamos nossos sorrisos de Princesa Quahog durante horas
no espelho do quarto dela. -Eu amo a sua terra suculncia, especialmente quando eles esto flutuando numa tigela da mundialmente famosa sopa de quahog do Gull'n
Gulp. Mencione meu nome, Katie Ellison, e ganhe uma poro grtis durante o fim de semana!
Na platia, Seth e Dave aplaudiram entusiasmados. Ate a sra. Hayes parecia satisfeita.
-Excelente resposta, Katie-disse ela. -Essa e uma que os jurados vo adorar. Vocs ouviram, mocinhas, como Kati e conseguiu mencionar o nome do seu patrocinador
na resposta?
-Eu no tenho um patrocinador-disse Jenna.- Minha me esta pagando por isso.
-E  por isso que sua resposta devia ser algo do tipo "que eu mais amo nos quahogs so os saborosos e quentes bolos de quahog que minha me faz para mim em dias
frios de inverno"-disse a sra. Hayes.
-Minha me no faz bolos de quahog-disse Jenna. -Ela esta sempre muito ocupada com suas aulas de pilates.
A sra. Hayes olhou para o cu novamente, e ento disse num tom comedido:
-Acho que j e o suficiente para a parte de perguntas e respostas, meninas. Vamos passar para os trajes de gala, porque eu vejo que seus acompanhantes esto aqui...
Os rapazes se levantaram e foram ate o palco, onde nos os recebemos com abraos entusiasmados. Pelo menos Sidney e eu fizemos assim. Morgan Castle, no tendo intimidade
para beijar seu acompanhante, aparentemente, foi timidamente ate ele e disse oi enquanto olhava para os prprios ps com seus sapatos de boneca da Aerosoles. Jenna,
no entanto, ficou onde estava, no centro do palco. Rapidamente ficou aparente, mesmo para os tcnicos de som, que eram to idiotas que acharam que a musica da Kelly
Clarkson que a Sidney cantou era country, que estava faltando um cara.
-Srta. Hicks-disse a sra. Hayes, cuidadosamente ajeitando seu enorme e estufado penteado que uma brisa vinda do mar arriscava destruir-, onde esta seu acompanhante
?
Jenna olhou para baixo, para os dedos em seu coturno (serio... os ps dela deviam estar suando muito. Eu no gostaria de estar por perto quando ela tirasse aquelas
botas).
-Eu no tenho um acompanhante-disse Jenna suavemente.
-O que disse, srta. Hicks?-disse a sra. Hayes.- Tem que falar alto, querida. Eu no consigo ouvir se voce s murmurar.
-EU NAO TENHO UM ACOMPANHANTE!- gritou Jenna.
A sra. Hayes ficou atnita. Estava claro, pela expresso dela, que na histria do concurso de Princesa Quahog de Eastport nunca houve uma participante que tivesse
aparecido sem um acompanhante.
-Voce esta dizendo que no conhece nenhum jovem disposto a ser seu acompanhante, srta. Hicks?-perguntou a sra. Hayes.
-Ningum que aceitaria ser pego fazendo algo to idiota-murmurou Jenna
-Como , srta Hicks?-disse a sra. Hayes, passando de atnita a irritada numa frao de segundos.-O que voce acabou de dizer?
-Eu disse que no, no tenho.
Jenna parecia querer morrer naquele exato momento. Eu no a culpava.
-Bem, um de vocs, rapazes, a acompanhe, ento - disse a sra. Hayes, apontando um dedo para Seth, Dave e Eric, que trocavam olhares de pnico, como se dissessem
"Eu no, cara, voce faz isso...".
A sra. Hayes, no entanto, no da mais moleza para os seus garotos-os atores-do que seu marido para os garotos do time.
-Eric-disse ela, seca-voce vai acompanh-la.
-Eu adoraria, sra. Hayes-respondeu Eric na sua voz mais forcada-, mas sou o acompanhante da Morgan.
-Voce pode acompanhar a Morgan e depois dar a volta e acompanhar Jenna-disse a sra. Hayes, nitidamente no caindo no seu papo de ator.
-Mas isso no seria muito justo com a Morgan, seria?-perguntou Eric.
E ele ainda teve a coragem de passar o brao na cintura de Morgan, fazendo com que ela abrisse bem os olhos e sorrisse um pouco, como se no tivesse certeza se deveria
ficar envaidecida ou alarmada.
-Ah, no-disse Morgan, com bochechas plidas ficando levemente coradas-, esta tudo bem Eric. Serio.
-Eu no preciso de um acompanhante-declarou Jenna, dessa vez sem murmurar. -Sou totalmente capaz de atravessar esse palco sozinha, sra. Hayes.
-No seja ridcula, Jenna-disse a sra. Hayes.- Voce tem que ter um acompanhante. E uma tradio do concurso Princesa Quahog. Seth, vai voce.
Eu senti o corpo de Seth enrijecer ao meu lado. - Caramba - disse ele.
E eu podia perceber que ele estava escondendo uma risada.
-Eu adoraria, sra. Hayes. Mas no tenho certeza de como a Katie se sentiria em relao a isso.
-Eu no me importo-disse alto, me sentindo um pouco irritada com Seth... e Eric tambm.
O que havia de errado com meus namorados que eles no conseguiam suportar a idia de serem vistos no palco com uma menina que, certo, podia no ser a mais popular
da Eastport High, mas ainda era um ser humano, pelo amor de Deus?
Mas Sidney me deu uma cotovelada assim que eu falei. Eu sabia que era porque ela no queria que Jenna ganhasse nenhum tipo de vantagem sobre nos e se ela no tivesse
um acompanhante, tanto melhor.
E se Eric tivesse que acompanhar Jenna e Morgan, isso basicamente faria as duas parecerem umas esquisitas, abrindo caminho para Sidney e eu ficarmos no primeiro
e no segundo lugares, respectivamente... no que houvesse alguma duvida disso antes (pelo menos de acordo com Sidney).
Mas por que eu estava tentando arrumar confuso com meu "eu no me importo com isso"?
S que eu no me importava mesmo. Eu me importava era com Seth e Eric sendo grosseiros com ela.
Mas ento aconteceu algo com que eu me importei, e fez as outras coisas com que eu me importava parecerem nada.
E foi Eric Fluteley abrindo a boca e dizendo: - Ei, j sei Katie, por que voce no liga para Tommy Sullivan e pede a ele para acompanhar Jenna, agora que ele voltou
 cidade? Aposto que ele no vai fazer nada amanha a noite.
Onze
Seth no soltou o brao de mim ou nada assim. Pelo menos, no no mesmo instante.
Na verdade, ningum reagiu de primeira. Todo mundo apenas ficou ali de pe, dizendo: - O que?
A no ser Eric, claro, que estava muito ocupado rindo l prpria piada. O que no foi nem tecnicamente uma piada, porque no foi engraado. Para ningum alem dele,
pelo menos.
Ento Seth olhou para mim atravs de seus clios impossivelmente longos e falou:
-Do que ele esta falando, gata?
E, de repente, eu soube. Soube exatamente o que Tommy Sullivan estava fazendo de volta na cidade.
E a lembrana de como eu quase o deixei me beijar - teria deixado ele me beijar se ele tivesse tentado, o que ele no fez-fez minhas bochechas corarem. Eu esperava
que ningum notasse. Talvez eu pudesse culpar o calcor se algum perguntasse.
- Ah, nada-disse eu tentando disfarar. -Encontrei com Tommy Sullivan no centro da cidade hoje de manha e Eric estava passando de carro.
- Aquele banana-disse Seth.
Eu sabia que se a sra. Hayes no estivesse por perto Seth teria usado uma palavra diferente para descrever Tommy... uma que tambm comeava com a letra B. mas que
no era to socialmente aceita quanto banana.
-Bem, os avos dele ainda moram aqui-disse Dave sempre tentando acalmar os nimos.
Ento, porque Sidney olhou para ele-acho que ela estava imaginando como ele sabia tanto sobre os avs d Tommy-, Dave acrescentou, defensivo:
-O que? Eles freqentam a minha igreja. Ele provavelmente esta aqui visitando os avs.
-No-disse Eric, antes que eu pudesse faz-lo s calar com um olhar-, ele vai comear em Eastport Higna semana que vem. No foi isso que ele disse, Katie?
Fechei os olhos novamente, esperando o buraco que eu imaginei que ia se abrir em frente ao Eastport Towne Photo aparecer sob meus ps. Dava para ouvir um alfinete
cair tamanho o silencio que se seguiu a essa declarao. Ou, sendo Eastport, um quahog espirrar na praia.
Ento Seth gritou:
-O QUE?
E ao mesmo tempo a sra. Hayes declarou:
-Chega de conversa mole, gente. Nos no terminamos nosso ensaio.
Eu abri meus olhos. Ainda no tinha nenhum buraco.
Mas mesmo assim eu realmente queria pular dentro de um.
-Serio-disse Eric parecendo um pouco alarmado pelo volume do grito de Seth... que foi bem alto-, ele mesmo nos disse. No foi, Katie?
Foi ento que Seth tirou o brao da minha cintura.
 -Espere um minuto-disse ele me olhando com tristeza naqueles olhos castanhos que pareciam os de um filhote de cachorro. -Tommy Sullivan esta de volta a cidade?
E voce no me contou?
E era isso. Exatamente o que Tommy estava fazendo ali, confirmado:
ELE ESTAVA TENTANDO ARRUINAR MINHA VIDA.
Mas de forma alguma eu ia deixar. Mesmo que talvez merecesse ter minha vida arruinada, por ter arruinado a vida de Tommy quatro anos antes. Alias, ser que no existe
um estatuto de limitaes de arruinao de vidas?
-Sinceramente, no achei que fosse to importante assim-falei olhando para Seth com minha expresso mais inocente, a que Sidney e eu praticamos em frente ao espelho
do quarto dela para o caso de sermos pegas por nossos namorados dando alertas de gatos quando outros caras passassem -, acabei de descobrir tambm. E, alem disso,
toda essa histria do Tommy foi ha tanto tempo. Eu achei que j eram guas passadas. (Obrigada por essa, me.)
Mas estava claro que no eram guas passadas para Seth.
O que eu de certa forma sabia.
-Meu irmo perdeu todas as bolsas de estudo por causa do que aquele cara fez!-gritou Seth.
-Eu sei-disse eu-, mas, serio, Seth, voce no acha que Tommy j foi punido o bastante por isso?
-Por qu?-perguntou Seth. -Porque algum pintou que ele e um esquisito na parede do ginsio da escola? Voce acha que e a mesma coisa que aconteceu com Jake?
-Vocs expulsaram ele da cidade-disse Jenna Hicks enquanto botava os fones do iPod.
Seth deu uma encarada rpida nela:
-Tommy Sullivan foi embora da cidade porque quis -disse ele.
-E-disse Jenna rindo-, porque vocs iam mata-lo.
-Ei-disse Dave-, isso no e verdade.
Jenna soltou outra gargalhada:
-Certo-falou com sarcasmo.
Ento ela ligou a musica para no ouvir mais a conversa.
Fiquei com inveja dela.
-Gente!-disse a sra. Hayes batendo palmas para chamar a nossa ateno.-J chega. Ainda temos trabalho a fazer! Aos seus lugares... e srta. Hicks. Srta. Hicks!
Jenna desligou o iPod e olhou com ar de cansada para a sra. Hayes.
-Se voce no aparecer com um acompanhante amanha a noite, no vai poder participar do concurso. Entendeu?
Jenna fez cara de entediada:
- Sim, senhora.
Todos nos apressamos para tomar nossas posies, garotos de um lado do palco e meninas do outro. Assim que estvamos longe do alcance dos ouvidos de Seth e Dave,
Sidney me beliscou e cochichou:
-Por que no me contou que Tommy Sullivan esta de volta a cidade? Isso e uma bomba!
Eu queria cochichar em resposta:
"Pensei que voce j soubesse. Voce mandou um alerta de gato sobre ele ontem na praia."
Mas ento me lembrei de que j tinha mentido para ela e dito que aquele era um cara que o Liam conhecia do acampamento de futebol americano.
Serio, pode ser um problema quando voce perde o controle sobre suas mentiras.
Algo que Tommy aparentemente j tinha percebido. E que, sem duvida, era parte de seu plano diablico para me arruinar.
Ento, em vez disso, eu apenas disse:
- Eu no achei que fosse assim to importante.
- Esta brincando?-sussurrou Sidney de volta. - Eu no me surpreenderia se os rapazes estiverem planejando uma festa do cobertor para mais tarde.
Meu estomago embrulhou. Porque uma festa do cobertor e quando os Quahogs pegam um cara e batem nele (antigamente, colocavam um cobertor na cabea da vitima para
ela no saber quem estava batendo; agora no ligam mais, porque muitos dos policiais de Eastport so antigos Quahogs, e Quahogs no denunciam outros Quahogs).
-Isso e uma barbrie - cochichou Jenna Hicks, que entreouviu nossa conversa.
--disse Morgan, que estava plida, mas decidida.-Violncia no  resposta para nenhuma situao.
Sidney, que olhava para elas, voltou seu olhar para mim e ento caiu na gargalhada-presumivelmente da ingenuidade de Jenna e Morgan.
Eu fingi que me juntei a risada. Mas por dentro no estava vendo nada de engraado na situao. Mais que tudo, eu apenas queria matar Eric por ter mencionado Tommy
primeiro. Qual e o problema com Eric Fluteley alias? Para um cara que diz querer tanto ser meu namorado (em publico... no apenas dar uns amassos atrs de um gerador
de emergncia), ele certamente descobriu um forma diferente de me conquistar.
E alem disso, Eric no sabia que na noite anterior estive lutando contra uma vontade louca de enfiar minha lngua na boca de Tommy.
Ou talvez ele soubesse-algum tipo de sexto sentido de namorado-e fosse por isso que estava to empenhada em fazer com que Tommy fosse morto.
Foi difcil me concentrar durante o resto do ensaio para o concurso. Seth parecia muito chateado-eu podia ver seus bceps contrados toda vez que passava a mo por
seu brao para ele poder me "guiar" ate minha posio no palco... e tinha certeza absoluta de que ele no estava fazendo isso para me impressionar com o tamanho
dos seus msculos, mas porque estava muito estressado com aquela historia do Tommy.
Ele no falou mais sobre o assunto comigo, no entanto. Eu realmente esperava que fosse porque ele estava tentando se acostumar com a idia de Tommy estudando em
Eastport High, e no porque estivesse tramando o que Sidney tinha mencionado-uma festa do cobertor. Com Seth, e sempre difcil dizer, porque ele e muito calado durante
grande parte do tempo.
Eu costumava pensar que isso acontecia porque ele era realmente sensvel e profundo.
Porem, mais recentemente acabei percebendo que e porque na maior parte do tempo ele esta apenas pensando no que vai comer depois... muito parecido com meu irmo,
Liam.
Garotos, na verdade, no so assim to profundos no fim das contas.
Bem a no ser Tommy Sullivan. Que pelo visto vem cuidadosamente tramando minha aniquilao social durante os ltimos quatro anos. E obvio que ele estava apenas esperando
que eu chegasse ao meu atual nvel de popularidade /felicidade antes de comear a agir. Porque quanto maior a altura, maior a queda.
E o que poderia ser mais alto que ser a namorada de Seth Turner e a melhor amiga de Sidney van der Hoff?
E, estranhamente, joguei exatamente o jogo dele diante da minha fraqueza no que diz respeito a caras bonitos. Se ele no tivesse me pego ficando com Eric Fluteley,
no teia nada contra mim.
Bem, nada a no ser meu desejo de beij-lo tambm.
Deus, o que ha de errado comigo?
J estava mais do que na hora de o ensaio acabar. No minuto em que a sesso de fotos terminou-a sra. Hayes me fez tirar fotos de Morgan danando e Sidney fingindo
cantar-e a sra. Hayes disse que era o suficiente e que deveramos chegar no Maximo as seis horas no dia seguinte, dei um beijo de despedida em Seth e saem direo
a minha bicicleta, dizendo que precisava entregar as fotos para o sr. Catch, na Gazzete, para que ele pudesse publica-las na edio da manha seguinte.
Depois de todo aquele trauma emocional (sem contar a sra. Hayes), era um alivio pedalar ate o prdio da Eastport Gazette. Porque qualquer que seja essa loucura que
esta acontecendo na minha vida, tudo parece bobeira em comparao com as loucuras que acontecem em um jornal de cidade pequena. Quando entrei, algum estava na mesa
dos classificados gritando por causa dos cachorros do vizinho que no paravam de latir, e como o jornal devia publicar uma matria sobre isso, ou ele ia levar a
historia para o New York Times... e ento eles ficariam arrependidos.
Eu juro que toda a populao da cidade de Eastport, Connecticut, e formada de doidos.
Descarreguei minha fotos do concurso no computador da diretora de arte. Ela prometeu dar uma olhada e encaminhar as melhores para o sr. Gatch, o editor chefe. Agradeci
a ela e estava quase saindo-eu tinha que ir para casa me trocar antes do turno no Gull'n Gulp (Peggy no nos deixa usar shorts no trabalho, a no ser que sejam brancos
ou caqui e muito bem passados)-quando vi a pessoa com quem o sr. Gatch estava em reunio saindo da sala dele.
E quase tive um infarte.
Porque a pessoa tinha mais de 1,80m, estava usando bermuda cargo e uma camiseta justa da Billabong, tinha ombros largos e cabelo ruivo meio longo.
Ele no me viu. Ate porque eu me escondi atrs de um armrio.
Eu no podia acreditar. Eu no podia acreditar. O que ele estava fazendo ali?
Assim que ele saiu, corri para a porta do escritrio do sr. Gatch, que ainda estava aberta, e falei:
-O que Tommy Sullivan estava fazendo aqui?
O sr. Gatch, que e um homem grande e meio bruto, sem pacincia para ningum, ainda mais fotgrafos free-lance que ainda esto no ensino mdio, olhou por cima do
monitor do computador de uma forma meio chateada e falou:
-Desculpe, mas no consegui perceber por que isso seria do seu interesse, Ellison.
Eu olhei para ele. O sr. Gatch tem reputao de duro mas aquilo parecia ter sido particularmente duro comigo. No era como se nos fossemos chegados.
Mas ele tinha pedido a MIM, e no a Dawn Farris, nica outra fotografa free-lance do jornal (ela tambm trabalha meio expediente no Office Max), para fotografar
a festa do segundo aniversario do neto dele. Eu tinha pensado que isso nos dava um certo grau de proximidade.
Aparentemente, tinha pensado errado.
Perplexa, fiquei ali na entrada do escritrio dele tentando imaginar o que fazer. Eu no podia - no iria- deixar o prdio ate saber por que Tommy Sullivan tinha
estado l.
Porque l no fundo, eu tinha certeza absoluta de que eu sabia. Apenas precisava de confirmao para ter certeza de que eu estava certa, antes de passar para a ao.
O sr. Gatch j tinha voltado sua ateno para o monitor do computador.
-Voce no deveria estar no ensaio da Rainha Quahog ou algo assim?-perguntou ele.
-E Princesa Quahog-falei.
Ele sabia perfeitamente bem qual era o verdadeiro titulo de nobreza. Ele tinha escrito sobre isso nos ltimos trinta anos... talvez ate mais, se os rumores de que
estar na casa dos 70 forem verdade.
-E eu acho que o senhor deve saber-continuei apesar de as sobrancelhas peludas e grisalhas do sr. Gatch estarem abaixadas, um sinal incontestvel de que ele estava
concentrado em um jogo complexo de pacincia no computador e no queria ser interrompido.
Mesmo assim, era como se eu estivesse tomada por algum tipo de obsesso. Eu tinha que saber o que Tommy estava fazendo no escritrio dele. Eu apenas tinha que saber.
E essa era a nica explicao para eu ter dito o que disse em seguida. Que foi:
- Os Quahogs esto planejando pega-lo num corredor polons.
Ainda antes de as palavras sarem da minha boca eu j estava querendo desesperadamente no ter dito nada. O que havia de errado comigo? Eu estava dedurando meu prprio
namorado-bem, um deles, pelo menos-para o maior fofoqueiro da minha cidade (bem, fora a minha melhor amiga e meu outro namorado).
As sobrancelhas peludas e grisalhas do sr. Gatch se levantaram instantaneamente. Mas no, como eu imaginava, porque ele tinha sentido cheiro de uma boa historia
e estava tremendo de excitao para escrev-la.
-Eles esto? Agora?-perguntou, moderado. -E o que voce espera que eu faca a respeito disso?
-Bem-disse eu, perplexa novamente-, eu... eu no sei. S achei que o senhor devia saber.
O dio do sr. Gatch pelos Quahogs (causado por ele no gostar de nenhum esporte organizado) era lendrio. Foi ele que descobriu a historia do Tommy no Eagle e foi
adiante e checou a nota de Jake Turner na prova (que tinha, na verdade, subido trezentos pontos desde a tentativa). S existia uma explicao para isso. E no era
uma de que eu gostasse nem um pouco.
Engolindo em seco, eu disse:
-Desculpe te-lo incomodado, sr. Gatch.
E ento me virei. E sai de l o mais rpido que pude.
Doze
Ento. Finalmente aconteceu. Os insultos de Liam, com que ele vinha pegando no meu pe havia anos, estavam finalmente se tornando realidade.
Eu deveria ter percebido o que estava acontecendo ha muito tempo. Tudo fazia sentido perfeitamente. O fato de eu estar namorando com o cara mais gato e mais popular
da escola... e mesmo assim ficar, escondida dele, com outro cara.
O fato de eu no conseguir me obrigar a decidir de qual desses garotos eu gostava mais, porque a verdade e que eu no gostava de nenhum deles tanto assim, a no
ser para dar uns amassos.
O fato de eu ter mentido sobre isso para os dois-e para a minha melhor amiga, e todos os seus amigos, e meus pais, e para mim mesma tambm-tantas vezes que nem conseguia
saber para quem eu contei o que sobre quem.
Tudo estava l o tempo todo, a pura e simples verdade. Liam tinha sido a nica pessoa a me acusar disso na minha cara:
Mentirosa, mentirosa, e pegando fogo.
Era verdade. Eu sou uma mentirosa. E eu no consigo parar de pensar em garotos.
Eu sabia que o sr. Gatch estava certo, e que eu tinha que contar a ele. Quer dizer, Tommy. Mesmo que eu estivesse convencida de que ele no estava armando nada de
bom-e o fato de eu te-lo visto no escritrio do sr. Gatch apenas provava isso. O que quer que aqueles dois estivessem tramando juntos, voce podia apostar que nada
de bom sairia dali. Pelo menos, nada de bom para Katie Ellison.
E ainda assim... ser que eu realmente poderia no fazer nada e deixar aquele rosto lindo ficar desfigurado?
No. Eu no poderia.
E isso, devo admitir, me deixa extremamente fraca. Mas ser que e to surpreendente? Que eu seja fraca, eu quero dizer. Eu beijo caras atrs de geradores de em emergncia.
De que mais algum vai me chamar? Alem de sedutora profissional, o que a Sidney j me contou que estou perigando virar se no comear a fazer sexo. Como se eu ligasse.
Mas eu tentei me impedir. Gastei meu tempo trocando de roupa quando cheguei em casa. Chequei meu e-mail. Folheei a nova Js Weekly. Brinquei de me maquilar. Fiz e
comi um sanduche de atum. Esperei ate absolutamente o ultimo minuto antes de ter que sair de casa para no me atrasar para o trabalho, e s ento procurei o numero
do telefone da casa dos avos de Tommy e disquei.
A av de Tommy atendeu.
-Oi, sra. Sullivan-falei com a voz mais animada que consegui-, aqui e Katherine Ellison, antiga amiga de Tommy, da escola.
Houve uma pausa, durante a qual, sem duvida, a av de Tommy pensou sobre a forma como eu tinha deixado seu neto para ser devorado pelos lobos depois de ele ter feito
a coisa certa indo em frente e revelando o que sabia a respeito dos Quahogs.
Ento a sra. Sullivan disse:
-Ah, Katie Ola! Como voce esta? Eu vi aquela foto linda que voce tirou da sra. Hinkley no batizado da bisneta dela na ultima primavera. Voce e to talentosa!
-Ha...-disse eu-obrigada, sra. Sullivan. Estou procurando Tommy. Ele esta ai?
-Ah, no, querida-disse a sra. Sullivan-, eu acho que ele saiu.
-Ah-disse eu.
Eu no tinha certeza se estava aliviada ou desapontada. Disse a mim mesma que estava aliviada.
-Certo. Bem, por acaso a senhora tem o numero d celular dele? Ele tem um celular, no?
-Ah, sim, ele tem-disse a sra. Sullivan-, e ele m deu o numero... deixe-me ver. Sei que esta aqui em algum lugar.
Escutei a sra. Sullivan remexer seus papeis e depois ,falar:
-Bud? Bud, voce sabe onde eu anotei o numero do telefone celular do Tommy?
Ento o avo de Tommy podia ser ouvido ao fundo falando:
-Disse a voce para prender o papel no quadro de avisos. Por que voce nunca prende nada no quadro de avisos? Foi para isso que eu o pendurei l.
Eu olhei para o relgio da cozinha. Se no sasse para o trabalho AGORA, chegaria atrasada e Peggy descontaria meu pagamento.
-Hum, sra. Sullivan?-falei eu ao telefone.-Sra. Sullivan, tudo bem.
A sra. Sullivan, depois de mexer mais um pouco nos papeis, voltou ao telefone:
-Ah, Katie, querida. Eu no estou conseguindo achar o numero.
-Tudo bem, sra. Sullivan-disse rapidamente.- Se a senhora puder apenas dizer ao Tommy que liguei vou ficar muito agradecida. Certo?
-Certo, querida-disse a sra. Sullivan, ainda parecendo distrada.-Onde eu posso ter anotado esse numero?
Desliguei porque tinha que correr. Quase fui atropelada mais ou menos umas dez vezes ao longo da Post Road e desobedeci inmeras leis do transito tentando chegar
ao trabalho na hora. Consegui, mas adiantada apenas cinco minutos.
Estava prendendo minha bicicleta quando algum passou as mos na minha cintura e sussurrou no meu ouvido:
-Ola, gatinha.
Da para me culpar por ter-me virado rapidamente e tirado as mos dele? Quer dizer, eu estava muito tensa. E no estava tendo meu melhor dia.
-Ei-disse Eric com um tom ofendido, parecendo magoado. -O que ha de errado?
-O que ha de errado?-explodi.-O que ha de errado? Voce e o que ha de errado, e isso. Por que voce tinha que contar a Seth e aqueles caras que Tommy Sullivan estava
de volta a cidade?
Eric piscou algumas vezes por trs das lentes escuras de seu Armani:
-O que voce quer dizer?
-O que eu quero dizer?
Olhei para ele. O sol estava realmente claro... e quente. Eu ainda estava ofegante de ter andado de bicicleta, e um pouco suada. O que imagino seria uma das vantagens
de se ter um carro: voce no teria que se preocupar em chegar nos lugares com marcas de suor debaixo do brao. Ainda assim fiquei de pe com as mos na cintura. Porque
eu no ligava se Eric Fluteley visse minhas marcas de suor nas axilas. No mais.
-Exatamente o que eu disse. Voce estava tentando criar problema.
-Eu no estava!-gritou Eric.
-Ah, estava sim-falei. -O que eu quero saber  por que? O que Tommy Sullivan fez para voce, afinal?
-Nada-disse Eric na defensiva. -Meu Deus, o que ha de errado com voce hoje?
Eu fiquei l parada olhando para ele sob a forte luz do sol. O que havia de errado comigo naquele dia? Nem eu sabia. Tirando a parte de eu ser doida.
Mas ainda assim tenho certeza absoluta de que sempre fui doida. E s que toda essa coisa de Tommy Sullivan finalmente me fez admitir isso para mim mesma.
O que eu estava fazendo? O que eu estava fazendo com aquele cara na minha frente que, certo, era gato e um ator talentoso e tudo mais?
Mas era de Eric Fluteley que eu gostava? Ou dos caras que ele interpretava no palco? Quer dizer, quando eu beijo Eric, eu estou beijando Eric... ou Bender? Ou Jud?
E de pe ali no sol quente, escutando as gaivotas brigarem por uma batata frita jogada na calcada, eu repentinamente soube. Era Jud. O pobre, solitrio e apaixonado
Jud. E Bender, que deixou cair tinta no cho da garagem. No Eric Fluteley, com suas fotos e a BMW do pai.
E perceber isso me deixou um pouco enjoada.
-Quer saber, Eric?-eu me peguei falando para ele. -No posso mais fazer isso.
Eric continuou a me olhar por trs dos culos de sol:
-No pode fazer mais isso o que?
-Isso-disse eu apontando para ele e depois para mim mesma. -O que quer que isso seja. E errado. E eu no vou fazer mais.
O queixo de Eric caiu:
-Espere... voce esta terminando comigo?
-Bem-disse eu-no. Como tecnicamente eu nunca namorei voce, no. Mas no vamos mais ficar.
Eric tirou os culos e disse:
-Katie, voce esta apenas desidratada. Posso ver que esta suando. Entre, tome uma bebida gelada e eu vou encontrar com voce aqui no seu intervalo. Certo?
-No-falei balanando a cabea.
Por um milagre eu no me sentia mais enjoada. Na verdade, estava ate bem. Na verdade, eu queria rir. Um pouco.
-No, Eric no se preocupe. Eu no vou fazer isso. Esta acabado. Serio. Eu realmente gosto de voce, mas s como amigo. Tudo bem?
A expresso de Eric era de incredulidade. Seus olhos azuis como o oceano estavam confusos.
-Espere-disse ele-, isso e porque eu nunca a levei para jantar ou algo assim? Porque era voce que no queria ir comigo, lembra? Voce sempre dizia que tinha medo
de que as pessoas nos descobrir...
-No-disse eu-, no tem nada a ver com isso, Eric. S no posso fazer mais isso. E muito complicado. E no e justo com voce.
-Eu no ligo-insistiu Eric tentando segurar minha cintura novamente, mas consegui me desvencilhar.
-Eu ligo.
Eu sabia que precisava mudar o enfoque para que fosse sobre ele e no sobre mim, porque a nica pessoa com quem Eric realmente se importa e ele mesmo, e ento e
s isso que realmente interessa a ele. Ento eu disse:
-Voce precisa de uma namorada de verdade, uma que possa se dedicar apenas a voce.
Da forma como eu devia estar me dedicando somente ao Seth.
-Que tal Morgan Castle? Ela realmente parece gostar de voce. Vocs tem tanto em comum, com a coisa da performance. E formam um belo casal.
Isso pareceu ter surtido efeito em Eric. Ele parou de tentar me agarrar e me beijar-sabendo to bem quanto eu sabia que, no minuto em que a pregao comeasse, eu
estaria derretendo nos braos dele-e falou:
-Serio? Voce acha?
Haha. Eu sabia que funcionaria.
-Com certeza. S que, voce sabe. Voce tem que trata-la bem. Porque ela e uma bailarina e tudo mais. E bailarinas so muito sensveis. Meio como os atores.
Ele pareceu gostar disso. Bem, sendo um ator eu imaginei que fosse gostar. Como todos os atores, ele estava convencido de que era algum realmente especial, e no
apenas um cara que ficava de pe num palco dizendo um monte de coisas que outra pessoa escreveu, sem ter nenhum pensamento prprio original.
Oops. Ou talvez ele tenha. Porque um segundo depois, ele me olhou de forma suspeita e disse:
-Espere um minuto. Sobre o que e isso tudo, afinal, Katie? Isso tem alguma coisa a ver com Tommy Sullivan?
Eu o fitei com os olhos arregalados:
-Tommy? No. Por que isso teria alguma coisa a ver com Tommy?
Ser que Eric sabia de algo que eu no sabia? Como o que Tommy estava armando?
-No sei-disse ele, ainda olhando para mim desconfiado. -Porque parece que tudo estava indo muito bem entre ns ate ele voltar para a cidade.
Eu queria cair na gargalhada. E no de uma forma feliz. De uma maneira histrica. Porque o que Eric tinha acabado de falar era chover no molhado... que tudo parecia
estar indo bem ate Tommy Sullivan voltar a cidade. Nunca ningum disse algo to verdadeiro.
-Isso no tem nada a ver com Tommy-disse eu.
S que, como de costume, eu estava mentindo.
Mas ate ai, nada demais, minto o tempo todo mesmo. Que diferena faria uma a mais?
-Bem-disse Eric, no parecendo nada convencido.
Nenhuma garota tinha terminado com ele antes. Obviamente ele no sabia muito bem como agir.
Para minha sorte, ele escolheu ser magnnimo com relao a isso. Eu nem tinha ficado to preocupada que ele resolvesse ser vingativo e contar tudo sobre ns para
o Seth. Porque Eric valoriza demais sua aparncia e no gostaria de ser o convidado de honra de uma festa do cobertor.
-Se voce tem certeza...-disse ele para mim.
-Ah-falei-, tenho certeza, sim. Tchau, Eric. Vejo voce por ai.
-E-disse ele colocando de volta os culos escuros. -Vejo voce no concurso de Princesa Quahog. Amanha.
-Amanha-concordei. -Certo. E, hum, obrigada.
Parecia meio idiota agradecer a um cara por passar tanto tempo beijando atrs de um restaurante. Mas o que mais eu deveria falar? Princesas Quahog so, afinal de
contas, educadas.
E Eric no pareceu ligar. Ele sorriu e fez um aceno de tchau. Ento foi andando na direo da BMW do pai.
E eu corri para dentro do Gull'n Gulp, batendo o ponto apenas trinta segundos antes do horrio.
-Chegando em cima da hora, Ellison?-quis saber Peggy quando me viu.
-Desculpe-disse eu-, o ensaio do concurso de Princesa Quahog demorou um pouco demais.
E impressionante a facilidade com que as mentiras saem da sua boca uma vez que voce se acostuma a conta-las o tempo todo.
-Tudo bem-disse Peggy, sarcstica-, prenda seu cabelo e v para l.
Eu prendi o cabelo em um rabo-de-cavalo e sai para o salo, onde fui recebida por mais ou menos uma dzia de pessoas que trabalham na casa, como garonetes, cozinheiros,
ajudantes, e Jill a hostess, segurando um bolo no formato de um quahogque tinha BOASORTEPARAANOSSA PRINCESA QUAHOG escrito com confeito amarelo.
Eles todos-incluindo Peggy, que veio atrs de mim - gritaram SURPRESA ao mesmo tempo.
Eu estava surpresa, de verdade. Especialmente depois da forma como Peggy tinha me dado uma bronca. Que depois ela me confidenciou, rindo, que foi s para disfarar
ainda mais o que eles tinham planejado.
-Haha-ri sem muita vontade.-Realmente funcionou.
Ainda assim foi legal da parte deles. Quer dizer, deles mostrarem seu apoio. Bem, se eles so meus patrocinadores, tem que me apoiar.
E como sempre tem uma calmaria entre quatro horas, quando meu turno comeava, e cinco, quando os primeiros clientes chegam para o jantar, foi legal sentar comendo
bolo e olhando para a gua.
Pelo menos foi legal ate Shaniqua, encostada no parapeito ao meu lado, sobre a gua, falar:
-Ento, qual e a parada desse tal de Tommy Sullivan que apareceu ontem? Foi realmente ele quem dedurou os Quahogs anos atrs?
Jill, que estava encostada do outro lado, chupou o confeito de um dedo e disse:
-E, e como eu consigo arrumar o telefone dele? Porque aquele garoto e uma beleza.
Senti uma vontade repentina e completamente irracional de empurrar Jill na gua. O que e estranho, porque realmente gosto dela.
Em vez de empurr-la, respondi a pergunta de Shaniqua:
-Sim. Tommy e mesmo o cara que delatou os Quahogs anos atrs. Ele estava cobrindo um jogo para o jornal do colgio, o Eagle, entrou no vestirio da escola para entrevistar
alguns dos jogadores antes da partida e entreouviu eles se gabando de terem colado de outro rapaz quando descobriram que o inspetor da prova que estavam fazendo
era um grande f dos Quahogs, que os deixou se safarem.
Shaniqua fez cara de desgosto.
-Voce quer dizer que se eles no estivessem se gabando disso, nunca seriam pegos?
-Provavelmente no-disse eu-, mas, voce sabe, eles nunca acharam que um garoto de um jornal de uma escola do ensino fundamental ia delata-los. Mas Tommy incluiu
as declaraes sobre a prova em seu artigo e o sr. Gatch, da Gazette, leu a matria e checou a nota dos rapazes e... Bem, o treinador Hayes teve que desistir do
campeonato estadual porque perdeu a maior parte do time.
Jill estava mexendo no cabelo louro, brilhante e comprido.
-Uau. Isso e, tipo, trgico.
-O que ha de trgico nisso?-quis saber Shaniqua. -Aqueles caras colaram e receberam a punio que deviam receber. Ento por que foi Tommy que teve seu nome pintado
na parede do ginsio?
-Bem, voce sabe como essa cidade e em relao aos Quahogs-falei encolhendo os ombros, esperando que ela no percebesse que minhas bochechas de repente tinham ficado
coradas.
- Idiotas estpidos-disse Shaniqua, embora a palavra que ela usou para descrever os cidados de Eastport tenha sido mais colorida que idiotas e inapropriada para
uma potencial Princesa Quahog repetir.
Depois, nos todas tivemos que sair do parapeito e entrar, porque um nibus lotado de turistas alemes tinha acabado de encostar. E as sete horas, estvamos lotados.
As coisas no acalmaram de novo ate pouco antes das onze, horrio que fechamos as quintas. Eu estava to cansada que tive que ligar para o Seth e pedir que no me
encontrasse depois do trabalho.
E, tudo bem, a verdade era que a idia de beijar Seth depois do trabalho no carro dele no estacionamento pareceu to interessante quanto a idia de beijar-sei l
- um quahog, ou algo assim. O marisco, eu quero dizer.
Mas eu estava mesmo cansada. Tinha sido um dia longo. E eu precisava de uma boa noite de sono por causa do concurso no dia seguinte e tudo mais. Ento no era apenas
uma desculpa. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesma.
Ainda assim, quando eu fui ate o bicicletario para pegar minha bicicleta depois do trabalho e ouvi algum chamar meu nome no estacionamento, todo o cansao desapareceu
do meu corpo.
Porque no era a voz de Seth.
No era mesmo a voz de Seth.
Treze
Serio. Foi como se eu tivesse sido atingida por um raio, tomado um milho de Red Bulls ou algo parecido, porque de repente eu estava muito ligada. E todas aquelas
bandejas de bolinhos de quahog que eu tinha carregado? Todas aquelas tigelas de sopa de quahog que tinha levado as mesas? Meus msculos no sentiam mais nada.
Isso  mesmo serio. Quer dizer, que um mero garoto pudesse me fazer me sentir daquele jeito. Mesmo quando comecei a sair com o Seth - quando percebi que, dentre
rodas as garotas de Eastport High, ele na verdade gostava de mim, e no de nenhuma das Tiffanys ou Brittanys que ele poderia ter to facilmente-ele nunca me fez
sentir dessa forma.
E tenho que dizer que eu realmente, realmente odiava Tommy Sullivan por aquilo.
-O que voce quer?-falei enquanto me virava, com minha voz mais rude.
S que as palavras perderam a fora quando vi como ele estava lindo, encostado na frente do seu Jeep iluminado por um feixe de luz que descia de uma das lmpadas
do estacionamento. Seu carro era o nico que tinha sobrado no estacionamento-todo mundo j fora para casa. O per estava completamente silencioso, a no ser pelo
bater da gua contra o muro e alguns grilos sob o gerador de emergncia.
Eu no consegui deixar de notar, na luz da rua, que os braos de Tommy estavam cruzados na frente do peito de uma forma que seus bceps ficavam realmente inchados
por baixo das mangas curtas da camiseta justa.
Ele estava com um p encostado no pra-choque, mostrando um buraco no joelho do jeans que usava. Eu no conseguia parar de olhar para a pele bronzeada que aquele
buraco revelava, mesmo que fosse apenas um joelho. Era como se eu estivesse hipnotizada ou algo assim.
Ah, sim. Eu odeio Tommy Sullivan. Muito.
-Ei-disse ele descruzando os braos, mas sem desencostar o p do pra-choque, quando viu que eu me virava-, achei que a encontraria aqui. O que houve? Minha av
disse que voce ligou.
Eu tentei me impedir. Realmente tentei.
Mas quando percebi, estava deixando a proteo-de beijar um garoto que no fosse meu namorado-do bicicleta rio e do gerador de emergncia e atravessando o estacionamento
na direo dele. Foi como se eu fosse um dos zilhoes de insetos que ficam voando ao redor da lmpada sobre ns, atrada no pela luz sobre nossas cabeas, mas pelo
que quer que fosse que Tommy Sullivan emanasse.
E eu estava comeando a suspeitar que eram alguns feromonios srios ou algo assim. Seno, de que outra forma eu poderia explicar por que no conseguia ficar longe
dele, apesar de ele obviamente estar de volta a cidade para me destruir?
-E-falei quando cheguei perto o suficiente para ver que seus olhos estavam cor de mbar sob a luz da rua.
Mais amarelos do que o mbar, na verdade. No acho que tenha sido um truque da minha imaginao. Os olhos de Tommy Sullivan pareciam dourados.
-Eu liguei. Eu... eu queria dizer algo a voce.
-Foi o que imaginei-disse Tommy olhando curioso para mim. -Ei, voce esta bem? Voce parece meio... estranha.
-Eu estou bem-disse lambendo os lbios.
E eu no estava nem tentando flertar! Minha boca simplesmente ficou seca demais de uma hora para outra. No sei por que. Eu apenas continuei olhando para os olhos
de Tommy e pensando: Eles realmente parecem dourados. Como isso e possvel? Como algum pode ter olhos dourados.
-Hum-disse ele.-Bem, voce no deixou o numero do seu celular. Ento no pude ligar de volta. Tentei ligar para sua casa, mas seu pai disse que voce estava aqui.
-Ah.
Tommy, ao contrario de Seth e Eric, no usava nenhuma jia. Seu pescoo no era adornado por correntes, cordes de couro ou colares de concha. Tudo que usava era
um relgio, um daqueles grandes e a prova d'gua. Decidi que o look sem jias Ihe cala bem.
-Ento-disse ele levantando as sobrancelhas e ainda parecendo curioso-, o que voce queria me contar?
O que havia de errado comigo? Por que eu no conseguia parar de encar-lo? Estava agindo como uma daquelas garotas apaixonadas idiotas que ficavam em volta do meu
irmo na academia. S que sem ficar rindo. O que era ridculo, porque eu no estava apaixonada por Tommy Sullivan. Na verdade, odiava Tommy Sullivan.
E isso me lembrou.
-O que voce estava fazendo hoje no escritrio do sr. Gatch no prdio da Gazette?-perguntei quando finalmente consegui me controlar o suficiente.
-Foi por isso que voce ligou?-perguntou Tommy incrdulo.
-No-disse eu.
De repente eu estava vermelha. Para que ele no notasse, soltei o grampo que prendia meu rabo-de-cavalo, depois abaixei a cabea para que meu cabelo ondulado casse
sobre o rosto. Ento corri para me encostar no Jeep ao lado dele, para deixar que visse apenas meu perfil.
-S quero saber o que voce estava fazendo l. E por isso que voce esta de volta a cidade, Tommy? Porque esta escrevendo algum tipo de matria para o sr. Gatch?
-O que o sr. Gatch falou-perguntou Tommy- quando voce perguntou para ele?
Fiquei ainda mais vermelha. Como ele sabia disso?
S que eu sabia como. Tommy me conhecia. Bem demais ate.
Mantive o olhar no asfalto, nos pequenos pedaos que brilhavam sob a luz da rua.
-Que isso no era da minha conta.
-Aham-disse Tommy dobrando os braos novamente.-E o que isso diz a voce?
-Que no e da minha conta-falei com raiva.
-Bem-disse Tommy, encolhendo os ombros-, e isso ai, ento.
Eu tinha me esquecido disso sobre ele. Como era frustrante a forma como ele era teimoso. O que e uma surpresa (eu ter esquecido), porque foi essa teimosia, acima
de tudo, que nos levou aquela baguna toda.
-Tommy pense no que voce esta fazendo, o que quer que seja. No faa nada para fazer as pessoas odiarem voce.
-Como posso fazer isso?-perguntou Tommy rindo. -Todo mundo em Eastport j me odeia. O que eu poderia fazer para me odiarem ainda mais?
-Eu no sei-falei, me virando na sua direo, sem ligar mais que ele visse meu rosto corado. -Mas, Tommy, voce deveria saber... Eric falou para todo mundo que voce
voltou para a cidade, e Seth... Seth no ficou feliz.
-Imaginei que no fosse ficar-disse Tommy com um sorriso que s podia ser chamado de cnico.
-Tommy, eu estou falando serio-falei, esticando uma das mos para encostar no brao cruzado de Tommy, apenas para faze-lo perceber como eu estava falando serio,
no porque quisesse toca-lo.-Sidney disse que no ficaria surpresa se eles estivessem planejando algo. Seth e Dave e o resto do time. Algo como... como um corredor
polons.
Mas Tommy, ao invs de ficar horrorizado, apenas jogou a cabea para trs e riu.
Fui eu que fiquei horrorizada com a reao dele.
-Tommy, no acho que a Sidney estivesse de brincadeira!-gritei. -Voce precisa tomar cuidado. Eu acho que vai ficar tudo bem se, como disse voce ficar na sua. Mas
o que quer que esteja fazendo na Gazette... serio, Tommy. Apenas pare. Principalmente se isso vai deixa-los ainda mais irritados do que j esto.
-Voce  demais-disse Tommy quando parou de rir tempo suficiente para voltar a falar, balanando a cabea e rindo de mim. -Voce realmente .
-Tommy.
Talvez ele no entendesse a gravidade da situao. Coloquei a outra mo no brao dele e me levantei para olhar nos seus olhos muito sinceramente, tentando no notar
que eles pareciam estar da cor do sol, para faz-lo perceber que eu no estava brincando.
-Esse  o fim de semana do festival do quahog... o ultimo fim de semana antes de as aulas comearem novamente. Voc se lembra do que acontece nesse fim de semana.
Certo?
Ele olhou para minhas mos um pouco sem entender. Eu estava muito perto dele tambm. Perto o suficiente para meus peitos ficarem muito prximos das minhas mos.
Ento talvez no fosse exatamente para minhas mos que ele estava olhando.
-Hum-disse ele.
-Esse e o fim de semana em que os Quahogs fazem tudo o que podem e no podem antes de os treinos com o treinador Hayes comearem de verdade-lembrei a ele. -No ano
passado tudo o que aconteceu foi algumas pessoas perderem suas caixas de correio, porque o time as destruiu com bastes de beisebol das janelas dos carros. Mas esse
ano, Tommy... pode ser que eles queiram destruir voce com tacos de beisebol.
O olhar de Tommy passou dos meus peitos para os meus olhos. Eu estava imaginando se ele tinha percebido que eu tinha dado mais um passo para perto dele, e agora
nossos rostos estavam separados por uma distancia muito pequena. Um de meus joelhos, na verdade, estava encostando no dele.
-Sua preocupao com meu bem-estar-disse ele -e comovente.
-Estou falando serio, Tommy. Eu me sinto mal por... bem, por como as coisas degringolaram entre a gente quatro anos atrs.
-Voce se sente mal-repetiu ele, dessa vez era ele que estava lambendo os lbios.
-Aham-disse eu.
Ele tinha um monte de cabelos louros no brao. No consegui no fazer um pouco de carinho com meus dedos. Apesar de me odiar por fazer isso. Muito. Por como eu tratei
voce.
-Voce tem certeza de que se sente mal por como me tratou?-quis saber Tommy.
Sua voz ainda soava sarcstica. Mas tambm um pouco curiosa.
-Ou voce se sente mal porque eu a peguei traindo seu namorado, e esta com medo que eu conte para ele?
-Voc pode contar a ele o que quiser-falei, encolhendo os ombros.-Eric e eu terminamos essa tarde.
Uma olhada para cima-por entre meus clios, claro - me mostrou que Tommy tinha levantado as sobrancelhas como sinal de surpresa. Olhei novamente para baixo, rpido,
mantendo o foco nos pelos do brao dele que eu estava acariciando.
-Voc terminou?-disse Tommy com uma voz no to segura quanto antes, mas mesmo assim sem perder nem um pouco do sarcasmo. -Deus~ espero que no tenha sido por minha
causa. Eu odiaria saber que me meti entre voce e o cara com quem voce estava traindo seu namorado.
Ofendida (como ele podia fazer piada num momento como aquele, quando eu estava em seus braos... bem, praticamente?), tirei minhas mos dele e disse num tom serio:
-No fique se achando, Tommy. No teve nada a ver com voce. E quer saber mais? Desculpe ter ligado para voc hoje. Ou para sua av. O que seja. Vamos apenas fingir
que eu no liguei. Eu espero que Seth e aqueles caras realmente te peguem no corredor polons e batam em voce com um taco de beisebol. Talvez assim voce finalmente
perceba que no sabe de tudo.
E eu me virei para ir embora.
E, exatamente como eu esperava que ele fizesse, ele esticou o brao e pegou meu pulso.
S que em vez de apenas me impedir de ir ate minha bicicleta, Tommy continuou segurando. A prxima coisa de que me lembro e ele me girando ate eu ficar de costas
para o Jeep...
..e era ele que estava inclinado sobre mim, com as mos sobre o capo, um brao de cada lado e o rosto a centmetros do meu.
-No acho que eu sei de tudo-disse para mim com sua voz grave, os olhos fixos nos meus com uma intensidade que estava fazendo meu corao disparar, de uma maneira
agrad4vel.
-No?
Eu no fazia idia do que estava falando. Tudo que conseguia pensar era: Ele vai me beijar. Eu sei disso. Ele vai me beijar, enquanto uma parte destacada do meu
crebro imaginava por que, se eu realmente o odiava tanto quanto vivia dizendo a mim mesma, estava to excitada com aquilo.
-No-disse Tommy.
Ele no estava sorrindo nem um pouco agora. No existia nem uma ponta de humor nos seus olhos dourados.
-Porque se eu soubesse de tudo, teria descoberto que tipo de jogo voc acha que esta jogando nesse momento.
-Eu no estou jogando-protestei.
Mas a palavra jogando mal tinha sado dos meus lbios quando a boca de Tommy veio sobre a minha.
E ento Tommy Sullivan estava me beijando, como eu nunca havia sido beijada na vida. O que era ridculo, porque e claro que eu tinha sido beijada centenas de vezes.
Mas de alguma forma, nunca exatamente daquele jeito, por algum que parecia sentir que tinha todo o tempo do mundo para fazer aquilo... o negcio e que Tommy Sullivan
estava me beijando mais intensamente do que eu tinha sido beijada antes, e isso me fazia sentir seu beijo desde o topo da minha cabea at a planta dos ps, e em
todos os lugares no meio. Ele no estava nem mesmo me tocando-a no ser seus lbios, e onde seu corpo estava encostado ao meu, o que me fazia sentir a frente do
Jeep nas minhas costas.
Mas era como se ele no precisasse me tocar. Cada pequena terminao nervosa do meu corpo parecia estar pegando fogo. Era como beijar uma descarga eltrica ou algo
assim. Eu me sentia como se fosse explodir.
E imagino que Tommy deva ter sentido algo na mesma linha, porque depois de um minuto cuidadosamente sem me tocar, de repente seus braos me envolveram e, em vez
de sentir a frente do Jeep contra as minhas costas, ele me levantou e eu sentei sobre o capo, e ele estava meio que entre minhas pernas. Eu j tinha passado meus
braos ao redor do pescoo dele. Isso era tudo o que eu podia fazer para evitar passar tambm as pernas em volta da cintura dele.
Tudo em que eu conseguia pensar era: Agora, isso e um beijo de verdade. Seth nunca tinha me beijado daquele jeito antes. Nem Eric. Era quase como se Tommy tivesse
praticado aquele beijo ou algo assim, para voce ter uma idia de como foi bom.
E enquanto ele continuava me beijando, e eu continuava beijando ele de volta, me ocorreu que era realmente verdade... Tommy Sullivan realmente era esquisito.
Mas, tipo, da melhor forma que um cara podia ser.
E ento, simplesmente to de repente quanto comeou a me beijar, Tommy parou, afastando a boca da minha-mas sem tirar os braos de minha volta-e me olhou. Como eu
estava empoleirada no capo do Jeep, nossos olhos estavam exatamente da mesma altura, pelo menos uma vez. Eu olhei bem para ele, meus lbios deliciosamente machucados
e tremendo, minha respirao ainda ofegante.
Mas no to ofegante quanto a dele.
-Nem tente me contar que voce aprendeu a fazer isso na escola militar-falei de forma acusatria quando consegui falar novamente.
Tommy riu. Mas sua voz estava to fraca quanto a minha quando ele respondeu:
-Eu disse. Era para meninos e meninas.
-Ah, sim.
Mas essa informao nao foi muito reconfortante. Serio, Tommy tinha que ter beijado um monte de garotas para aprimorar sua tcnica de amasso de forma to perfeita.
Minha cabea estava rodando tanto que eu nao conseguia parar de gaguejar.
-Ento voce tem... voce tem uma namorada?
Ele levantou as sobrancelhas.
-Tinha. Por qu? Voce ficaria mais interessada em mim se eu tivesse uma namorada para que voce pudesse se divertir tentando me roubar dela?
-Nao sou desse tipo-disse, tentando me desvencilhar dele.
Mas ao mesmo tempo, uma parte mais forte de mim queria ficar exatamente onde eu estava. Para sempre.
-Eu nao roubo namorados de outras pessoas.
-Certo-disse Tommy com uma risada.-Voce s trai seu prprio namorado.
-Nao consigo me controlar-protestei.
Embora soubesse que se Seth tivesse me beijado da forma como Tommy me beijou ao menos uma vez, eu nunca teria olhado duas vezes para Eric. Ou para Tommy.
E ento admiti uma coisa terrvel... algo que nunca admiti para ningum antes. Ningum que nao fosse eu mesma:
-Eu s... eu s acho que nao gosto dele o suficiente para isso.
-Nao acho que isso tenha a ver com o quanto voce gosta ou nao gosta de Seth-disse Tommy, enrolando no dedo um cacho do meu cabelo. -Acho que tem a ver com o fato
de que voce o quis por muito tempo, e ento conseguiu, e percebeu que ele nao era to maravilhoso assim no fim das contas. Mas voce nao podia terminar com ele, porque
e Katie Ellison, a garota mais inteligente da turma. Terminar com Seth significaria admitir que cometeu um erro. E a geniozinha Katie Ellison nao comete erros.
-Iss... isso...-gaguejei-isso e ridculo!
-E? Talvez. Ou talvez o problema seja que voce nunca suportou desapontar as pessoas, e terminasse com Seth, isso desapontaria um monte de gente... especialmente
Seth ento esta fazendo tudo que pode para fazer com que ele termine com voce. S que nao esta funcionando.
-Haha-ri.-Isso e engraado! Nao, serio, isso e hilrio. Voce acha que eu quero que o Seth descubra sobre mim e o Eric?
-Exatamente-disse Tommy. -S que ele nao e inteligente o suficiente. Serio Katie, o problema todo e o quanto voce nao esta satisfeita com voce mesma.
Eu puxei minha cabea para a mecha desenrolar do dedo dele e voltar para meu rosto.
-O que voce quer dizer?-perguntei.-Gosto de mim mesma. Eu gosto muito de mim mesma. Demais ate, talvez-acrescentei depois de um segundo pensando sobre a Princesa
Quahog e como a Sidney e eu tnhamos certeza de que amos vencer.
-Eu acho que nao-disse Tommy balanando a cabea.-Eu vi suas fotos, lembra?
Eu olhei para ele sob a luz da rua:
-Qual e o problema com as minhas fotos?
-Voce e uma grande fotografa-admitiu Tommy-, mas como o sr. Bird disse, voce e melhor tirando fotos de pessoas do que de qualquer outra coisa. Eu acho que e porque
voce entende as pessoas... e nao as julga. E a si mesma que voce parece nao entender... ou e consigo mesma que voce nao e totalmente honesta.
-De que voce esta falando?-disse eu, balanando a cabea.-Eu posso mentir muito... isso e verdade. Mas para outras pessoas. Nao para mim mesma.
-Ah, e?-disse ele parecendo surpreso com algo. -Pelicanos, Katie?
-O que tem?-falei encolhendo os ombros.-Qual  o problema se eu gosto de tirar fotos de pelicanos? O que isso prova?
-Que voce esta apenas tentando dar as pessoas aquilo que voce acha que elas querem. Nao e o que voce quer.
Por que eu tinha a impresso de que ns nao estvamos falando de pelicanos, na verdade? O negcio e que eu nao sabia sobre o que ele estava falando. Pior, eu nem
ao menos ligava. Porque tudo o que eu queria fazer era beij-lo mais.
-As pessoas gostam de pelicanos-balbuciei, porque foi a nica coisa em que consegui pensar para falar.
-E-disse Tommy.-As pessoas gostam. Assim como as pessoas gostam de quahogs. Mas voce nao gosta. As pessoas amam Seth Turner. Mas voce nao ama. Eu acho que o problema
com voce, Katie, e que voce andou to ocupada nos ltimos anos dando as pessoas o que pensa que elas querem, que nao parou para pensar no que voce quer.
Olhei para a boca dele. Eu nao fazia idia do que ele estava falando. Eu sabia totalmente o que eu queria. Pelo menos, naquele exato momento.
-Ou talvez voce tenha pensado-disse Tommy com um sorriso, aparentemente notando a direo do meu olhar-, e isso assusta voce.
-Eu nao estou assustada-disse a ele com certeza. E pelo menos dessa vez eu nao estava mentindo.
E ento, para minha grande satisfao, ele comeou a me beijar de novo. Nao tenho muita certeza de quanto tempo teramos ficado ali naquele estacionamento nos beijando-ou
talvez mais do que beijando, considerando a rapidez com que as coisas estavam se desenrolando - se eu nao tivesse notado, por trs das minhas plpebras, uma luz
que era muito mais forte que a luz da rua, que estava sobre ns.
E ento eu abri meus olhos e notei um carro que tinha acabado de parar no estacionamento do Gull'n Gulp.
Um carro com uma Sidney van der Hoff muito surpresa atrs do volante.
Catorze
Meus pais ainda estavam acordados quando cheguei em casa. Aparentemente, esperaram acordados especialmente por mim.
-Oi, querida-disse minha me, abaixando o exemplar da Realtor Magazine que estava lendo na cama, enquanto meu pai ficava trocando entre os vrios canais da ESPN
procurando os resultados do golfe. -Como foi seu dia?
-Hum...-falei, sem ter certeza absoluta de como responder aquela pergunta.
Alem disso, eu ainda estava meio area por causa dos beijos de Tommy Sullivan. E por causa do que aconteceu logo depois de ele me beijar.
-Foi bom.
Bem, o que mais eu poderia dizer? Nao to bom, me. Eu terminei com o cara com quem eu ando ficando escondida do meu namorado e comecei a ficar com outro cara um
que a cidade inteira odeia e que eu acho que quer arruinar minha vida.
S que a minha melhor amiga me pegou no flagra, ento agora ele no precisa se preocupar mais.
-A Sidney ligou-disse meu pai, sem tirar os olhos da tela da televiso.-Duas vezes.
-Ah-disse eu-, obrigada.
-Por que ela esta ligando para o telefone de casa - quis saber meu pai.-Voce esqueceu de carregar seu telefone outra vez?
-Hum...
Nao havia necessidade de contar a ele a verdade - que eu estava mandando todas as ligaes da Sidney direto para a caixa de mensagens desde que ela comeou a ligar,
aproximadamente trs segundos depois de sair do estacionamento, depois de ver Tommy Sullivan e eu nos beijando no capo do carro dele.
Serio, ela nem disse uma palavra. Ela apenas deu r no Cabriolet e saiu a toda velocidade.
Depois comeou a me ligar, imediatamente.
Mas se Sidney achou que eu ia realmente atender, entendeu errado, com certeza. Nao porque eu tivesse voltado a beijar Tommy, mas porque tinha percebido imediatamente
a gravidade do que estava fazendo e o havia empurrado descido do capo do carro dele e corrido para minha bicicleta.
-Katie-disse ele, vindo atrs de mim.
-V embora!-gritei, tentando soltar minha bicicleta, mas estava difcil acertar a combinao com os dedos tremendo tanto quanto os meus estavam.
-Katie-disse Tommy se encostando no gerador de emergncia, olhando p ara mim-, por favor. Ns precisamos conversar.
-De jeito nenhum-disse eu.
Eu estava furiosa por perceber que minha voz tambm estava tremula tambm. O que havia de errado comigo? Quer dizer, eu sei que eu gosto de beijar garotos e tudo
mais. Mas Tommy Sullivan?
-Voce tem a mnima idia de quem era aquela? A mnima idia?
-Era Sidney van der Hoff-disse Tommy.-Eu sei, eu a vi ontem na praia com voce, lembra?
-Isso mesmo-falei, finalmente conseguindo tirar a corrente-, e em mais ou menos cinco segundos a cidade toda vai saber que eu estava ficando com voce no estacionamento
do Gull'n Gulp.
-Bem, talvez seja melhor assim-disse Tommy com muita coragem.-Quer dizer, nao era como se voce e o Seth fossem ganhar o premio de casal do ano de qualquer forma.
-Mas eu nao queria que ele descobrisse dessa forma!-gritei.
-Talvez Sidney v guardar isso para ela-disse Tommy.
-Ah, claro! Do que voce esta falando? E a Sidney van der Hoff!
-E, mas ela nao e sua melhor amiga?-disse Tommy parecendo totalmente calmo com tudo aquilo. -Eu sempre achei que melhores amigos se defendessem.
-E a Sidney van der Hoff! - gritei novamente.
Ser que ele nao entendia? Nos estvamos mortos.
Correo: eu estava morta. Ningum ia pensar nada sobre ele me beijar. J o fato de eu estar beijando ele? Todos iam me odiar. Nao me sobraria um nico amigo em
toda a cidade.
Que forma de comear meu ultimo ano.
-Era isso que voce queria o tempo todo, nao era? -falei para ele enquanto tirava minha bicicleta do bicicletario. -Foi por isso que voce voltou. Para se vingar de
mim, arruinando minha vida!
-O que?
Ele teve coragem de soltar um risinho incrdulo.
-Voce esta falando serio?
-E claro que eu estou falando serio! E agora voce vai simplesmente ir embora, nao vai? Voce nunca pretendeu ficar por aqui depois que tivesse feito seu estrago,
ne? Nem tente negar, Tommy.
Ele apenas balanou a cabea:
-Katie, do que voce esta falando?
-Voce sabe do que eu estou falando-disse, colocando o capacete de qualquer jeito.-Deus, nao posso acreditar que fui to estpida. Nao posso acreditar que eu deixei
voce fazer isso comigo!
-Fazer o que com voce?-perguntou Tommy comeando a parecer zangado. -Eu nao me lembro de ter feito nada com voce. Voce estava me beijando tambm. E de maneira muito
entusiasmada, devo acrescentar.
Fiquei to furiosa que nem fui capaz de responder. Apenas comecei a pedalar. Quase escorreguei na calcada passando por ele, mas me recuperei no ultimo segundo e
segui em frente enquanto ele gritava:
-Katie! Espere!
Pensei que tivesse me livrado dele. Eu estava pedalando muito r4pido.
Mas no sinal de PARE logo antes da Post Road eu percebi que ele estava me seguindo. Me seguindo. Ostensivamente, para se assegurar de que eu ia chegar em casa bem,
como tinha feito na noite anterior.
Mas quem sabe se aquela era mesmo a sua motivao. Talvez ele tenha me acompanhado de carro para se assegurar de que o que ele tinha feito comigo realmente tinha
funcionado. Talvez ele apenas quisesse ter certeza de que a minha humilhao fosse completa.
Foi exatamente isso o que pareceu quando eu embiquei na minha casa e ele parou o carro em frente ao jardim e saiu do Jeep dizendo com uma voz impaciente:
-Katie, isso e estpido. Voce esta exagerando. Katie, espere...
Mas eu apenas joguei a bicicleta-em vez de lev-la para a garagem-e disse para ele me deixar em paz com uma voz que eu esperava que fosse dramtica o suficiente
para acordar a sra. Hall na casa vizinha. Com alguma sorte ela chamaria a policia. Ser preso era o mnimo que Tommy merecia.
Ento corri para dentro de casa.
Onde encontrei meus pais calmamente lendo e vendo televiso.
-Como foi o ensaio da Princesa Quahog?-perguntou minha me animada.
-Tudo bem.
Ser que Tommy ainda estava do lado de fora? Ou ser que j tinha ido? O que ele queria de mim, no fim das contas? Quer dizer, de verdade?
E onde ele aprendeu a beijar daquele jeito?
-Querida-disse minha me, curiosa-, voce esta bem?
Desviei o olhar da tela da televiso, para a qual eu estava olhando sem ver nada:
-O que? Sim, estou bem. Eu disse que estava bem.
-Voce nao parece bem-disse minha me.-Voce esta agitada. Ela nao parece agitada, Steve?
Meu pai me olhou:
-Ela parece agitada.
Ento ele olhou de volta para a TV, onde Tiger Woods estava recebendo um premio ou algo assim.
-Eu nao estou agitada-falei-, estou bem. S estou cansada. Eu vou para a cama. Tenho um dia longo amanha.
-Ns todos temos-disse minha me balanando a cabea. -Voce com o concurso, Liam com o teste para os Quahogs. E seu pai e eu temos trs casas para mostrar. Vai ser
um dia e tanto!
Ela nao tinha idia. Especialmente quando as noticias sobre com quem eu estava ficando no estacionamento do Gull'n Gulp se espalhassem.
Eu s esperava que o negcio dos meus pais nao sofresse. Quer dizer, o ramo imobilirio j estava fraco, mesmo em lugares que atraem turistas como Eastport. Se as
pessoas soubessem que a filha dos donos da Ellison Properties tinha sido vista em situao comprometedora com Tommy Sullivan, o trabalho deles poderia ficar ainda
mais difcil.
Dormir aquela noite foi impossvel, claro. A nica vez que eu realmente precisava dormir, para poder ficar com uma aparncia boa para o concurso. Mas eu simplesmente
nao conseguia me desligar. Fiquei l deitada a noite toda, sem conseguir parar de pensar no que tinha acontecido. Nao tanto sobre a hora em que vi o rosto da Sidney,
parecendo to surpresa por trs do volante. Mas sobre a parte em que eu beijei Tommy Sullivan.
E que gostei disso.
Eu realmente, realmente gostei daquilo.
Como uma coisa desse tipo era possvel? Quer dizer, Tommy era o cara contra quem eu sempre competi na escola para ser a melhor da turma... um cara que, por causa
daquela competio, acabou virando (meio que) um amigo. Nao um amigo sobre o qual eu tenha contado para os meus amigos verdadeiros (como a Sidney). Mas mesmo assim
um amigo.
Um amigo que eu horrivelmente, terrivelmente, tra.
E, tudo bem, ele acabou se tornando um gato.
Mas isso nao era desculpa para o fato de eu ter basicamente me jogado em cima dele.
E sim, eu sei que tinha duas pessoas naquele estacionamento. Mas vamos dizer a verdade, eu era a nica que estava flertando. Voce tem que tomar cuidado, Tommy. Eu
nao quero que eles machuquem voce, Tommy. E o carinho que eu fiz nos pelos do brao dele? Ah, meu Deus, eu tenho nojo de mim. O que ha de errado comigo?
S que nao foi totalmente minha culpa. Quer dizer, talvez tenha sido minha culpa que ns tivssemos comeado a nos beijar. Mas foi ele que me fez querer continuar
beijando. Ele nao tinha que me beijar to... satisfatoriamente. Quer dizer, ate o ponto onde eu nao conseguia mais parar de beij-lo. Isso foi s culpa dele. Nenhum
cara devia beijar uma garota daquela forma. Nao sem saber no que esta se metendo.
E aposto toda a grana que eu devo por minha Leica que ele nao sabia.
A nao ser que ele soubesse. A nao ser que a razo por que ele praticou aquele beijo foi que sabia. Nao com outra garota ou com o travesseiro, ou o que quer que seja,
mas na mente dele. Porque era isso que parecia. Que Tommy Sullivan tinha me beijado daquela forma antes, s que na sua imaginao.
Mas aquilo era loucura. Tommy Sullivan nao tinha passado os ltimos quatro anos desde a ultima vez que eu o vi apenas pensando em mim. Devo admitir que tenho uma
opinio muito boa sobre mim mesma, mas nao e assim to boa.
Nao, Tommy Sullivan era apenas um cara que beijava muito, muito bem.
E  uma boa coisa que a nica razo para ele estar interessado em mim e querer se vingar do que Ihe fiz no nono ano. Porque se ele gostasse mesmo de mim, eu estaria
enrascada. Quer dizer, ele e esperto, lindo, sabe que eu odeio quahogs e nao usa isso contra mim, e ele me segue quando vou de bicicleta para casa a noite para se
assegurar que eu chegue com segurana... poderia existir um cara mais perfeito?
Ah, meu Deus! Eu nao posso acreditar que eu pensei isso de Tommy Sullivan.
E o que foi todo aquele negcio de ele falar que eu tenho medo de terminar com Seth porque eu nao gosto de admitir que cometi um erro ? Ser que existe teoria mais
ridcula?
E nao gostar de mim mesma? Nao gostar de mim mesma? Eu me AMO! Estou concorrendo a Princesa Quahog, nao estou?
Obviamente, com coisas como essas na cabea, dormir foi impossvel. Bem, quase. Devo ter apagado em algum momento, porque quando eu abri meus olhos novamente, um
sol forte estava entrando pelas minhas janelas...
.. e Sidney van der Hoff estava de p ao lado da minha cama, se debruando sobre mim e dizendo:
-Katie. Katie. Acorde. Acorde.
Eu me levantei rpido, minha viso ficou turva e eu deitei de novo gemendo.
-Meu Deus-disse Sidney, se sentando na cama ao meu lado-, qual e o problema com voce? Voce esta parecendo uma caarola de quahog que
esquentaram no microondas. Isso e creme para espinha no seu rosto ou... ah, e pasta de dente. Meu Deus! Que tal um banho?
-Sidney-falei, querendo muito colocar um travesseiro sobre a cabea.
Mas eu nao podia. Porque fazer isso nao a faria ir embora. Ou mudaria o que ia acontecer.
-Sobre ontem a noite. O que voc viu...
-E, realmente-disse Sidney.
Ela estava de cabelo liso com uma faixa branca. E estava vestindo uma camisa branca de botes e jeans com lantejoulas rosas costuradas nos bolsos. No ombro tinha
uma bolsa Marc Jacobs rosa, e nos ps, chinelos cor-de-rosa. Como isso, para Sidney, era um traje extremamente casual, fiquei imaginando onde ela estava indo. Ou
ser que esse era o traje que ela escolheu para dar um p na bunda de sua melhor amiga?
-Eu liguei para voce umas cinqenta milhes de vezes. Voce nao recebeu nenhuma das minhas mensagens?
-Eu desliguei meu telefone-disse de mau humor. -Quem deixou voce entrar?
-Liam-disse Sidney olhando as prprias cutculas-, quando estava saindo para o teste dos Quahogs. Eu nunca vi ningum to animado. Ento. Voc vai me contar o que
aconteceu ontem a noite, ou eu tenho que tirar essa informao a forca?
-Sidney-falei.
Como eu ia mentir para me livrar daquela? Eu realmente nao achava que houvesse uma forma de fazer aquilo funcionar sem sair parecendo a garota que traiu o namorado
com seu inimigo mortal.
Se desse para chamar beijar de trair, o que, tecnicamente estou comeando a ter certeza absoluta de que . De alguma forma.
Mas antes que eu pudesse falar alguma coisa, Sidney continuou:
-Eu s passei no Gulp ontem a noite porque Dave estava na casa da av dele ai imaginei que voce ia estar l com Seth na picape dele. Queria ver se vocs topavam
comer algo no DQ. No pensei que fosse achar voce dando uns pegas em outro cara.
Eu nao consegui me segurar. Peguei um travesseiro e botei sobre a cabea. Era esse o tamanho da minha vergonha.
Embora nao tenha certeza de que vergonha seja a palavra correta para aquilo. Porque quando a Sidney usou a expresso dar uns pegas, a lembrana dos labios de Tommy
contra os meus voltaram a minha mente, e como eram boas essas lembranas. Eu podia sentir que estava comeando a corar. Nao porque estivesse com vergonha por ela
ter nos visto, mas por causa do quanto eu tinha realmente, realmente gostado daquilo.
-Desculpe-falei de trs do travesseiro-, eu nao sei o que aconteceu comigo! Era como se eu nao pudesse fazer nada! Ele e simplesmente to... Iindo! Quer dizer, foi
voce que deu o alerta de gato quando ele passou!
Para minha surpresa, Sidney nem tentou negar isso. O que me deixou atnita, por causa da forma como ela se preocupa com sua reputao nas ruas, mesmo que as nicas
ruas onde ela se aventure sejam as de Eastport... e a quinta avenida em Nova York, claro, mas s entre a 5th (Bendel's) e a 50th (Saks).
-Eu censurei voce?-Sidney quis saber.-Nao. Eu entendo perfeitamente. Mas o que voce vai fazer a respeito do Seth? Ele vai descobrir. Quer dizer, essa e uma cidade
pequena.
Eu nao tinha certeza se tinha ouvido corretamente, ento tirei o travesseiro do rosto.
-Espere-disse eu.-Voce disse que entende?
-E claro que eu entendo-disse Sidney fungando-, aquele e um belo exemplo do homem americano moderno. Como voce poderia ter resistido? Eu nao teria conseguido resistir,
no seu lugar.
Meu corao se aqueceu. De repente, senti que gostava mais da Sidney do que nunca em todos os nossos anos de amizade. E verdade que ela tem mania de julgar as pessoas,
e muito superficial e uma grande fofoqueira.
Mas ela tambm pode ser a mais legal das amigas. Como na vez em que eu entrei num concurso de fotografias da Parade Magazine e nao ganhei, e ela me levou na Serendipity
na cidade e dividiu um frozen de chocolate quente comigo, e em nenhum momento apontou-como outras pessoas poderiam ter feito-que talvez o motivo de eu nao ter ganho
fosse nao gostar de mim mesma ou nao me entender. Nem disse em nenhum momento a quantidade de calorias que estvamos ingerindo.
E agora isso.
-Ah, Deus-falei, alivio passando pelo meu corpo como 4gua gelada depois de andar de bicicleta em um dia quente. -Sidney, voce nao tem idia Nao posso te dizer como
eu estava preocupada. Fiquei acordada a noite toda enlouquecendo, pensando no que voce ia dizer...
-Esta brincando?-disse Sidney, chocada. -Por que eu ia me preocupar com quem voce beija no seu tempo livre? Para dizer a verdade, eu estou um pouco aliviada. Quer
dizer, e bom saber que voce e um ser humano de verdade para variar.
Eu olhei para ela.
-Do que voce esta falando?
-Bem, algumas vezes parece que voc e perfeita ou algo assim.
Agora eu estava olhando de cara feia para ela:
-O que?
-Bem, e verdade. Quer dizer, voc e boa demais em tudo... na escola, essa coisa de fotografia. Todos gostam de voce... mesmo os pais. Voce nao bebe, nao fuma. Voce
nem mesmo transa. E apesar disso, Seth nao deu um fora em voce ainda.
Eu j estava gostando um pouco menos dela.
-Caramba-disse eu.-Obrigada Sidney.
Ela encolheu os ombros.
-Enfim. Eu estou apenas dizendo o que vejo. A nao ser por essa coisa de ficar enjoada com movimento, voc e a Pequena Miss Perfeita. Apesar disso, voce sabe,  melhor
nao deixar Seth saber sobre o sr. Acampamento, ou ele vai desfigurar a cara do rapaz. E isso seria um desperdcio. Agora, vamos, levante. Temos hora para fazer o
cabelo e as unhas no Spa-by-the-Sea, lembra?
Mas em vez de me levantar, eu apenas fiquei olhando para ela.
-Senhor... voce chamou ele de que?
-O que?-disse Sidney, que tinha levantado da minha cama e estava olhando para o seu reflexo no espelho da minha penteadeira. -Sr. Acampamento? Nao foi assim que
voce o conheceu? Voc disse que ele era um cara que seu irmo conhecia do acampamento. Ah, m e u D e us, isso e um cravo? Ah, nao, s uma mancha de rmel. Graas
a Deus. Vamos logo, Katie.
Quinze
Ela no sabia. Eu no podia acreditar naquilo. Mas ela realmente no sabia.
Bem, por que ela saberia? Ela tinha me visto beijando um cara no estacionamento do Gull'n Gulp, que eu Ihe dissera que tinha ido para o acampamento com meu irmo.
E claro que ela no sabia que aquele cara era Tommy Sullivan.
Porque, da ultima vez que ela viu Tommy Sullivan, ele era trinta centmetros mais baixo e... bem, nada gato. E porque eu tinha mentido para ela sobre a identidade
verdadeira dele na praia no outro dia.
Mais uma vez, fui pega na teia das minhas prprias mentiras.
Mas isso no significava que eu ia dar todas as informaes sobre ele para Sidney. Quer dizer, eu no sou idiota. Se ela acreditou que o cara que tinha visto comigo
era apenas um cara qualquer que ns tnhamos visto na praia, quem era eu para faz-la pensar outra coisa? Para mim estava tudo bem.
E, certo, eu sabia que em algum momento ela ia acabar descobrindo. Se Tommy no estivesse mentindo sobre se matricular na Eastport High, Sidney ia com certeza perceber
quem ele realmente era quando as aulas comeassem.
E, sim, ela ia ficar irada comigo por engan-la.
Mas talvez eu pudesse me livrar disso de alguma forma. Talvez eu pudesse dizer:
-Ah, espere, aquele cara? Ah, sim. Aquele e Tommy Sullivan. Eu pensei que voce tivesse falado do outro cara...
E. Tudo bem. Provavelmente no. Eu estava ferrada.
Mas, ate Sidney perceber, eu ia apenas deixar as coisas como estavam. Porque eu tinha muito mais com que me preocupar alem do fato de que minha melhor amiga achava
que eu ia ficar beijando um cara que eu mal conhecia em cima do capo do carro dele em um estacionamento.
Como, por exemplo, o que eu ia fazer em relao a Tommy.
Porque no tinha como eu deixa-lo se sair bem daquilo. Ele no podia simplesmente voltar para a minha vida e destru-la por causa de algo que fiz a ele quatro anos
atrs, quando ns dois ramos ainda basicamente crianas e no podamos, tecnicamente, ser considerados responsveis por nossos atos. No. De jeito nenhum. No vou
deixar isso acontecer.
Mas como eu vou impedi-lo?
Era isso que eu estava perguntando a mim mesma enquanto eu e Sidney nos embelezvamos no Spa-by-the Sea. A sra. van der Hoff tinha nos dado cupons para fazer uma
massagem de corpo inteiro, bronzeamento artificial, limpeza de pele, manicure, pedicure, maquiagem e cabeleireiro antes do concurso. Isso foi muito legal da parte
dela.
Teria sido ainda mais legal se ela no tivesse insistido em ir junto para comentar tudo que ns fazamos.
-Voce tem certeza de que quer uma francesinha, Sid? Voce sabe como pode ficar brega se a linha no for bem fina.
Ou:
-Voce realmente acha que deve usar seu cabelo solto, Katie? Ficaria to bonito com apenas algumas mechas caindo aqui e tal.
Ainda assim, era legal ela se interessar. No que minha prpria me no se interesse. Ela e apenas muito ocupada com o trabalho, algo com que a me da Sidney, que
no trabalha, no tem com que se preocupar.
E eu tenho que admitir que a presena dela impediu que a Sidney me fizesse perguntas desconfortveis, como:
-Ento, qual e o nome do cara do estacionamento?
-Quando voce vai v-lo de novo?
-O sr. Gostoso sabe que voce tem um namorado? Que e do time de futebol americano? E no e qualquer time de futebol americano, mas os Quahogs?
No foi por que a Sidney iria deixar de me botar em situaes constrangedoras na frente da me dela. Ela simplesmente no conseguia falar. O nico momento em que
a me da Sidney parou de falar foi quando eu estava de baixo do secador de cabelo-e foi s porque eu no conseguia ouvi-la com todo aquele ar quente soprando em
volta de mim Usei a oportunidade para decidir o que ia fazer sobre Tommy. Que foi... evita-lo. Eu tinha que fazer isso. No havia outra escolha. Era bvio que eu
no podia encontr-lo e no me jogar em cima dele.
E agora que eu realmente tinha provado o nctar doce que e o beijo de Tommy Sullivan (brega... mas e verdade), sabia que ia ser ainda mais difcil resistir.
Mas eu ia ter que me segurar (hum, e segurar minhas roupas) e resistir. Porque eu tinha muita coisa em jogo.
Ento eu ia fazer tudo que pudesse para no encontra-lo. Se ele ligasse para o meu celular, eu no atenderia (graas a Deus nunca dei meu numero para ele, alias).
Se ele ligasse para minha casa, eu diria para quem quer que tivesse atendido ao telefone para dizer que eu estava no banho. Se o visse na rua, viraria e iria na
direo oposta. Se encontrasse com ele no Gull' n Gulp , faria Shaniqua atender sua mesa. Se encontrasse com ele em qualquer outro lugar, ia me esconder ou sair.
Eu no tinha certeza sobre o que eu faria se ele acabasse em alguma das minhas aulas na escola. Ignora-lo completamente, eu acho.
E talvez... apenas talvez... se eu fizesse tudo aquilo, e ningum espalhasse que fui vista ficando com ele (por que a Sidney ia acabar juntando as pecas algum dia-ela
no e to idiota), eu podia simplesmente negar. Podia dizer que a Sidney inalou muitos vapores do removedor de esmalte e viu coisas.
Poderia funcionar. Eu posso ser uma mentirosa. Mas no necessariamente estou pegando fogo.
Ficar pronta para o concurso leva muito tempo. Cheguei em casa apenas no fim da tarde-uma hora antes de quando deveria chegar no Eastport Park-, na mesma hora que
meu irmo chegou do teste dos Quahogs. Enquanto eu entrava em casa-o cabelo preso (a sra. van der Hoff venceu), o bronzeado perfeito, as unhas dos ps e das mos
pintadas profissionalmente de rosa claro, a maquiagem aplicada de maneira imaculada-Liam estava contando para meu pai e minha me, que tinham chegado do escritrio
e estavam sentados a mesa da cozinha escutando com muita ateno:
-Ento o treinador Hayes nos mandou fazer uma corrida e eu fiz em 32 segundos, e depois ele nos mandou pedalar 40 metros e meu tempo foi 5,9 segundos, e ento tivemos
que correr um quilometro e meio, e eu no sei qual foi meu tempo nessa, mas deve ter sido bom, porque...
Foi ai que todo mundo finalmente notou que eu tinha entrado no recinto, e eles se viraram para mim com grandes sorrisos no rosto. Eu sabia que os sorrisos no eram
porque eu estava muito bonita. Eu nem estava com meu vestido do concurso. Ainda.
-Bem, oi, querida-disse minha me.
-Katie, Katie, adivinha?-disse Liam, que mal conseguia conter a empolgao.
-Hum...-falei, fingindo no fazer idia do que ele ia dizer-acharam petroleo na escola e ns no vamos ter que ir na segunda-feira?
-No! - disse Liam-, eu entrei para o time! Eu sou um Quahog!
Dei um gritinho educado para mostrar como eu estava animada por ele, e ento ns dois ficamos pulando na cozinha (com o cuidado de no pular muito entusiasmada e
meu penteado acabar caindo), enquanto meu pai e minha me nos olhavam.
-Isso pede uma comemorao!-declarou meu pai. -Ns todos vamos ao Pizza Hut!
Minha me deu um soco nele.
-Steve! Voce sabe que no podemos! Katie tem o concurso de Princesa Quahog hoje  noite!
-Eu sei-disse ele, rindo-, estava brincando. Mas ns podemos ir mesmo assim, depois. Para uma celebrao dupla, quando ela ganhar.
-Eu no vou ganhar-falei.
Ao mesmo tempo minha me disse:
-Por que ns iramos no Pizza Hut quando esta tendo o Sabor de Eastport no parque hoje a noite?
Enquanto isso, Liam estava dizendo:
-Uau, Katie, se voce ganhar hoje  noite, ento nos dois seremos Quahogs.
-E-disse eu, tentando no pensar em como quahogs me deixam enjoada-, timo.
-Voce deveria ter escutado o discurso do treinador Hayes, voce sabe, para os novos jogadores, depois que todos os perdedores foram para casa...
-Ei-disse eu j no mais rindo-, eles no so perdedores s porque no entraram no time. Eles s no entraram no time.
-Hum, bem-disse Liam de forma sarcstica-, essa e exatamente a definio de perdedor. Ento o treinador Hayes disse que hoje era o primeiro dia das nossas novas
vidas... no como cidados comuns de Eastport. Mas como Quahogs. Como Quahog, voce vai descobrir que novas portas esto abertas para vocs... portas que nunca estiveram
abertas para os pregos...
-Pregos?-falei, levantando as sobrancelhas. -Ele chamou as pessoas que no so Quahogs de pregos?
No sei por que eu me senti to insultada. Eu nem sei o que significa ser um prego.
-Posso terminar?-perguntou Liam. -Ento ele falou que como Quahogs tnhamos uma tradio a manter. Uma tradio de grandiosidade. Vai ter gente por al que vai tentar
nos derrubar, s porque tem inveja da nossa grandiosidade...
-Espere um minuto-interrompi olhando para meus pais-, vocs esto ouvindo isso?
-Os Quahogs so o melhor time do estado-disse minha me-, talvez ate do pais.
-Sim, mas inveja da nossa grandiosidade?-falei, balanando a cabea- um pouco demais.
-Viram?-disse Liam olhando para mim. -O treinador Hayes estava certo. Voce ja esta com inveja da minha grandiosidade e eu sou um Quahog ha apenas uma hora.
-No estou com inveja-informei a ele. -E voce no e grandioso. E se disser isso de novo, eu vou Ihe mostrar simplesmente o quo no grandioso voce .
Liam deu um nico passo na minha direo, me forando a levantar o queixo para poder olh-lo nos olhos.
-Ah, e?-perguntou olhando para mim. -Voce e mais quantos?
E to estranho como ele cresceu em um espao de tempo to curto. A essa altura no ano passado, eu seria capaz de levant-lo facilmente e arremessa-lo na piscina
do Iate Clube. No para machuc-lo. Apenas para mostrar quem mandava.
Eu no conseguia deixar de pensar em quem mandava agora. Ainda tinha que ser eu. Quer dizer, sou a mais velha.
-Haha-disse eu com sarcasmo-, isso e to original. O treinador Hayes obviamente no o escolheu pela sua inteligncia.
-Ei, vocs dois-disse meu pai calmamente.
Ele ja tinha saldo da cozinha para a sala de estar, tinha pego o controle remoto e estava mudando os canais, tentando achar o campeonato de golfe.
-O treinador Hayes nos alertou sobre pessoas como voce-disse Liam em tom condescendente.-Ele disse que os elitistas da sociedade iam tentar fazer parecer que, s
porque ns temos um dom atltico, somos incapazes intelectualmente.
Eu cai na gargalhada.
-Ah, meu Deus-disse eu.
-Katie-disse minha me de longe, enquanto checava as mensagens na secret4ria eletrnica, a maioria das quais parecia ser das Tiffanys e das Brittanys pedindo para
Liam ligar de volta-, pare de pegar no p do seu irmo.
-Mas e como se ele estivesse em um culto, ou algo assim-disse eu.-Quer dizer, elitistas da sociedade? Quem devem ser essas pessoas? As pessoas dessa cidade que no
acham que s porque voce  um Quahog deveria ter um tratamento especial? Quer dizer, alem da mesa de canto do Gull'n Gulp?
-Eu sei exatamente do que voce esta falando, Katie -disse Liam, estreitando os olhos na minha direo.- Ou eu devia dizer de quem voce esta falando. E o treinador
Hayes tinha algo para falar sobre ele tambm.
-Ele quem?-perguntei, embora soubesse perfeitamente bem.
-Tommy Sullivan-Liam me disse, com uma voz grossa.
Desde que a voz de Liam mudou, ele gosta de faz-la parecer mais grave do que realmente e. Nas poucas ocasies em que esta em casa para atender ao telefone quando
umas das Tiffanys ou Brittanys liga, ele fala com uma voz ainda mais grave, dizendo um al em um tom to baixo, que parece James Earl Jones, o cara que dublava o
Darth Vader.
-O treinador Hayes disse que algumas pessoas em Eastport teriam tanta inveja de nossa grandiosidade que iriam ate inventar mentiras sobre ns...
Achei que minha cabea ia explodir.
-Tommy Sullivan pode ser um monte de coisas- gritei para meu irmao-, mas ele no  um mentiroso!
Ao contrario de mim.
-Ah, claro!-respondeu Liam com desgosto. -Cai na real, Katie. Tommy Sullivan s estava com inveja porque ele sabia que nunca seria um Quahog, ento...
-Ah, meu Deus-explodi-, voce andou bebendo como todos os outros!
-Eu bebi Gatorade-gritou Liam de volta-, no foi bebida alcolica! Eu no sei do que voce esta falando.
Eu o ignorei. Era hora de procurar ajuda de uma forca maior. Ou duas.
-Me, pai. Liam bebeu.
-Pare de falar isso-gritou Liam.
-Katie-disse minha me apertando o boto de pause na secretaria eletrnica e parando uma Brittany no meio de um risinho-, por favor. No seja to dramtica. E Liam,
pare de gritar. No consigo ouvir nossas mensagens.
-E eu no consigo ouvir a TV-disse meu pai, aumentando o volume do campeonato de golfe.
-Me-falei tentando muito no ser dramtica-, voce poderia dizer ao Liam que Tommy Sullivan no inventou a histria sobre Jake Turner e os outros caras terem colado
na prova?
-Sim, ele inventou!-gritou Liam. -O treinador Hayes nos contou sobre isso! Ele disse que a imprensa esta cheia de membros da inteligncia que no param por nada
para fazer os Quahogs parecerem idiotas, porque tem inveja da capacidade atltica deles...
-O treinador Hayes obviamente no viu Tommy Sullivan ultimamente-, murmurei.
-...e que o ano em que os Quahogs tiveram que desistir do campeonato estadual vai ser para sempre uma mancha negra na histria de Eastport por causa de um ato invejoso
de uma pessoa...
-Isso e ridculo!-gritei, sabendo que estava sendo dramtica novamente, mas sem conseguir me segurar. -Tommy no escreveu aquela histria porque estava com inveja!
Ele escreveu porque no era justo que os Quahogs recebessem tratamento especial do inspetor de prova! Quer dizer, eles so apenas um monte de jogadores de futebol!
Por que deveriam poder colar nas provas se ningum mais pode?
-Eu disse a voce-disse Liam com raiva-, eles no colaram! Isso foi uma conspirao! O treinador Hayes nos contou. E essa no e uma forma legal de a namorada do artilheiro
desse ano falar. Imagino como Seth ia se sentir se soubesse que voce acha que o irmo dele e desonesto.
-Ah, vai se catar-disse a ele.
Foi nesse exato momento que a voz de Tommy Sullivan encheu a cozinha. A principio eu no sabia de onde estava vindo. Achei que ele estivesse realmente ali, na cozinha,
conosco.
Ento percebi que era uma mensagem que ele tinha deixado na secretaria eletrnica, que minha me estava escutando.
-Oi, Katie-disse Tommy, sua voz grave num tom solene-, sou eu, Tom. Tom Sullivan. Olha, sobre ontem  noite, eu ainda no entendi exatamente o que aconteceu. Hum...
olha, apenas ligue para mim, pode ser...
Ento ele passou seu numero do celular e disse:
-Ns precisamos conversar.
Depois desligou.
E eu percebi que o olhar de todos os membros da famlia estava voltado para mim. Bem, menos meu pai, que ainda estava assistindo ao campeonato de golfe.
Liam foi o primeiro a falar.
-Tommy Sullivan?
Ele estava transtornado. Estava completamente transtornado.
-Voce e Tommy Sullivan? Ah, meu Deus! Ua-ha-ha!
Foi ai que eu fui atrs dele.
Consegui pegar uma quantidade considervel dos cabelos da perna dele e estava puxando sem misericrdia - Liam gritando como uma menininha, de tanta dor - quando
de repente meu pai me segurou pela cintura por tras e me levantou no ar.
-O penteado!-gritei.-Cuidado com o penteado!
-Ja chega!-rugiu meu pai, ao me colocar no cho do outro lado da cozinha para que Liam e eu ficssemos distantes um do outro.-Eu j cansei de vocs dois brigando!
Estou tentando assistir ao meu GOLFE!
-Foi ela que comeou-disse Liam emburrado, esfregando a perna.
-Voce que comeou!-gritei com ele-Foi voce que falou para Tommy Sullivan onde eu trabalho! Se tivesse mantido essa sua boca imensa fechada sobre minha vida particular...
-Chega-disse minha me com sua cara de mais-uma-palavra-e-voces-vao-ficar-de-castigo.-Liam, Katie. Vo para seus quartos.
-Eu no posso ir para o meu quarto-declarei-, tenho meu concurso de Princesa Quahog em...-disse olhando para o relgio. - timo. Meia hora. Agora eu vou me atrasar.
Olhei para Liam
-Muito obrigada,
-Por que se preocupar em ir?- - retrucou Liam- Voce nao vai vencer. Nao quando todo mundo descobrir com quem voce estava ontem a noite...
-CALA A BOCA!-gritei.
E sai de casa batendo a porta.
Dezesseis
No sei como meus pais podiam agir to naturalmente com isso tudo. Quer dizer, essa coisa de o meu irmo virar um deles.
Embora, agora que eu parei para pensar nisso-tinha sido exatamente o que Tommy me acusou de fazer. No e? Quer dizer, ele no se mostrou surpreso com o fato de eu
ter sido assimilada to bem?
E eu disse a ele que estava errado, que no existia essa coisa de ns contra eles.
Mas de acordo com o que Liam diz, o treinador Hayes obviamente acha que existe. E se o treinador Hayes acha isso...
Ah, Deus, o que ha de errado comigo? Deixei Tommy Sullivan entrar na minha cabea! J e bastante ruim o fato de ele parecer que esta ocupando permanentemente o meu
corao (se esse e o local correto para algum que voce no consegue parar de pensar em beijar, e no algum lugar mais para o sul). Agora ele esta no meu subconsciente
tambm!
Foi com pensamentos sombrios como esse que eu cheguei na tenda do concurso. No foi to fcil chegar l como tinha sido na vspera, porque o parque estava aberto
para o publico desta vez, e o lugar estava lotado de moradores e turistas, aproveitando o Sabor de Eastport. Todos os restaurantes da cidade (menos as cadeias de
lojas) tinham barracas montadas. Tive que descer da bicicleta e empurra-la, na entrada do parque, porque tinha muita gente em volta para eu seguir pedalando.
Espiei Shaniqua e Jill trabalhando na barraca do Gull'n Gulp e acenei para elas enquanto passava carregando minha bicicleta. Elas acenaram de volta e fizeram Boa
Sorte! com a boca, mas no tinham tempo para bater papo. A fila para os bolinhos de quahog tinha mais ou menos um quilmetro, e Peggy estava de olho vivo nos empregados,
para se assegurar de que eles no dessem aos clientes mais do que o bolinho (e a poro de molho) a que o tquete dava direito.
Passei com minha bicicleta em *ente ao palco do concurso e vi que algumas pessoas j tinham tomado seus lugares nas cadeiras dobrveis que ficavam a frente dele.
Uma dessas pessoas era o sr. Gatch, da Gazette. Ele estava fumando um charuto e jogando pacincia em um daqueles joguinhos eletrnicos que voce compra em qualquer
camelo. Ento eu sabia que no era a melhor idia ir ate l e perguntar novamente a ele o que Tommy Sullivan estava fazendo no seu escritrio.
Em vez disso, levei minha bicicleta ate os fundos da tenda-camarim que ficava atrs do palco e a prendi a uma pequena arvore. Eu sabia que os funcion4rios do Departamento
de Parques no iam gostar daquilo, mas no tinha nenhum bicicletario e todos os bancos do parque estavam ocupados por turistas saboreando seus bolinhos de quahog.
Com minha bicicleta segura, peguei a bolsa de roupas e entrei na tenda-camarim.
L dentro, encontrei o caos. A sra. Hayes estava gritando com os tcnicos de som porque aparentemente os microfones de mo no estavam funcionando e ns amos ter
que usar aqueles de prender na roupa, que no iam funcionar porque no tinha nenhum lugar perto o suficiente da boca de Sidney para prender o microfone, graas ao
profundo decote do vestido dela. Sidney estava gritando com Dave, que aparentemente tinha encomendado a cor errada do smoking no Eastport Formal Wear e o azul-claro
do seu palet no ia combinar com o vermelho do vestido dela. Morgan estava surtando porque tinha esquecido sua resina e ia quebrar o pescoo no palco se suas sapatilhas
de ponta no aderissem bem ao cho.
E Jenna. Bem, algo tinha acontecido com Jenna. Eu nem mesmo a reconheci de primeira. Seus piercings tinham sumido, assim como as mechas roxas no cabelo preto...
que agora era de um belo castanho avermelhado e estava preso num lindo penteado, com grampinhos. Ela estava usando um vestido de renda de cintura fina da Bebe (a
Sidney tinha um exatamente igual, mas para usar no dia-a-dia, no para usar num concurso) que acentuava seus membros longos e plidos, e nos ps estavam um par de
sapatos de saltos to chocantemente altos que afundavam na terra e na grama sob a cadeira em que ela estava sentada. No rosto, uma expresso no muito diferente
de um refm que acabou de ser liberado depois de dias no cativeiro-ela parecia area.
Eu no me contive: fui ate ela e disse:
-Jenna? O que aconteceu?
Jenna piscou para mim.
-Ah-disse ela. -Oi, Katie. E. Transformao surpresa.
Chocada, eu me sentei em uma cadeira de dobrar que estava perto.
-Sua me?
-No-disse ela balanando a cabea.-Meus amigos. Eles acham que se eu ganhar vou estar em posio de promover a plataforma social deles.
-Correr pelas ruas pelado coberto de gelatina verde?
-No-disse Jenna.-Liberar os quahogs. Eles querem que todos os quahogs possam viver livremente, sem medo de que algum cave a areia para pega-los e come-los.
Eu disse:
-Jenna. Quahogs so mariscos. Eles no so capazes de sentir medo.
Jenna encolheu os ombros.
-Eu sei. Mas eu no queria chate-los. E, que se dane. Quero meu carro de volta. Ento talvez dessa forma eu consiga uma boa colocao, no fim das contas.
Eu achava que ainda era muito difcil, dado o seu talento. (O discurso dela inclui a fala: Eu VI o futuro. Voce sabe o que e isso? E um virgem de 47 anos sentado
com seu pijama bege bebendo uma vitamina de banana e brcolis cantando "I'm an Oscar Mayer Wiener". Os juzes do concurso no gostam quando voc fala a palavra com
V no discurso.)
-Uau-disse eu em vez disso-, quer dizer que voc achou um acompanhante?
Jenna revirou os olhos:
-Sim, meu pai.
Ainda assim, fiquei firme e pus a mo no ombro nu de Jenna para mostrar minha solidariedade a sua causa:
-Fora, Jenna-disse eu. -Forca.
Ento andei para onde Sidney estava brigando com Dave bem quando ele tirou o palet azul-claro e jogou no cho.
-Voce quer que eu acompanhe voc sem camisa?- perguntou, pego em um raro (para ele) momento de descontrole. -timo! Vou acompanh-la sem camisa.
Ele saiu batendo o p.
Peguei o palet do cho e limpei os pedaos de grama que estavam presos a ele.
-Ele no pode acompanh-la sem camisa-falei-,  contra as regras. Acompanhantes devem estar em traje formal.
-Eu sei-disse Sidney-, mas olhe para aquela coisa.  horrvel!
-Talvez ele pudesse usar aquilo, voce sabe, de forma irnica-disse eu-, com um bolinho de quahog como abotoadura.
-Obrigada-disse Sidney com sarcasmo-, mas no esta ajudando.
Senti um par de mos na minha cintura. Quando me virei, encontrei Seth, que estava lindo em seu smoking- o dele era preto, graas a Deus-sorrindo para mim.
-Ei, gata-disse ele se inclinando para me beijar-, voce esta...
-No-disse eu rapidamente, esticando o brao para segurar o rosto dele antes que seus lbios tocassem os meus-, voce vai estragar minha maquiagem.
S que eu sabia perfeitamente que no era com a minha maquiagem que eu estava preocupada. No queria que Seth me beijasse porque...
..eu simplesmente no queria que Seth me beijasse.
Eu sei. Era loucura. Mas naquele momento, a idia de meu namorado me beijando na verdade me fazia me sentir um pouco, bem...
Enjoada.
Serio! Eu sei que isso e algo horrvel para se dizer sobre um garoto. Especialmente um garoto com quem voce esta saindo exclusivamente. Bem, quase exclusivamente.
-Desculpe-disse Seth, sobre estragar minha maquiagem-, e que voce esta to linda.
Meu corao murchou. Ele era simplesmente to... fofo. Como eu podia t-lo tratado da forma como vinha tratando ultimamente? Como?
Embora a verdade seja que, apesar de Seth sempre falar de como eu estou bonita, ele nunca me elogia por coisas que realmente interessam. Por exemplo, ele nunca olhou
para minhas fotos e falou:
-"Voce entende as pessoas... s no entende voce mesma."
Ele nunca olhou para minhas fotos e disse algo que no fosse:
"Legal. Vamos dar uns amassos."
Mas, voc sabe, eu nunca liguei muito para isso. Ate bem recentemente.
Ah, Deus. O que esta acontecendo comigo?
-Veja, esse era o smoking que o Dave deveria ter encomendado-gritou Sidney, segurando a manga do palet do Seth.-Ah, meu Deus, seu namorado esta to bonito! O que
ha de errado com meu namorado, que ele tem o pior gosto em toda a regio? Seth, vocs foram a loja juntos. Por que no tentou impedi-lo?
Seth parecia confuso... meio como um filhote de cachorro com quem algum estava brigando por fazer xixi no cho.
-Ele achou que preto seria muito quente-disse-, e estava certo. Eu estou cozinhando aqui dentro.
-E da?-gritou Sidney alto o suficiente para Dave, que estava perto do isopor que a sra. Hayes tinha trazido e enchido com Cocas diet e garrafas de gua mineral,
ouvir.-Algumas vezes voce tem que sofrer pela beleza! Como voce acha que eu me sinto quando depilam minhas pernas com cera? Voce acha que  gostoso? Bem, no .
Mas eu fao assim mesmo para ficar bonita para meu namorado. Porque eu o amo.
Eu no tinha nenhum comentrio para fazer sobre aquilo. Eu nunca depilo minhas pernas com cera por causa do potencial para uma infeco por bactrias, mesmo num
salo limpo Uso minha gilete confivel e segura em vez disso.
Mas Dave tinha um comentrio. Ele falou, jogando longe a garrafa de gua que tinha acabado de pegar:
-Quer saber, Sidney? Se voce tem algo para me dizer, por que no vem ate aqui e fala na minha cara, ao invs de gritar para todo mundo na cidade ouvir?
E isso fez com que Sidney falasse:
-Tudo bem, eu vou.
E ela foi batendo o pe at ele.
Seth, tendo presenciado tudo com uma expresso de quem no esta entendendo nada, olhou para mim e disse:
-Uau! Eu imagino que ela deva estar realmente nervosa por causa do concurso, no?
-Acho que sim-disse eu.
Eu estava um pouco chateada com a coisa do filhote. Quer dizer, quando olhava para o rosto do meu namorado, eu me lembrava de um filhote de cachorro. Que tinha acabado
de fazer xixi. Isso no e o tipo de coisa que voce deve pensar quando olha para seu namorado. O que havia de errado comigo? Quer dizer, obviamente Seth e eu no
ramos o casal mais perfeito do mundo, considerando que eu ficava beijando outras pessoas (bem, certo, uma outra pessoa... de cada vez) sem ele saber.
 Mas eu nunca pensei nele como um filhote antes. Voce sabe, bonitinho e fofo e acima de tudo... bem, meio bobo.
-Katie-disse Seth-, esta tudo bem? Quer dizer, entre voce e eu?
Ah, meu Deus! Era como se ele tivesse lido meu pensamento! Como ele tinha feito aquilo? Filhotes no deveriam ser capazes de fazer aquilo...
-Entre ns?-perguntei me virando para a direo contraria de Sidney e Dave, que agora estavam discutindo do outro lado da tenda enquanto Morgan reclamava sobre sua
resina e Jenna continuava sentada parecendo ter tanto na cabea quanto Katie Holmes.-O que voce quer dizer?
S que  claro que eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Apenas no tinha suspeitado que ele tivesse notado.
-Bem,  que parece que nos ltimos dias eu mal vi voce-disse Seth.-Sei que voce andou doente e tudo mais, mas...
-Doente?-eu disse para ele confusa.
-Voc sabe-disse Seth-, aquela coisa do e. coli.
Santo quahog! No acredito que me esqueci disso. Preciso seriamente comear a tomar mais cuidado com minhas mentiras. Talvez eu precise fazer um grfico no Power
Point pode ajudar.
-Claro-disse eu.-Bem sim, teve aquilo... e voce sabe o concurso, e eu tenho tentado trabalhar o mximo que posso antes de as aulas comearem novamente...
-Sim-disse Seth - eu entendo tudo isso. E s que... isso vai parecer meio estranho, mas  quase como se... eu no sei. Como se voce no gostasse mais tanto de mim,
ou algo assim.
-Ah, Seth-disse eu, a culpa partindo meu corao ao meio.
Como eu podia? Como eu podia ter sido to horrvel com ele? Ele  um cara to bom. Todo mundo diz isso.
Todo mundo menos Tommy. Para quem Seth quer fazer uma festa do cobertor.
Tirei esse pensamento da cabea.
-Eu no sei do que voce esta falando-menti-, e claro que ainda gosto de voce!
Serio. Eu preciso de um grfico. Porque as mentiras esto s formando uma pilha maior a cada minuto.
-Ah-disse Seth parecendo aliviado-, que bom, legal.
Ento ele se abaixou para me beijar novamente.
E eu disse, me esquivando:
-Oops, e sabe o que mais? Eu s preciso... s preciso dar um pulo l fora um minuto. Acho que deixei uma coisa na cesta da minha bicicleta. No v embora. Eu j
volto certo?
Seth parecia confuso novamente... e mais parecido com um filhote do que nunca.
-Hum-disse ele-, tudo bem.
Eu sorri e corri para a porta da tenda... exatamente quando Eric Fluteley a estava abrindo para entrar, bonito como eu nunca o tinha visto, de smoking preto com
botes dourados. Eu me preparei, pensando que ele fosse perceber que eu estava saindo e tentar me seguir ate l fora para me beijar um pouco.
Mas ele mal pareceu me notar. Em vez disso, gritou para Morgan:
-Era isso que voce estava procurando?
E levantou um pedao de pedra cor de mbar.
Morgan, que estava chorando (embora, por sorte, ela parecesse ter usado rmel a prova d'gua), olhou para ele. Quando viu o que Eric estava segurando, soltou um
sorriso radiante.
-Ah, Eric-gritou ela-, obrigada!
E Eric enrubesceu.
Sim. Eric Fluteley enrubesceu.
-Com licena, Katie-disse ele quando me viu ali, perto da porta da tenda.
Ele abriu caminho educadamente segurando a porta para eu sair... mas seus olhos, eu no consegui deixar de perceber, ainda estavam fixos nos de Morgan.
E isso era bom. Quer dizer, era o que eu queria. Que Eric e Morgan ficassem juntos, porque eles formavam um belo casal.
Ento eu apenas sorri e disse:
-Obrigada, Eric.
E sa.
Cara. E bom saber como e fcil ser substituda.
Bem, que se dane. Seth estava certo sobre uma coisa: estava muito quente dentro daquela tenda. L fora, no ar fresco, eu me sentia como se pudesse respirar novamente.
Engraado eu no ter percebido como estava quente l dentro at que Seth comeasse com seu papo de "como se voce no gostasse mais tanto de mim".
E isso no poderia ter sido mais sem propsito. Quer dizer, e claro que eu ainda gosto do Seth.
E, tudo bem, vou admitir que ele no  a melhor pessoa para se conversar Mas mesmo assim  um cara timo. Como Sidney ressaltou, ele no tinha me dado o fora apesar
de eu no querer dormir com ele. Isso era alguma coisa, certo? E, claro, talvez no me seguisse at em casa para se assegurar que eu chegasse com segurana na minha
bicicleta.
E talvez ele no oferecesse nenhum tipo de crtica artstica as minha fotografias.
Mas ele  Seth Turner! E ele  meu!
E que tipo de idiota terminaria com Seth Turner?
Foi quando eu estava pensando nisso que notei um cara que se parecia com Tommy Sullivan vindo na minha direo pelo parque. S podia ser minha imaginao fazendo
truques comigo, porque no tinha como Tommy Sullivan aparecer atrs da tenda do concurso de Princesa Quahog depois de eu ter deixado explicitamente claro que nunca
mais queria v-lo novamente.
S que quando o cara chegou mais perto, percebi que ele no apenas se parecia com Tommy Sullivan.
Ele ERA Tommy Sullivan.
E a coisa mais irritante de todas? Quando percebi isso, meu corao deu uma balanada dentro do peito.
No foi uma balanada do tipo Ah, no, Tommy Sullivan.
Foi uma balanada tipo Oba! Tommy Sullivan! E naquele momento eu soube que Seth estava certo: eu no gostava mais tanto dele. Porque eu estava total e completamente
a fim de seu inimigo mortal.
Dezessete
-Ei-disse Tommy quando chegou perto o bastante para ser ouvido, sem precisar gritar, entre os gritos de animao das crianas correndo com seus sorvetes de quahog
(eu sei, nojento) da Sorveteria Eastport-, estava procurando voce.
Eu apenas olhei para ele. Deveria ser contra a lei algum ser to bonito. Serio. Ele estava de bermuda caqui com uma camisa plo preta.
Mas no era tanto o que ele estava vestindo-e como as roupas calam bem nele-quanto... apenas ele.
Ah, Deus. Era serio.
-Eu entendi que voce no quer nada comigo-disse ele-, mas ns podemos conversar?
Eu acho que Tommy tomou meu silencio (eu estava sem palavras por causa da sua beleza divina) como um consentimento, porque ele disse: Bom.
Ento ele me pegou pela cintura e me puxou para trs de um tronco largo de um fcus, fora da viso da tenda do concurso. Eu fui junto porque... bem, o que mais voce
vai fazer quando perdeu praticamente todo o controle sobre seu corpo?
-Escute-disse Tommy assim que me encostou no tronco da arvore (o que foi legal da parte dele, ou eu provavelmente teria caldo no cho, por causa dos meus joelhos
que ficaram moles como borracha ao v-lo)-, o que aconteceu ontem a noite... eu no sei o que voce pensa que realmente esta acontecendo mas eu no voltei para Eastport
para arruinar a sua vida. Eu no posso acreditar que voc tenha at mesmo pensado isso.
Eu me peguei olhando para seus lbios enquanto ele falava. Tudo que conseguia pensar era em como foi senti-los contra os meus na noite anterior. E o quanto eu queria
agarrar a camisa dele e puxa-lo na minha direo e comear a beij-lo novamente, bem ali no Eastport Park, em frente as crianas com sorvete de quahog, e a tenda
do concurso e tudo mais.
E eu poderia ter feito isso, claro, muito facilmente, porque ele estava com um brao encostado no tronco da arvore bem ao meu lado, e estava meio se inclinando sobre
mim de uma forma muito confiante que, tenho que admitir, eu estava achando extremamente agradvel.
Mas ento-finalmente-meu crebro pegou no tranco e eu lembrei que deveria odia-lo.
-Certo-disse finalmente, com muito esforo-, ento aquele pequeno discurso sobre como eu no me entendo ou gosto de mim mesma no era para minar minha confiana,
para eu me sair mal e perder o concurso hoje?
Ele olhou para mim com uma expresso totalmente incrdula no rosto:
-O que? No. Katie...
-E aquela coisa toda de voce me beijar no estacionamento onde qualquer um poderia ter nos visto-disse eu, cruzando os braos na frente do peito.
Porque acho que linguagem corporal e importante, e eu estava com medo de que estivesse mandando os sinais errados com aquela coisa de deixa-lo se inclinar sobre
mim.
-Aquilo no era porque voce estava esperando que meus amigos me pegassem, e que meu namorado fosse me dar o fora e minha vida social fosse arruinada pelo resto do
ano?
-Desculpa, mas-disse Tommy, agora parecendo irritado em vez de incrdulo-ns estvamos no mesmo estacionamento ontem a noite? Porque, corrija-me se eu estiver errado,
voce parecia ser uma participante bem ativa dos beijos.
-Haha-falei, descruzando os braos para espetar meu dedo indicador no peito dele-, voce sabe que no tenho nenhuma resistncia a garotos bonitos em estacionamentos.
Voce me viu atr4s do gerador de emergncia com Eric. Estava se aproveitando da minha nica fraqueza, e tambm estava usando informao privilegiada. E isso no e
justo!
Enfatizei cada uma das cinco ultimas palavras com um cutuco no peito de Tommy. Ele no pareceu gostar muito disso, se a forma como ele segurou minha mo serve de
indicao.
-Voce  louca-disse Tommy-Algum dos seus outros tantos namorados ja falou isso para voce antes?
-No tente mudar de assunto-disse eu, mais do que ciente de que ele ainda estava segurando minha mo-, quero saber a verdade. Acho que tenho o direito de saber.
O que voce estava fazendo no escritrio do sr. Gatch ontem?
-Voce sabe que no posso contar isso a voce-disse ele balanando a cabea.
Porque no era da minha conta. O sr. Gatch ja tinha deixado isso mais do que claro.
-timo-falei, rangendo os dentes.
Rangendo os dentes de frustrao porque ele estava fazendo jogo duro. No porque estivesse tentando me impedir de jogar os braos em volta do pescoo dele e beija-lo
novamente. No mesmo.
-Ento apenas me diga o seguinte: o que voc realmente esta fazendo de volta em Eastport? E se no  para arruinar minha vida, ento por que voce voltou?
-Katie - disse ele, olhando para minha mo que estava segurando.
Ele parecia chateado. Realmente parecia. Como se quisesse me contar, mas simplesmente... no pudesse.
Claro que aquilo devia ser parte do teatrinho. Voce sabe o teatrinho para me fazer me apaixonar por ele, depois conseguir se vingar arrancando meu corao e espalhando
os pedaos por toda Eastport.
Mas eu tinha que dar o brao a torcer. Por que o teatrinho? Estava funcionando perfeitamente.
-Ah, que se dane-, disse eu finalmente arrancando minha mo da dele.
Mas s para eu poder jogar meus braos em volta do pescoo dele e comear a beij-lo novamente.
Ah, sim. Eu estava encostada a uma arvore no Eastport Park, beijando Tommy Sullivan atrs da tenda do concurso de Princesa Quahog. No tanto encostada a uma arvore,
mas espremida contra ela por Tommy, que no parecia ligar nem um pouco para o fato de eu ter terminado a nossa conversa tao abruptamente... sem contar a forma nem
um pouco convencional. Bem, eu acho que no teria sido convencional se fosse qualquer pessoa menos eu. Mas como era eu, bem, o que mais eu faria seno beija-lo?
E no era como se Tommy no estivesse me beijando tambm. Ele estava... e como se ele realmente quisesse aquilo, devo acrescentar. As mos dele estavam na minha
cintura, seu peito pressionado contra o meu, sua boca quente sobre a minha. No geral, era um momento realmente timo.
Tirando que foi o quanto durou. Apenas um momento, antes que Tommy levantasse a cabea e dissesse com uma voz engraada e tremula:
-Katie.
-Pare de falar, por favor-falei puxando a cabea dele para que sua boca voltasse para onde deveria ficar: sobre a minha.
Mas ele no a deixou ali por muito tempo. Para mim, pelo menos.
-Katie-disse ele levantando a cabea novamente-, e serio. Ns no podemos continuar fazendo isso.
-Por qu?-perguntei, puxando-o mais uma vez.
Mas ele resistiu!
-Porque-disse ele, firme, balanando um pouco minha cintura-ns temos que conversar.
-Conversar  valorizado demais-retruquei.
Porque, serio, conversar era a ultima coisa que eu queria fazer com ele. Especialmente quando ele estava to perto de mim, e eu podia sentir o cheiro do seu protetor
solar e sentir seus msculos e tudo que eu queria era passar minhas pernas em volta dele novamente.
-Serio, Katie-murmurou Tommy atravs do meu cabelo. E eu sentia que o cabelo escapava do penteado, por causa da casca da arvore que estava sendo esfregada contra
ele. -O que eu vou fazer com voce?
-Certo-disse eu, apesar de ser um esforo falar porque varias partes do meu corpo estavam tremendo-, sobre o que voce quer conversar?
-Ns-disse Tommy. -Eu no quero fazer isso, Katie.
-O que?-perguntei surpresa, porque ele com certeza no vinha agindo como algum que no queria fazer aquilo. -Me beijar em estacionamentos e parques?
-Exatamente-disse Tommy.-Isso pode ter sido legal para Eric Fluteley. Mas no  legal para mim. Voce deve saber de uma vez que eu no vou ser o cara com quem voc
vai ficar escondida do seu namorado. Ou eu sou o namorado, ou nada feito. Ento voc vai ter que fazer uma escolha, Katie. Sou eu... ou eles.
Estreitei meus olhos e olhei bem para ele. Basicamente, eu estava pensando em como sua boca estava prxima da minha, e como seria fcil comear a beij-lo novamente.
Mas mesmo eu, a Ado Annie de Eastport-sim, a personagem namoradeira de Oklahoma-, sabia que aquilo no resolveria nada (embora talvez fizesse felizes os pedaos
do meu corpo que estavam tremendo).
Em vez disso, tentei focar naquilo que ele tinha acabado de dizer. Fazer uma escolha. Ele ou eles.
No era a mesma escolha que eu tive que fazer quatro anos antes? Tudo bem, ns no estvamos nos beijando atrs de restaurantes e tendas de concurso naquela poca.
Mas tinha sido o mesmo problema: apoiar Tommy Sullivan e ser uma paria social para sempre por ser a menina mais inteligente da turma e por odiar os Quahogs, ou rejeitar
Tommy Sullivan e acabar jogando verdade ou conseqncia com Seth Turner?
Como algum poderia ter feito outra escolha?
S que agora... quatro anos depois... eu no podia deixar de imaginar: ser que tinha feito a escolha certa?
Ou tinha apenas feito a escolha mais fcil?
Olhei para ele. Eu no sabia o que dizer. Precisava de um tempo. Aquilo era muito difcil para decidir assim, no calor do momento.
Especialmente por causa das partes do meu corpo que estavam tremendo.
Tommy, quase como se tivesse lido meus pensamentos, levantou o dedo e tocou na pontinha do meu nariz.
-Por que voce no pensa nisso?-disse, com um trao de uma risada na voz.-Voce parece confusa. Eu vou estar na platia, se voce quiser me dizer depois do concurso
o que decidiu.
Eu olhei para ele mais um pouco.
-Voce vai... voce vai assistir ao concurso?
-Ah-disse Tommy soltando uma risada-, eu no perderia isso por nada.
-Mas-falei sem entender por que meu crebro estava digerindo aquela informao to devagar-, Seth e o meu acompanhante. Seth vai ver voce. Seth pode tentar...
-Bem, eu imagino que o sr. Gatch ter ento algo sobre o que escrever na edio de domingo, no e?
Tommy beijou minha testa, ento se virou para ir embora.
E eu percebi, enquanto isso, que ele tinha feito aquilo de novo. Realmente. Ele tinha me transformado numa massa tremula de carne de menina com seus beijos, para
que eu no pudesse pensar direito e o deixasse falar sem parar. Eu no tivera a chance de dizer a ele o que pensava a respeito dele e da sua teoria idiota de que
eu no gostava de mim ou no me conhecia. Que estava to longe da verdade, que no era nem engraado. Eu me amo totalmente. Eu no tinha me inscrito no concurso
de Princesa Quahog?
E eu nem gosto de quahogs.
-Katie?
Eu tinha me afastado uns poucos passos da arvore quando ouvi a voz horrorizada vinda da porta da tenda. Olhei na direo e vi Sidney de p, parecendo chocada.
Porque ela viu Tommy saindo.
Pior, Tommy a viu. E teve coragem de piscar. E dizer, enquanto saia:
-Como vai, Sidney?
Sidney murmurou:
-Bem, obrigada.
Ento, assim que ele deu a volta pelo lado da tenda, ela veio correndo pela grama na minha direo (os saltos estavam afundando no solo), gritando:
-Ah, meu Deus, Katie! Ah, meu Deus!
Eu sabia que o jogo tinha acabado.
E eu tambm sabia que Tommy tinha vencido. Ele tinha vencido de uma vez.
Era o fim. O meu fim.
Estranhamente, tudo que eu senti foi alivio. Bem, a no ser pela parte de Sidney me odiar. Porque a verdade e que, mesmo que ela seja totalmente superficial, Sidney
sempre foi uma boa amiga. Mandona, mas divertida.
-Sidney-disse eu-, olha, eu posso explicar...
-Ah, meu Deus-disse Sidney pela terceira vez, levantando a mo para tirar pedaos de casca de arvore do meu cabelo-, voce esta parecendo que andou dando uns amassos
com um cara encostada numa arvore. Provavelmente porque... surpresa!... voce realmente estava dando uns amassos com um cara encostada numa arvore.
-Eu sei-falei, seria-, eu sou uma pessoa horrvel. Imagino que voce v ter que contar para o Seth.
-Voce e louca?-quis saber Sidney, ajeitando um lado da minha saia que estava misteriosamente puxado para cima.-Volte para aquela tenda e bote um pouco de batom.
Eu no sei em que voce estava pensando, beijando o sr. Acampamento cinco minutos antes do momento de entrar no palco. Ele beija to bem assim? E como ele sabia meu
nome, afinal?
No podia ser. Ela no sabia. Ela ainda no sabia.
-Hein?-disse eu, enquanto Sidney pegava minha mo e me levava na direo da tenda. -Eu no sei.
-Voce no sabe de muita coisa, no e?-perguntou Sidney. -O que esta acontecendo com voce? Desde que esse cara apareceu, voce se transformou em um abacaxi. Morena
por fora, mas loura no meio. No ache que eu no notei. E como voce pode deixar Seth sozinho daquele jeito? Ele esta encurralado num canto com Jenna Hicks. Ela esta
contando para ele suas teorias sobre anarquismo social, ou algo do gnero. Voce devia saber melhor que ningum que ele no tem defesas naturais contra garotas inteligentes.
Dentro da tenda as coisas tinham se acalmado um pouco.
Agora que Morgan tinha sua resina, estava toda sorridente, olhando para Eric toda apaixonada (ei, eu conheo aquele olhar). E Eric parecia estar caindo na dela (bem,
por que ele no cairia? Se ele for o centro das atenes, ento esta timo para Eric).
E Sidney parecia ter perdoado Dave por ter escolhido a cor errada do smoking. Pelo menos parecia, pela forma como ela falou para ele que tinha me achado.
-Ah, bom-disse Dave, comendo um bolinho de quahog que aparentemente o Gull'n Gulp tinha doado para os participantes do evento.-Ei, Katie, o que aconteceu com seu
batom?
-Ela vai aplicar novamente-disse Sidney depressa, pegando minha mochila e jogando em cima de mim. -Seth, eu a achei.
Seth olhou em volta, desviando a ateno da aparente conversa profunda que estava tendo com Jenna Hicks. O que era voce sabe meio estranho, porque Seth nunca tinha
falado com Jenna quando ela tinha argolas nas sobrancelhas.
Mas que se dane.
-Ah-disse ele ao me ver.-Oi, baby.
Ele sorriu. E eu esperei. Esperei pela sensao de joelho fraco que eu costumava sentir quando Seth sorria para mim.
Acho que no deveria ter ficado surpresa quando ela no veio. Quer dizer, levando em conta tudo.
Eu. Ou eles. Foi o que Tommy tinha dito.
Mas no tinha sido esse o problema o tempo todo?
-Meninas-disse a sra. Hayes aparecendo pela porta da tenda que dava para o palco.
Ela parecia muito profissional com um vestido de noite rosa da Pulitzer, faixa de cabelo e sapatos cor-de-rosa que combinavam.
-Todos os lugares esto tomados. Agora s tem lugar para quem quiser ficar de pe. Esse pode acabar sendo o concurso de Princesa Quahog mais cheio da histria de
Eastport. Preparem-se para dar a eles a performance de suas vidas. Lembrem-se de sorrir. Srta. Hicks, voce me ouviu? Sorria. Agora. Vamos rezar?
A sra. Hayes no esperou uma resposta. Ela abaixou a cabea, ento ns abaixamos as nossas tambm. Ate mesmo os tcnicos de som, o que eu achei fofo da parte deles.
Um deles at deixou a cerveja numa mesa.
-Senhor-rezou a sra. Hayes-, por favor abenoe este concurso, e todas as participantes dele. Por favor no deixe a srta. Hicks fazer nenhuma grande besteira, e por
favor faca com que as sapatilhas da srta. Castle tenham aderncia ao cho do palco. E no deixe Bob estragar a iluminao como ele fez no ano passado. Amem.
-Amem-murmuramos ns todos, e Morgan inclusive fez o sinal-da-cruz.
-Certo, meninas-disse a sra. Hayes alegremente. - hora do Quahog!
Dezoito
Certo. Ento no estava indo, voce sabe, mal. Quer dizer, estava quente no palco com as luzes acesas sobre ns. E era estressante olhar para o mar de cadeiras dobrveis
em frente ao palco e ver tantos rostos familiares... meus pais e meu irmo entre eles. Apesar da briga que tivemos mais cedo-e do fato de ser um concurso de beleza-,
Liam no parecia muito de saco cheio.
E claro que muito disso e porque tinha uma fileira de Tiffanys e Brittanys sentadas na frente dele, e tudo que elas conseguiam fazer era dar risinhos, cochichar
e fingir que deixavam cair coisas s para poderem se inclinar para pega-las e lanar longos olhares para ele.
Serio. Eu sei que eu sou louca por garotos. Mas se eu pensasse que agi assim por causa de um-especialmente por causa de um to nojento (desculpe, mas eu j4 cheirei
os ps dele) como meu irmo-, acho que teria que me matar. Ou entrar para aquele convento episcopal que eu tenho certeza que existe em algum lugar.
Quando olhei para a platia, enquanto a sra. Hayes fazia seu discurso de abertura e explicava a histria do concurso de Princesa Quahog (dando uma nfase especial
para o ano em que ela ganhou), pude ver o marido dela, o treinador Hayes, com aparncia de satisfeito... evidentemente os testes para os Quahogs tinham corrido bem.
Ou talvez ele estivesse satisfeito com o fato de sua esposa ainda ser muito bonita, mesmo estando com quase 40 anos.
E l estavam os pais de Sidney, o sr. e a sra. van der Hoff, assim como o pal e a me de Morgan Castle, emanando orgulho. L estavam o sr. e a sra. Hicks, pais de
Jenna, parecendo nervosos (eles provavelmente sabiam do talento dela), o sr. Hicks olhando o relgio... ele teria que correr para o camarim quando fosse a hora de
acompanhar Jenna na parte do vestido de noite.
Vi outras pessoas que eu conhecia tambm, incluindo o sr. Bird e sua esposa do Eastport Old Towne Photo, e ate mesmo os pals de Seth, o sr. e a sra. Turner. No
havia sinal do irmo dele, Jake (graas a Deus), mas isso no queria dizer que ele no estivesse na feira de Eastport com os amigos e no pudesse aparecer a qualquer
momento. Muitas pessoas estavam de p no fundo, entre elas Shaniqua e Jill, que aparentemente conseguiram fugir da barraca do Gull'n Gulp por alguns minutos para
poder assistir ao concurso.
Sentado na frente delas, na ultima fileira de cadeiras dobrveis, ainda com um charuto apagado na boca-e ainda jogando pacincia-, estava o sr. Gatch.
E a seu lado estava Tommy Sullivan.
Tommy no estava jogando pacincia. Tommy estava assistindo ao que acontecia no palco com ateno, com os braos cruzados sobre o peito daquela forma que fazia seus
bceps incharem, e que fez Sidney me dar um cutuco com o cotovelo, enquanto a sra. Hayes falava, e dizer com a boca: "McGostosao".
O que era totalmente verdade (Tommy ser um Gostoso). Mas no me ajudava muito, na verdade.
Ainda assim eu estava indo to bem quanto podia esperar. Passamos pela parte introdutria, e ento houve a correria frentica para o camarim para trocar de roupa
para a parte do talento (menos eu, porque eu ia ser a primeira). Simplesmente tomei meu lugar ao piano, com calma, e toquei a minha musica. "I've Got Rhythm" e a
nica musica que sei tocar, mas toco bem, porque gosto dela. Se eu no fosse to desafinada, teria cantado tambm... "Antigos problemas com homens, eu no ligo para
isso. Voce no vai encontr-los perto de mim."
S que, obviamente, os "antigos problemas com homens" andavam sim, perto de mim. Muito perto, na verdade. Pelo menos ultimamente.
E a verdade era que eu meio que ligava para ele. Enquanto tocava, eu me peguei pensando no sobre o fato de estar tocando piano num concurso de beleza na frente
de duzentas ou trezentas pessoas. Ah, no. Eu no estava mesmo pensando nisso.
Em vez disso, estava refletindo sobre o fato de que, se Tommy Sullivan no tivesse voltado  cidade, eu nem saberia o que era problema. Seth e eu ainda estaramos
ficando toda noite, depois do meu turno no Gull'n Gulp.
E Eric e eu ainda estaramos ficando todo dia antes do meu turno.
Ento Tommy Sullivan apareceu, e foi quase como se - e isso foi a coisa mais estranha de tudo-eu no conseguisse nem pensar em ficar com outra pessoa. O que era
aquilo?
Talvez Tommy Sullivan fosse o "antigo problema com homens". Meu "antigo problema com homens".
E o problema real era que eu gostava de te-lo por perto. O que era aquilo?
Acho que pensar sobre aquilo enquanto tocava deu muita paixo a performance, porque as pessoas aplaudiram bastante quando acabei. Com vontade. As Tiffanys e Brittanys
at deram gritinhos. Eu sabia que elas estavam fazendo aquilo s para mostrar para o meu irmo que gostavam de mim, o que provavelmente no era muito inteligente
da parte delas, porque eu no estava muito bem colocada na lista das pessoas favoritas dele naquele momento. Mas que se dane. Ate escutei alguns assovios que eu
tenho certeza absoluta que vieram da direo de Tommy Sullivan.
Mas eu os ignorei, inclinei-me em reverencia, e sal do palco, para que os tcnicos de som pudessem mover o piano e Morgan pudesse fazer sua apresentao da seqncia
do sonho de Laurey.
De volta a tenda do concurso, todos disseram "bom trabalho", mas, sei l, que nada. E s uma musica no piano. Eu sabia que a verdadeira performance da noite seria
a de Morgan. No que a musica da Kelly Clarkson que a Sidney l cantar no fosse boa tambm. Mas, voce sabe...
Ns estvamos sentadas escutando as sapatilhas de ponta da Morgan baterem no cho do palco temporrio (no dava para realmente escutar a musica que ela estava danando
de onde estvamos, porque os alto-falantes estavam virados para a platia) quando Eric, que estava espiando o palco por uma fenda na tenda, apesar de a sra. Hayes
ter dito duas vezes a ele para no fazer isso, falou:
-Ah, meu Deus. Ele esta aqui.
Meu sangue se transformou instantaneamente em gelo, porque eu sabia exatamente de quem ele estava falando.
Mas Sidney e Seth e todo o resto das pessoas no sabiam.
E foi por isso que Sidney perguntou:
-Quem esta aqui?
Ela j tinha colocado sua roupa da apresentao, atrs de uns lencis que a sra. Hayes pendurou no canto da tenda para esse propsito, e estava ajeitando a calca
legging sem prestar muita ateno.
-Tommy Sullivan-disse Eric.-Ele esta sentado na ultima fila, perto do sr. Gatch da Gazette.
Houve um corre-corre louco para a fenda. Todos se moveram para ver Tommy Sullivan
Todos menos eu.
-Aquele no  Tommy Sullivan-disse Sidney quando teve a chance de ver pela fenda (s tinha espao para uma pessoa ver por vez, se voce no quisesse que a sra. Hayes
percebesse).
-Hum, me desculpe, Sid-disse Eric-, mas e sim.
-E Tommy Sullivan sim-concordou Seth-, eu reconheceria aqueles olhos esquisitos dele em qualquer lugar. Vocs lembram como mudam de cor o tempo todo?
-Mas-disse Sidney se virando da fenda em minha direo, com uma expresso de perplexidade-, aquele e o cara que a gente viu na praia outro dia. Aquele que voce disse...
Eu balancei a cabea para ela. Apenas uma vez.
No sei se ela leu o pnico em meus olhos, ou viu, atravs do tecido do meu vestido, a forma como meu corao estava batendo disparado.
Mas ela fechou a boca abruptamente e saiu do caminho para deixar Jenna Hicks olhar pela fenda.
-Aquele e Tommy Sullivan?-disse Jenna fazendo um som de quem tinha gostado. -Ele e gato.
-O que?-disse Seth, parecendo genuinamente ofendido.-Ele no  no!
-Ah, ele e sim-disse Jenna se levantando e olhando para mim e Sidney. -Vocs no acham que ele e gato?
-Ha-disse eu com dificuldade porque minha boca tinha ficado totalmente seca.
-No sei dizer. S tenho olhos para um cara-disse Sidney passando os braos em volta dos ombros largos, vestidos de azul-claro, do namorado.
Dave sorriu para ela. O olhar que Sidney me lanou por cima daqueles ombros largos doeu.
-Ha...-disse eu, ainda tentando recuperar a habilidade de falar-eu tambm.
E passei meus braos em volta de Seth.
S que ele se soltou de mim. Porque estava inquieto, andando no mesmo lugar.
-Eu no posso acreditar que ele esteja realmente de volta-dizia Seth enquanto batia o pe no cho-e que tenha aparecido aqui. Aqui, de todos os lugares! O que ele
acha que esta fazendo? Ele tem que saber que vai apanhar.
-Ei-disse eu.
E isso foi exatamente quando Morgan entrou na tenda depois do fim da sua apresentao e disse para Sidney:
-E a sua vez.
Sidney relaxou os ombros.
-Boa sorte, Sid-disse Dave dando um beijo em seu rosto-, voce vai se sair muito bem.
-Eu sei-disse Sidney, indignada, como se a idia de ela fazer alguma coisa menos do que maravilhosa nunca tivesse passado por sua cabea, e saiu da tenda.
-Dave-disse Seth, como se no tivesse ocorrido uma interrupo-, vamos ligar para os caras e falar para eles nos encontrarem aqui depois do concurso. Ns vamos dar
a Tommy uma pequena festa de boas-vindas.
-No posso-disse Dave-, voce sabe que temos que levar as garotas para comemorar quando elas ficarem nas primeiras posies.
Ele olhou para Jenna e acrescentou:
-Desculpa. Sem querer ofender.
-Sem problema-disse Jenna, amvel-, eu sei que no tenho nenhuma chance.
-As garotas podem esperar-disse Seth olhando para mim. -No podem, gata?
Eu apenas olhei para ele. Por alguma razo, estava completamente incapacitada de falar. Morgan foi quem falou algo, de trs dos lenis pendurados, onde estava colocando
seu vestido de noite.
-Vocs-disse uma voz sem corpo, parecendo enojada.-Por que no podem deixar Tommy Sullivan em paz? O que foi que ele fez para vocs?
-Todo mundo sabe o que ele fez-disse Seth.
Ele, na verdade, parecia meio chocado com a pergunta de Morgan.
-E-disse Jenna suavemente-, mas isso foi ha tanto tempo. No nono ano ou algo assim, no foi?
-E alem disso-disse Morgan de trs dos lenis-, ele nem fez isso a voce.
-Ele ferrou meu irmo-disse Seth, parecendo ultrajado. -Isso c a mesma coisa que me ferrar!
Jenna olhou para mim:
-Kate-disse ela-, voce vai ajudar aqui ou o que?
Mas eu ainda no conseguia falar. No sei por que. Eu apenas... no conseguia.
-Acho que vocs tinham apenas que esquecer tudo isso-disse Eric. -Quer dizer, no que eu tenha alguma coisa a ver com isso.
-Voc esta certo-disse Seth de maneira perspicaz. Para Eric. -No tem mesmo.
-Mas para que vocs querem procurar problemas? -quis saber Eric. -Apenas deixem isso pra l. Vocs vo viver mais.
-Acha que aquele cara pode me pegar?-perguntou Seth apontando para si mesmo, incrdulo.
-Meu Deus, Seth-disse Dave, que agora estava olhando pela fresta, mas s para Sidney-, ele esta certo. Apenas deixe pra l. Foi ha muito tempo. Certo, Sidney acabou.
Todos digam a ela que ela fez um bom trabalho.
Sidney entrou de volta na tenda meio ofegante e feliz. A se julgar pela aclamao estrondosa, ela tinha se sado melhor que bem. Nenhuma grande surpresa, sendo Sidney
perfeita e tudo mais.
-Venha se trocar comigo-disse ela, me pegando pela mo e me puxando na direo do trocador feito de lenis no canto, exatamente quando Morgan, vestindo um tubinho
branco elegante, saia dali.
-Bonito vestido-comentou Sidney, enquanto me puxava. -Cavalli?
-Armani-disse Morgan.
Sidney balanou a cabea impressionada:
-Legal.
Ento ns estvamos atrs das cortinas protetoras, e Sidney, lutando para tirar sua legging, disse em uma voz baixa:
-Katie, o que voce esta fazendo? Serio.
-No sei-respondi com sofrimento na voz, tirando o vestido e pegando o traje de noite, um vestido rosa meio bufante que Sidney me convenceu a comprar na Saks - No
sei como isso aconteceu. Juro.
-E?-disse Sidney com um sorriso amarelo-Bem, eu sei. Mas uma coisa e chifrar seu namorado com um cara que seu irmo conheceu no acampamento, e que vai voltar para
o lugar de onde quer que ele tenha vindo no fim do vero-disse ela, entrando no vestido justo vermelho que comprou na Saks no mesmo dia em que comprei o meu-, mas
e outra bem diferente chifrar seu namorado com Tommy Sullivan!
-Eu sei-sussurrei.-Acha que eu no sei disso?
-Bem, se sabe disso-disse Sidney enfiando os braos pelas mangas-, ento por que voce esta fazendo isso ?
-Voce acha que eu quero fazer isso?-sussurrei de volta.-Eu no consigo me segurar!
-Olhe-disse Sidney-, esse e o nosso ultimo ano. Temos o baile de boas-vindas... o baile de formatura... a viagem para a cidade... um monte de coisas. Esse e o ano
em que deveramos fazer tudo, ter os melhores momentos de nossa vida, construir memrias para guardar para sempre. E como vamos fazer isso se voce estiver saindo
com um homem morto? Porque e isso que Tommy Sullivan e, Katie. Ou vai ser assim que Seth e aqueles caras derem um fim nele.
-Eu sei-disse eu, cabisbaixa-, mas, Sidney, e que eu... eu... eu posso conversar com ele.
Sidney olhou para mim como se eu tivesse acabado de falar que eu gosto de comer pizza sem antes tirar o excesso de gordura do queijo com um guardanapo.
-Voce pode conversar com ele?-repetiu ela. -O que isso quer dizer?
-Bem, quer dizer, entre os beijos-falei, sabendo que ia ser impossvel explicar para Sidney.
Mas eu tinha que tentar. Tinha que tentar faze-la entender. Porque talvez, se eu conseguisse faze-la entender, eu tambm pudesse entender um pouco melhor.
-Ele fala comigo sobre... bem, coisas como minhas fotos e coisas assim. Voce sabe que Seth nunca faz isso. Seth nunca fala sobre nada. Quer dizer nada alem de futebol
americano. E comida.
Sidney arregalou os olhos cheios de maquiagem.
-Voce s percebeu isso agora?-quis saber ela.- Vocs esto namorando desde antes do ensino mdio.
Suspirei. Eu no podia acreditar que aquilo estava acontecendo.
-Eu sei-disse eu-, s acho que... quer dizer fiquei to lisonjeada quando ele me convidou (eu, de todas as pessoas) para sair. E ento eu s... voce sabe. Era simplesmente
assim que as coisas eram. Seth e eu ramos um casal. Ns estvamos juntos havia tanto tempo. Se eu terminasse com ele agora o que as pessoas iam pensar?
-Que voce cometeu um erro-disse Sidney.
-Exatamente-cochichei de volta, com dor no corao.
Sidney balanou a cabea. Ela parecia surpresa quase a ponto de desmaiar.
-Bem, o que voce vai fazer a respeito disso?
-Eu no sei. Serio, Sidney. Eu... eu no sei.
-Bem, e melhor voce descobrir-disse ela.-E rpido. Porque se no fizer isso algum vai se machucar. E eu no estou falando apenas de Tommy. Agora vire-se para eu
poder fechar seu zper.
Eu me virei. Ela fechou meu vestido. E ento disse:
-Bom. Vamos l.
E ns samos de trs dos lenis, exatamente quando a sra. Hayes entrou na tenda e, espiando Jenna, de volta da sua apresentao, com uma das mos no brao do pai,
perguntou:
-Todos esto com seus acompanhantes? Certo. Que bom. Vamos l, gente. Trajes de noite e perguntas. E... vo!
-Ei-disse Seth aparecendo ao meu lado e me oferecendo o brao-, voce esta linda, gata.
-Seth-disse eu, e ento minha garganta se fechou.
Ele olhou para mim com aqueles olhos castanhos sonolentos.
-O que?
Eu queria falar. Eu queria. Eu queria dizer algo naquele momento...
.. S que eu no sabia o que falar. E no sabia como falar.
-Meu nome  Katie-disse ento, segurando o brao dele-e no "gata", certo?
Ele ficou ainda mais confuso.
-Qual e o problema, ga... quer dizer, Katie?-quis saber ele. -Esta chateada comigo? O que eu fiz?
E eu percebi que ele estava com aquele olhar de filhote desorientado novamente.
E eu no conseguia suportar aquilo. Realmente no conseguia suportar nem mais um segundo. O "antigo problema com homens" no estava apenas rodeando minha porta.
Ele tinha fixado residncia permanente na minha vida. Eu estava no inferno.
Ento  claro que eu disse a Seth:
-Nada. No se preocupe.
Porque e isso o que eu fao.
Eu minto.
E ns entramos no palco.
Dezenove
-Srta. Castle-disse a sra. Hayes fazendo questo de mostrar que estava embaralhando os cartes onde estavam escritas as perguntas, para que ningum pudesse dizer
que alguma menina foi ajudada por receber uma pergunta mais fcil-, por favor diga a essa platia e aos nossos estimados juzes algumas caractersticas de um Quahog.
-Claro-disse Morgan, linda ao lado do seu acompanhante igualmente estonteante.
Eu no estava errada sobre Eric e Morgan: juntos eles estavam mais bonitos que os bonequinhos que ficam em cima dos bolos.
E da platia tenho certeza de que mal se podia perceber o quanto Eric estava suando sob o smoking. O suficiente para sua maquiagem comear a sair (Eric foi o nico
cara que concordou em usar maquiagem quando a sra. Hayes ofereceu, mas foi porque ele estava acostumado com isso, por causa do trabalho no teatro).
-Um quahog-comeou Morgan em voz baixa-  um molusco...
-Um pouco mais alto, querida - disse a sra. Hayes num tom muito amigvel, bem diferente do que ela costumava usar para gritar conosco no ensaio-, os juizes no conseguem
ouvi-la. E nem a platia.
-Ah-disse Morgan levantando um pouco mais seu microfone-, desculpa.
Estvamos usando microfones de prender na roupa porque os de segurar no estavam funcionando. Mas como no tinha microfones suficientes para todas ns, e nem lugar
para prend-los em nossos trajes de noite, tnhamos que simplesmente segurar nas mos os pequenos microfones e falar.
-Um quahog  um molusco, e dessa forma apresenta caractersticas que ns esperamos de moluscos, como cuspir e se enterrar na areia.
Houve um silencio desconfortvel enquanto a sra Hayes olhava para os juizes.
-Ah, espere-disse Morgan, entendendo a pergunta. -Voce quer dizer um Quahog jogador de futebol americano? Ou um quahog que as pessoas comem?
-Hum...-disse a sra. Hayes.-O primeiro, querida.
-Ah-disse Morgan tentando ganhar tempo para pensar na coisa certa a falar.
Eu me senti mal por ela. Realmente me sentia mal. Principalmente porque j no era fcil para uma pessoa que no fosse tmida subir naquele palco em frente a toda
aquela gente, com aquelas luzes fortes brilhando sobre ns e toda a presso. No que o Oaken Bucket estivesse contando com que Morgan ganhasse o concurso para que
eles melhorassem seus negcios ou algo assim.
Mas eu tinha certeza de que Morgan precisava do premio em dinheiro para comprar novas sapatilhas de ponta ou o que quer que bailarinas comprem com dinheiro de prmios.
Ainda assim, isso devia ser ainda mais difcil para ela, por ser to tmida e tudo mais.
Morgan disse algo sobre como Quahogs eram fortes e honestos (aham...), que tinha a clara inteno de agradar os juizes e pareceu ter funcionado. Ponto para Morgan.
Na verdade, dois pontos, porque sua apresentao de dana tinha sido muito melhor que qualquer coisa que o restante de ns apresentara como talento.
Ento foi a vez de Sidney, e a sra. Hayes disse:
-Srta. van der Hoff, voce pode me dizer o que  o amor verdadeiro?
Naturalmente, sua resposta teve um enfoque bblico, porque os juizes adoram esse tipo de coisa. Eles engolem essas coisas como... bem, bolinhos de quahog.
-O amor  paciente...-disse Sidney com sua voz mais sincera, a mesma que ela usava quando estava muito ocupada farreando para poder fazer o dever de casa, e dizia
ao professor que sua av estava doente e que ela (Sidney) passara a noite toda com ela no hospital-...o amor  bom.
Aham. E sim. Tente dizer isso a Seth. Ele parecia super deprimido por causa da forma como eu tinha falado logo antes de subirmos no palco. O que eu estava pensando?
Por que eu tinha sido to ma com ele? O que ha de errado comigo? Quer dizer,  verdade que Seth nunca foi a pessoa mais inteligente que conheci.
Mas isso quase nunca me preocupou. At agora.
Certo, vamos ser honestos: no at Tommy Sullivan voltar.
-...o amor no  rude. No  egosta, no se deixa chatear facilmente, no guarda rancores...
Aham. Ao contrario de Seth Turner. E a verdade  que isso  uma grande besteira. Porque Tommy Sullivan nunca fez nada a ele. Tudo que Tommy Sullivan fez foi falar
a verdade... uma verdade que precisava ser contada, porque Tommy estava certo: no era justo que Quahogs recebessem tratamento especial.
E como Jake Turner alias, foi idiota, para ficar se gabando de ter colado, e na frente de um garoto do nono ano totalmente impressionvel? Jake Turner tinha arruinado
seu prprio futuro, no Tommy.
- ...o amor sempre protege sempre confia...
Da mesma forma como Seth confiou que eu no ia ficar com outros garotos pelas costas dele. Por que eu fiz aquilo, na verdade? Quer dizer o que eu estava procurando?
Quem eu estava procurando?
Porque no  que Seth beije mal. Ele beija excepcionalmente bem.
S que no to bem quanto uma certa pessoa que me beijou recentemente. E eu no estou falado do Eric. Quer dizer, os beijos de Seth e de Eric nunca fizeram meu corao
disparar da forma como os beijos de uma certa pessoa fizeram. E nunca me fizeram ter vontade de passar minhas pernas em volta deles. E nunca me fizeram pensar neles
em outros momentos, quando eu devia estar pensando em que bebidas pegar no bar, ou onde tinha deixado meu delineador.
-...o amor no se regozija com o mal, mas se deleita com a verdade...
A verdade. Deus, a verdade. Eu nem ao menos sabia o que era a verdade mais. S sabia que toda vez que colocava meus olhos em Tommy Sullivan, tudo o que queria era
pular sobre ele.
Era verdade! Agora que Tommy Sullivan tinha voltado a cidade, ele era a nica pessoa que eu queria beijar.
- ...o amor sempre tem esperana, sempre persevera. O amor nunca falha.
Espera um minuto. Espera s um minuto E isso que e o amor? O amor  no querer beijar mais ningum alem de uma pessoa?
E ser que Tommy Sullivan era aquela pessoa? Era por isso que eu no conseguia mais suportar a idia de beijar Seth? Foi por isso que eu disse a Eric que queria
que fossemos apenas amigos?
Porque eu amava Tommy Sullivan?
No. No, isso simplesmente no era possvel. Quer dizer, Tommy Sullivan s tinha voltado a minha vida havia trs dias. Como eu podia estar apaixonada por uma pessoa
que eu no via ha quatro anos? Como podia estar apaixonada por uma pessoa que me acusou de no me entender?
Mas e se Tommy estiver certo? Quer dizer, obviamente ele esta certo. Porque... OLHEM PARA MIM. Eu estou de pe aqui com minha mo no brao de um cara, e tudo que
consigo pensar e em outro cara.
Isso e caracterstica de uma garota que se entende?
Ah, meu Deus. E verdade. Amor verdadeiro  quando voce no consegue pensar em qualquer cara a no ser um s.
O que quer dizer...
Que eu estou apaixonada por Tommy Sullivan.
-SRTA. ELLISON!
Virei minha cabea na direo da sra. Hayes. Por que ela estava gritando comigo?
-Srta. Ellison, eu fiz uma pergunta a voce-disse ela de cara feia por trs do carto que estava segurando.
Seu olhar dizia claramente: Voce estar muito enrascada quando esse concurso acabar, mocinha...
-Desculpe-falei, ciente de que meu corao estava batendo to forte dentro do peito que eu mal podia respirar.
Apaixonada. Por Tommy Sullivan. Era o que meu corao parecia estar dizendo sem parar.
-Pode repetir, por favor? A pergunta?
A sra. Hayes limpou a garganta. Ento leu:
-Por que voce, srta. Ellison, ama quahogs?
-Eu amo quahogs por causa da sua tenra suculncia -respondi automaticamente, enquanto a sra. Hayes, feliz por ver que eu tinha me recuperado, parecia mais feliz-
e eles so especialmente tenros... e... suculentos... no Gull'n Gulp...
Minha voz falhou.
Porque de repente eu entendi. Bem ali no palco do concurso.
O que eu tinha que fazer. O que eu tinha que fazer para espantar o "antigo problema com homens" de perto de mim. O que eu tinha que fazer para parar de mentir o
tempo todo, e acabar com aquele fogo para sempre.
E assim eu fiz, naquele momento.
Porque isso e outra caracterstica do amor. Sidney tinha dito:
O amor e honesto.
-Vocs querem saber?- soltando o brao de Seth-Estou mentindo.
Uma rajada de surpresa atingiu a platia. Eu vi a sra. Hayes olhar para os juizes com uma expresso desconcertada. Os juizes olharam para ela de volta chocados.
Eu sabia, bem no fundo, que tinha acabado de perder o concurso de Princesa Quahog. Mas tambm sabia, bem no fundo, que no ligava.
Porque, quer saber? Eu estava cansada de mentir. Estava cansada de ser pega em minhas mentiras. Estava cansada de manter grficos e segredos. Estava cansada de me
esconder.
Eu estava cansada e pronto.
-A verdade  - disse ao microfone de prender na roupa-que eu odeio quahogs.
Houve um som como o da platia engasgando. Mas eu no liguei.
-Eu odeio mesmo-continuei-Eu sempre odiei, desde criancinha. Eles tem gosto de borracha. Voce pode fazer o que quiser com eles. Frita-los. Fazer uma sopa. At fazer
sorvete. E eles sempre vo ter o mesmo gosto para mim. Um gosto ruim.
Eu estava rindo Eu era a nica pessoa presente que estava rindo.
Mas eu no ligava. Porque estava dizendo a verdade.
E estava me sentindo muito, muito bem.
-Hum...-disse a sra. Hayes-obrigada, srta. Ellison. Se voce puder voltar ao seu lugar agora...
-Mas essa no  a nica coisa sobre a qual eu ando mentindo-disse eu ao microfone-, porque eu odeio outro tipo de Quahogs tambm. No o molusco. O time de futebol
americano.
O que aconteceu com a platia no foi uma marola. Foi uma onda. Uma onda de choque e ressentimento. Direcionada a mim.
Mas eu no liguei. Eu realmente no liguei.
Eu me senti bem.
-Eu odeio futebol americano-disse.
Era legal ouvir minha voz-dizendo a verdade, para variar-reverberando pelo Eastport Park. E mesmo se as pessoas no gostassem muito do que eu estava dizendo, ainda
parecia algo que eu no estava acostumada a escutar: eu, dizendo a verdade.
-Odeio a forma como essa cidade age em relao a futebol americano. Eu odeio a forma como ns idolatramos os Quahogs, e por qu? Eles no salvam vidas. Eles no
nos ensinam nada. Eles apenas correm atrs de uma bola idiota. E por isso, ns os tratamos como deuses.
Agora a onda no era apenas ressentida . Era raivosa mesmo. Menos, eu notei, na ultima fileira, onde o sr. Gatch ate tinha parado de jogar pacincia, e estava olhando
fixamente para mim. Ao lado dele, o queixo de Tommy estava cado enquanto tambm ele me olhava.
-Bem-continuei-, e verdade. Nem tentem negar isso, vocs todos sabem do que estou falando. Ns deixamos os Quahogs fazerem praticamente tudo o que querem, e se uma
pessoa tenta confronta-los, como Tommy Sullivan fez ha quatro anos, o que fazemos? Ns o mandamos embora da cidade. No e?
-Srta. Ellison!-disse a sra. Hayes chegando perto de mim e tentando pegar o microfone da minha mo.
Mas eu o tirei de perto dela.
-O que ?-perguntei.
Agora minha voz no parecia mais to legal, eu notei. Na verdade, estava meio esganiada. Provavelmente por causa do fato de eu estar segurando as lagrimas.
Mas eu no estava segurando mais nada. No mesmo.
-Ns no podemos nem FALAR nada ruim sobre os Quahogs?-perguntei a platia.-Por que? Eles so deuses. Eles so apenas caras. Caras que jogam futebol americano. Caras
que cometem erros.
Eu me virei para olhar para Seth, que estava olhando para mim com uma expresso de total e completa incredulidade.
-Seth-disse eu, um pouco tremula, por causa das lagrimas-, Tommy Sullivan no arruinou a vida de Jake. Jake arruinou a vida de Jake. Jake colou, Seth. Ele colou
e foi pego, e teve a punio que merecia. A mesma punio que qualquer um de ns teria recebido se fosse pego colando. Voce tem que parar de culpar Tommy pelo que
o seu irmo fez. Me desculpe. Me desculpe mesmo. Mas e assim que eu realmente me sinto sobre isso. Nunca contei a voce antes por que... bem, acho que nunca admiti
isso nem para mim mesma. Mas e a verdade. E a verdade sobre como eu me sinto.
Seth ficou balancando a cabea lentamente todo o tempo que eu falei. E quando eu terminei, ele balanou a cabea uma ultima vez, e ento disse, com o que, se eu
no estou enganada, era absoluto desprezo naqueles olhos castanhos de filhote:
-Se isso e verdade... se  assim que voce realmente se sente, ento... ns estamos acabados, gata.
Houve um engasgo. Foi to alto que a princpio eu achei que era um engasgo coletivo da platia.
Mas ento eu percebi que tinha vindo s de Sidney.
-Eu sei-disse a Seth, minha voz um pouco tremula-, e eu sinto muito. Muito mesmo.
Eu realmente sentia. Sentia muito. Por ter continuado com aquilo por tanto tempo, por faz-lo sofrer, eu apenas sentia muito. Isso tambm no era uma mentira.
Mas Seth no parecia ter aceitado minhas desculpas. Ele andou para o outro lado do palco e ficou la com uma mo sobre o rosto, como se estivesse tentando se controlar.
Depois de um segundo ou dois, Jenna soltou o brao do pai e foi ate l dar apoio a Seth. O que eu achei que foi legal da parte dela. Se algum podia falar com Seth
sobre viver num poo negro de desespero, e tudo mais, era Jenna, que dizia ter vivido em um por anos.
-De qualquer forma-disse eu, levando a mo ao rosto para limpar umas gotas que comeavam a se formar nos meus olhos, e me virei de volta para a platia... e para
os juizes-, eu acho que o que eu estou tentando dizer e que eu no sou, nem nunca fui, o tipo de pessoa para ser Princesa Quahog. Ento e melhor vocs me desqualificarem.
Especialmente porque a verdade e que eu no sou um exemplo muito bom para a juventude de Eastport. Vocs sabem, ha quatro anos, eu...
-NAAA00000!-gritou Sidney to alto que Dave pos a mo em sua boca numa tentativa de faz-la se calar.
Ele tambm teve que segura-la pela cintura para evitar que ela pulasse sobre mim.
-Katie!-gritou ela, apesar de sua voz estar abafada pela mo do namorado-No!
-Desculpe, Sid-eu disse e me virei de volta para os juizes.
As lagrimas estavam correndo livremente agora. No havia nada que eu pudesse fazer para segura-las.
-A verdade e que-continuei-eu nao devia ser nomeada Princesa Quahog porque ha quatro anos eu fiz algo... algo de que realmente, realmente me arrependo. Eu pintei...
-AAAAAHHHHHH!!!!-gritou Sidney.
-...as palavras Tommy Sullivan e um esquisito na parede do recm-construido ginsio da Eastport Middle School.
O engasgo que veio da platia dessa vez deve ter sido escutado no espao sideral-ou pelo menos em Manhattan-, porque foi muito alto.
Apesar de eu mal te-lo escutado, porque naquele momento estava chorando to compulsivamente que nem conseguia me ouvir falar.
-Fui eu-gritei-, eu agi sozinha. E eu realmente, realmente me arrependo.
No momento em que eu disse ter agido sozinha, Sidney se calou.
Minha me, por outro lado, podia ser ouvida soltando um som agudo. O que era de se esperar porque o que eu tinha acabado de admitir iria custar a minha famlia milhares
de dlares.
Que bom que eu tinha um emprego.
Os juizes olhavam para mim sem palavras... assim como o treinador Hayes. Sua esposa j tinha se sentado no banco do piano, e estava se abanando com os cartes de
perguntas. Aparentemente, podia desmaiar a qualquer momento. O sr. Gatch, na ultima fileira, estava alegremente anotando algo em um caderninho que carregava.
Ao lado dele, Tommy Sullivan-a pessoa cuja reao ao que eu tinha acabado de admitir importava mais para mim-parecia estar congelado, simplesmente sentado olhando
para mim. Olhei para ele atravs das minhas lagrimas. Era quase, naquele momento, como se no houvesse aquele murmrio da platia entre a gente, como se no houvesse
um parque a nossa volta, como se no houvesse pais desesperados com o custo de mandar limpar uma parede inteira, como se no houvesse um irmo com muita raiva porque
a irm tinha acabado de dizer que odeia o time para o qual ele tinha acabado de ser escolhido para jogar, como se no houvesse um dono de restaurante reclamando
de eu ter acabado de dizer que eu odiava seu prato mais pedido.
Era como se fssemos apenas eu e Tommy. A forma como provavelmente deveria ter sido. Se eu tivesse sido honesta comigo mesma ha quatro anos.
-Me desculpe, Tommy-falei ao microfone, com as lagrimas rolando pelo rosto e caindo na minha saia cor-de-rosa.-Eu no queria ter feito isso. Sei que parece idiota,
considerando... bem, que eu fiz de qualquer forma. Mas eu s... bem...
Encolhi os ombros. Eu mal conseguia ve-lo, agora que as lagrimas vinham to grandes e to rpido.
-Deixa pra l.
Olhei para Sidney, que ainda estava sendo impedida de me matar por seu namorado.
-Uau-eu disse a ela, usando as costas da mo para limpar o excesso das lagrimas.-Obrigada~ Sidney. Me sinto bem melhor. O amor realmente se deleita na verdade.
Ento eu disse para os jurados e a platia:
-Desculpem por ter arruinado o concurso. Estou indo agora.
Ento deixei o microfone cair, segurei minha saia cor-de-rosa e desci do palco.
E corri ate minha bicicleta com todas as minhas foras.
Vinte
-Ento-disse Jill quando nos sentamos no parapeito olhando para a gua-voce e Seth realmente terminaram?
-Ele pediu de volta a jaqueta dele do time de futebol americano-falei, olhando para os tnis nos meus ps.
Shaniqua respirou fundo:
-Caramba!
-Tudo bem-encolhi os ombros.-Acho que tenho que tirar umas pequenas ferias de garotos por um tempo.
Jill torceu o nariz.
-Eles no so isso tudo que acham que so-disse ela, segura.-Voce vai ver. Tente viver com um.
-Eu vivo-disse eu. - Meu irmo, Liam, que agora, por sinal, esta com vergonha de ser visto comigo. Porque eu falei mal de seu precioso time... na frente do treinador.
-Eu no estou falando de irmos-disse Jill.
-E-disse eu.-Bem, eu imagino que talvez o pe de um namorado cheire menos mal do que o de um irmo.
-Eu no diria isso-disse Jill.
E ento alguns turistas entraram, e ela teve que ir pegar alguns cardpios e leva-los ate uma mesa.
-Quer dizer que seus pais realmente morreram de raiva?-quis saber Shaniqua.
-Sobre os 7 mil que eles vo ter que pagar a escola pela limpeza?-disse eu rindo. -Ah, sim, eles ficaram muito felizes. Estou de castigo at a formatura. S posso
sair para trabalhar, e tenho que dar cada centavo que ganhar para eles, ate pagar tudo.
-E sua cmera?-perguntou Shaniqua.
Encolhi os ombros novamente:
-Hasta l vista, baby.
Eu esperava que ela no notasse o tremor na minha voz. E tambm que o sr. Bird no fosse muito ranzinza para devolver meus 1.00 dlares. Alem de todo o resto, abri
o jogo com meus pais sobre a cmera tambm. Eu tinha me tornado uma verdadeira maquina de falar a verdade, afinal.
-Isso no  justo-disse Shaniqua sobre a cmera. -Voce pintou o muro ha tanto tempo! E nunca teria sido pega se no tivesse se entregado.
--disse eu.-Bem, eles no vem isso exatamente dessa forma. Embora minha me entenda. Eu acho. Um pouco.
Minha me tinha sido a pessoa que, ao voltar para casa e me achar j na cama, chorando como se meu corao tivesse sido partido (porque a verdade e que eu acho que
foi mesmo), tinha suspirado e me abraado, dizendo que nada nunca  to ruim quanto parece. Ela ate tinha falado para mim que estava orgulhosa por eu ter dito a
verdade... embora desejasse que eu no tivesse escolhido contar aquilo num local to publico.
E quando Liam entrou e quis saber se podia ir morar na casa do amigo Chris, porque ele achava que no podia agentar o estigma de ser o irmo de Katie Ellison, odiadora
de Quahogs, meu pai foi quem o mandou para o quarto.
E, talvez as coisas realmente fossem ficar bem. Quer dizer, quem precisa de amigos? Eu tinha Shaniqua e Jill.
E s Deus sabia que no precisava de um namorado. Ja tinha tido o suficiente por uma vida.
Alem disso, voce no pode ter namorados no convento episcopal. Se uma coisa como essas realmente existe.
Por sorte, Peggy no tinha ficado to chateada com a coisa dos quahogs. Quando cheguei para trabalhar no turno da manha no dia seguinte a toda a confuso do concurso
(o cara que normalmente trabalha naquele horrio tinha ligado dizendo que estava doente, sofrendo, sem duvida, de excesso de Feira da Cidade de Eastport na noite
anterior, e como eu estava mais desesperada por dinheiro do que nunca resolvi aceitar cobri-lo), ela simplesmente balanou a cabea para mim e disse:
-Lembre-me de nunca mais patrocinar outro empregado para qualquer coisa. Agora vai limpar o cho debaixo das mesas.
E isso foi legal da parte dela. Para algum que s queria se livrar do "antigo problema com homens", eu com certeza acabei caindo em uma pilha disso no fim das contas.
E, quer dizer, tudo bem. Uma mentirosa como eu no merece amigos. Um ano na Sibria social vai me ensinar uma valiosa lio sobre dizer a verdade-no s para os
outros, mas para mim mesma.
E ento, talvez, depois da formatura, se no conseguir achar um convento que me aceite, eu apenas v para a faculdade-uma faculdade s para meninas, claro-e comece
tudo novamente.
Ento quando Jill passou por mim com pressa por volta de duas da tarde e disse "alerta de Quahogs", eu morri de medo. Especialmente quando olhei e vi Sidney e Dave-
com Eric e Morgan atrs deles-parados no balco da recepcionista.
-O que voce quer que eu faca?-perguntou Jill, preocupada.
-Eles provavelmente no sabem que eu estou aqui - disse eu, com o corao batendo forte dentro do peito.
Porque eu no podia imaginar que algum deles-especialmente a Sidney-fosse querer ser visto no Gull'n Gulp se soubessem que eu tambm estava.
-Eu vou l para eles saberem que eu estou aqui. Provavelmente vo embora.
Mas quando eu cheguei perto de Sidney para perguntar se podia ajud-los, ela olhou para mim como se eu fosse uma idiota.
-Sim-disse ela-, voce pode nos arranjar uma mesa.
Eu olhei para ela:
-Sidney-falei-, eu estou trabalhado aqui hoje.
-Por incrvel que parea, eu no sou cega-disse ela. -Estou vendo.
-Bem, quer dizer, eu s pensei... que vocs ficariam mais confortveis comendo em algum outro lugar por um tempo. Porque, vocs sabem... eu estou aqui.
- por isso que ns estamos aqui-disse Dave. -Para mostrar a voce que no ficaram magoas. Certo, Sidney?
Dave deu um cutuco nas costas dela.
Sidney parecia irritada:
-Ai-disse ela, acrescentando: - o que ele disse. Sem magoas. Quer dizer, tirando o fato de voce ter arruinado o concurso e ter se feito de idiota, voce ainda e
minha melhor amiga. E, que se dane, porque eu ganhei mesmo assim, que  como deveria ser. O que voce acha da minha tiara?
Olhei para a tiara.
-Eu acho que ela e para ser usada s durante o desfile, Sidney-disse eu.
-O que? S porque o desfile acabou eu no sou mais Princesa Quahog? De jeito nenhum Certo, Morgan?- disse Sidney olhando para a segunda colocada no concurso, que
estava muito ocupada beijando Eric e no pareceu ter escutado.
-Vo para um motel-disse Sidney revirando os olhos.
Ento, me pegando pelo brao, ela se inclinou para acrescentar:
-Eu liguei para voc, tipo, umas dez zilhoes de vezes. Imagino que estava com o telefone desligado de novo, como de costume. De qualquer forma, eu queria dizer,
voc sabe... obrigada. Por no contar a eles a verdade.
Eu olhei para ela:
-Sidney. Eu contei a eles a verdade.
-Bem, no a verdade toda-disse Sidney.-Voce sabe, a parte sobre...
-Certo-completei rapidamente. -No precisa falar mais nada sobre isso.
-Bem-disse Sidney desconfortvel-, eu apenas...
-Srio, Sid-falei olhando-a bem nos olhos-, no precisa.
-Bem... Tudo certo. Eu s queria agradecer. Ento, mudando de assunto... Voc soube sobre Seth? -quis saber Sidney
Balancei a cabea. E estranho, mas quando eu ouo o nome dele agora eu... no sinto nada. Tirando, talvez, um pouco de culpa.
-No. Bem, quer dizer, recebi uma mensagem dele no meu celular. Ele quer a jaqueta de volta. Imagino que isso queira dizer que ele esta legal.
-Ele esta bem. No pode vir com a gente hoje porque saiu com Jenna Hicks-disse ela com uma cara de quem no entendia o motivo daquilo. -Aparentemente, os dois tem
muito em comum, com toda essa coisa de depresso rolando com eles no momento.
Bem-disse eu, no totalmente surpresa. A sra. Hicks, tenho certeza, estava muito feliz. Ter forcado Jenna a participar do concurso tinha dado resultados muito alem
dos seus sonhos mais loucos. -Isso c bom. Eu acho.
-E-retrucou Sidney-, acho que sim. Jenna fica bonita sem todas aquelas ferramentas horrveis no seu rosto. Um pouco. De qualquer forma, tem algum tipo de conveno
de mang na cidade, ento eles vo juntos.
-Mang...-disse eu, levantando as sobrancelhas ...e Seth?
-Bem, manga provavelmente serve para ele. Voce sabe como ele move os lbios quando le. Ento, voc sabe. Quanto menos palavras melhor. E o seu gato? Soube algo dele?
Senti minhas bochechas ficando vermelhas.
-Hum, voc esta falando do Tommy? No. No, no soube dele. Nem espero saber tambm. Ele no  meu gato.
-Por que no?-perguntou Sidney parecendo surpresa.
-Sidney-disse eu e, eu adoro ela, mesmo, mas o que ela estava pensando?-, eu admiti ontem a noite na frente dele que eu pintei Tommy Sullivar e um esquisito na parede
da nossa escola. Voc acha que ele ainda vai gostar de mim depois disso?
-Ah, que se dane-disse Sidney.-Voc c bonita. E voc , assim, inteligente. Como ele. Vocs fariam um belo casal. Ento, podemos ir para a nossa mesa agora, ou o
que? Ei...
Ela desviou o olhar de mim. E ficou com os olhos esbugalhados.
-Aquilo so turistas sentados na mesa do canto?
Jill, voltando  entrada depois de levar um casal a sua mesa, olhou por cima do ombro para a mesa do canto e respondeu ela mesma a pergunta de Sidney:
-Aqueles so os McCallisters. De Minnesota. Gente boa.
-O que turistas esto fazendo na mesa dos Quahogs? -perguntou Sidney.
-Ah, aquela no  mais a mesa dos Quahogs-explicou Jill com tranqilidade.-Nova regra do restaurante. Ns votamos. E todos ns decidimos que Katie esta certa, e
 errado dar privilgios para qualquer grupo de pessoas-disse ela, sorrindo pacificamente para Dave. -Desculpe.
-Sem problema-disse Dave, como sempre tentando evitar confuso.
-Mas...-disse Sidney, piscando algumas vezes- o que ns devemos fazer?
-Faam uma reserva da prxima vez-disse Jill dando a Sidney um beeper.-Ele vai tocar quando sua mesa estiver pronta. Quem e o prximo?
Sidney olhou para o beeper gigante em sua mo. Ento olhou para mim como se no acreditasse.
-Ela esta de brincadeira?-quis saber.
-Hum-disse eu-, no. Desculpe. Mas o movimento esta grande hoje. De mais ou menos meia hora. Tenho que voltar para minhas mesas. Ate mais tarde, gente.
Corri para atender meus clientes, incapaz de tirar um enorme sorriso do rosto. Eu no podia acreditar nisso. Sidney no me odiava! Eu ainda tinha uma amiga na escola!
Era uma pessoa, de qualquer forma... e uma pessoa muito importante para mim.
Uma pena que a chance de isso acontecer com a pessoa que eu mais queria que no me odiasse fosse zero.
Mas, serio. No tinha nenhuma chance de Tommy Sullivan me perdoar pelo que eu tinha feito. Eu tinha visto o olhar de completo choque em seu rosto quando ele soube
da verdade.
Aquele no tinha sido o olhar de um homem que estava pronto para perdoar to cedo, com certeza.
Mas tudo bem. Quer dizer, acabei de terminar um relacionamento de muito tempo. No vou entrar correndo em outro.
Mesmo um com um garoto que eu tenho certeza absoluta de que e o cara certo para mim. Porque eu no consigo parar de pensar nele. E na boca dele.
Mas isso e errado! Porque e evidente que eu preciso aprender muito sobre essa coisa de romance.
Apesar de que eu no teria me importado de ser apenas amiga de Tommy.
Se e que voce consegue ser apenas amiga de um cara cuja lngua j esteve dentro da sua boca.
Mas eu tinha completa certeza de que nunca ia ter a chance de descobrir. Podia apostar que Tommy tinha voltado a sua cidade agora, deixando Eastport-e eu-para trs.
Ento foi um choque completo quando, no fim do meu turno, eu sai do restaurante e o vi encostado no bicicletario atrs do gerador de emergncia, com cara de que
um quahog frito no derreteria na sua boca.
Vinte e um
-O que... o que voce esta fazendo aqui?-gaguejei sem conseguir me mover.
-Sua me falou que era onde voce estava-disse Tommy se levantando-e que sairia do trabalho mais ou menos a essa hora.
Como sempre ele estava incrivelmente lindo-com roupa casual, bermuda e uma camiseta apertada. O sol da tarde, que estava atrs dele, acentuava o vermelho de seu
cabelo. Eu no entanto, no conseguia ver de que cor estavam seus olhos, porque Tommy estava usando seus culos Ray-Ban.
Ele no estava sorrindo. E eu no o culpava por isso.
-Olha, Tommy-disse eu, meu corao desacelerando para algo mais prximo do ritmo normal, depois de praticamente saltar do peito quando o vi.
Mas eu estava tentando me livrar de garotos. Garotos tinham sido, afinal de contas, a raiz de todos os meus problemas. Bem, alem da inabilidade de expressar minha
opinio real sobre as coisas por medo de censura publica.
Ainda assim, se conseguisse apenas eliminar os garotos da minha vida permanentemente, talvez ficasse bem.
Embora aquilo no fosse ser fcil com Tommy Sullivan por perto, e to incrivelmente lindo.
-Eu sinto muito, de verdade pelo que eu fiz-disse.
Eu tinha suspeitado de que voltaria a ver Tommy - s que no to cedo. Ento ficara acordada a maior parte da noite ensaiando o que diria a ele.
-Eu fui burra. Eu no sei por que eu...
-Voce no fez nada-disse Tommy, seco.
Olhei para ele. Eu no tinha ensaiado nenhuma resposta para o caso de ele dizer aquilo.
-O que?
-Voce no pintou aquela parede, Katie-disse ele com a mesma voz seca. -Eu sei que no foi voce.
Espera ai. O que? Aquilo no foi nem um pouco como eu tinha ensaiado.
-E claro que fui eu-falei, rindo, incrdula. -Por que eu teria falado na frente de todas aquelas pessoas que fui eu, se no tivesse sido?
-Porque voce se sentiu culpada-disse Tommy - por no ter tentado impedir Sidney e Seth e quem mais esteve envolvido naquilo.
Meu queixo caiu. Como ele sabia?
Mas eu tinha deixado de falar a verdade por tanto tempo e sobre tantas coisas que no consegui evitar de responder com mais uma mentira.
-Isso e... lsso  ridculo-gaguejei.
Tommy parecia apenas entediado.
-Eu sei que voce estava la, Katie-disse ele-, mas tambm sei o que realmente aconteceu.
Olhei para ele. A distancia, eu conseguia ouvir o mar bater contra o muro de conteno e o grito das gaivotas. Dentro do restaurante, Sidney e Dave e Morgan e Eric
tinham conseguido a mesa, comido e sado havia horas. Sidney tinha me feito prometer que iria a praia para ficar deitada com ela perto do mar no dia seguinte, nosso
ltimo dia livre antes de comearem as aulas. Ela tinha ate convidado Morgan tambm, uma amostra de graciosidade que eu sabia ser uma conseqncia direta de ela
ser a nova Princesa Quahog.
Agora, no intervalo entre o almoo e o jantar, os cozinheiros tinham colocado o radio da cozinha na estao de msicas dos anos 1980 porque Peggy fora para casa.
Estava tocando Pat Benatar aos berros nos alto falantes.
Mas tudo que eu conseguia ouvir era minha prpria respirao.
-Do que voce esta falando?-perguntei, ignorando o aperto no corao-Como voce pode saber de tudo isso? A no ser que...
-A no ser que eu estivesse l naquela noite? Eu estava l naquela noite-disse Tommy, ainda parecendo entediado.-Eu estava com minha bicicleta, do lado do edifcio.
Vocs no me viram. Mas eu vi vocs. E eu os ouvi. E o que eles iam escrever.
-Tommy.
Meus batimentos cardacos tinham disparado novamente. Porque aquilo era horrvel. Aquilo mudava tudo. Aquilo...
-E depois que Seth fez a letra E-disse Tommy- voce pegou a lata de tinta da mo dele e escreveu...
-...esquisito terminei a frase por ele com meus olhos fechados.
-Exatamente-disse Tommy.
A voz dele estava estranha. Eu no conseguia descobrir por que. Mas mesmo tendo aberto meus olhos, no tive coragem de olhar para cima e me arriscar a ver o rosto
dele. Porque eu sabia o que a viso daqueles olhos mbar -mesmo por trs das lentes escuras-poderia fazer comigo. Para no falar de sua boca.
-Sempre me perguntei por que voce tinha feito aquilo-disse ele.-Por que voce fez aquilo, Katie?
-Por que...
Eu queria chorar de novo. Como se aparentemente eu no tivesse chorado o suficiente na noite anterior, no ombro da minha me (e, depois que ela foi para a cama,
no meu travesseiro) metade da noite. Continuei olhando para o cho.
Era hora de dizer a verdade. Toda a verdade.
-Eu no podia deixar ele escrever o que queria- disse eu.-Seth, quer dizer. Mas no podia impedir que ele terminasse o que tinha comeado. Ento peguei a lata de
tinta da mo dele e escrevi outra coisa. Ah, que importncia isso tem, afinal?
-Muita importncia-disse Tommy com a mesma voz baixa. -Sempre teve muita importncia. Para mim, pelo menos. Sempre que as coisas ficavam realmente ruins, e elas
ficaram mesmo bem ruins eu pensava no que voce tinha feito. E me perguntava por que.
-Porque voce era meu amigo-disse eu rapidamente.
As lagrimas no estavam se concentrando apenas nos meus olhos agora. Elas estavam comeando a cair. Frustrada-porque eu no queria que ele visse que eu estava chorando-,
eu me virei e me abaixei para sentar no bicicletario.
-Era isso que nos ramos?-perguntou Tommy.
E agora eu sabia o que era aquela coisa na voz dele, aquilo que eu no tinha sido capaz de dizer o que era ate agora. Era amargura.
E isso me fez gritar:
-Claro que sim! Posso ter sido uma droga de amiga, Tommy. Mas ainda era sua amiga. Eu queria fazer a coisa certa com voce. Tanto quanto eu podia fazer, com minha
capacidade limitada.
Agora a voz de Tommy era suave. Eu ainda no conseguia olhar para ele-porque estava com vergonha das minhas lagrimas. Mas pude ver seus ps se moverem para dentro
do meu campo de viso. Ele estava usando um tnis Puma preto de camura.
-Katie. Voce teve a impresso errada. Eu nunca culpei voce. Eu achei que o que voce fez foi legal... trocando a palavra para "esquisito". Eu conseguia agentar ser
um esquisito.
-Ento... por que voce saiu da cidade?-perguntei para os ps dele.
-Porque meus pais no conseguiam agentar ter um filho que era esquisito-disse ele rindo.
E, depois disso, ele se sentou no bicicletario ao meu lado-apesar de eu ainda estar tomando cuidado, evitando olhar seu rosto.
-Eles no achavam que fosse bom para mim ficar em Eastport. Queriam que eu tivesse uma boa educao, e no que ficasse o tempo todo preocupado de as pessoas pintarem
meu nome em prdios ou me baterem. Ento foram embora. Essa foi, provavelmente, a coisa certa a se fazer. Quem sabe?
Eu disse, ainda incapaz de levantar o olhar acima da linha dos joelhos dele:
-Mas ento... por que voce voltou? E no diga que no pode me contar. Porque se for assim eu vou saber que e para se vingar de mim. O que voce j conseguiu, muito
bem feito. A cidade inteira me odeia agora. Praticamente.
-Ningum odeia voce-disse Tommy, agora rindo. -Exceto Seth, talvez.
-Seth definitivamente me odeia-falei, pensando com pesar na mensagem pouco amigvel que ele tinha mandado, pedindo a jaqueta de volta.
-E, bem, Seth sempre foi um idiota-disse Tommy. -Assim como o irmo, ele quer culpar os outros pelos prprios erros.
-Mas eu fui babaca com ele-admiti com pesar. -Eu fui uma grande babaca com voce tambm.
-Voce no foi babaca-disse Tommy.-Voce s estava surtando. Com o fato de comear o ensino mdio com todos a odiando. Foi natural querer se distanciar de mim.
-Verdade?-disse, arriscando um olhar para o rosto dele, tentando descobrir o nvel de amargura.
Mas tudo o que vi foi um sorriso. Que fez meu corao balanar.
 claro, depois disso, eu no consegui parar de olhar.
-E-disse ele sorrindo-, mas voce se redimiu ontem  noite. Foi um grande discurso.
-Nem foi-falei, mordendo meu lbio inferior.
Porque eu no consegui deixar de notar que, na luz do sol da tarde, os lbios de Tommy pareciam particularmente convidativos.
O que havia de errado comigo? Por que meu corpo parecia no saber que meu crebro tinha desistido de garotos-de uma vez por todas?
-No seja to dura com voce mesma-disse Tommy, batendo seu ombro contra o meu.
Ele fez isso, eu sei, como um gesto de amigo. Ele no fez isso para fazer choques eltricos de desejo percorrerem meu corpo.
Mas foi exatamente isso o que aconteceu.
E foi por isso que parei de olhar para ele e disse o mais rpido que pude:
-Estou tirando umas ferias de garotos.
Porque eu estava lembrando a mim mesma-e ao mesmo tempo contando a ele-que contato fsico, mesmo um encontro de ombros, estava fora do cardpio.
-Srio?
Tommy definitivamente parecia surpreso agora. Tive que arriscar olhar novamente para o rosto dele, apenas para ver se ele estava realmente rindo de mim.
Ele estava.
E ainda estava to lindo quanto sempre.
Com as bochechas pegando fogo, encolhi os ombros e olhei para o outro lado novamente.
-Isso no  engraado-falei para os meus sapatos. -Voce estava certo. Tenho que aprender a me entender melhor, e, como voce disse, gostar mais de mim, antes de entrar
em mais relaes romnticas. Dizer a verdade, para variar, e um comeo. Mas ainda tenho um longo caminho pela frente.
Decidi no contar a ele a Fase Dois do meu plano... a do convento e/ou faculdade s para garotas. Melhor ir aos poucos a essa altura.
-Isso me parece um timo plano-disse Tommy.
Meus ombros murcharam um pouco. No sei por que estava to desapontada com a resposta dele. Imagino que eu no tinha pensado exatamente que ele tentaria me dissuadir
da idia.
Mas eu acho que ele pelo menos teria dito algo como: Que pena, eu ia convidar voce para sair.
Esse  apenas um exemplo do quanto eu realmente preciso tirar ferias dos garotos.
-Eu vou lhe contar um segredo, se isso for animar voce um pouco-continuou Tommy. -E sobre por que eu voltei a Eastport. Bem, uma parte do motivo. Mas isso tem que
continuar em segredo ate amanha de manha. Ento voce tem que prometer no contar.
-Certo-disse eu, instantaneamente curiosa.
Ele esticou o brao e pegou uma mochila que no cho perto da minha bicicleta. Depois de abri-la, tirou um jornal. Reconheci a logomarca da Gazette. Era a edio
de domingo: amanha.
-V at a seo de esportes-disse Tommy.
Eu fui. E fiquei chocada quando vi.
- voce!-gritei.
Porque era. Tinha uma nova coluna na parte esquerda da pagina-sobre esporte do ensino mdio. E bem ali, ao lado de onde estava escrito TOMMY SULLIVAN, estava  foto
de Tommy.
-Foi por isso que voce voltou?-gritei. -Porque o sr. Gatch ofereceu para voce a coluna de esportes do ensino mdio?
-Bem, em parte-disse Tommy-Mas voce pode ver por que eu no estou muito preocupado com esses caras... o que voce falou mesmo? Ah sim, fazendo uma festa do cobertor
comigo. No acho que o treinador Hayes, ou quem quer que seja, nesse caso, achasse boa idia que os Quahogs dessem uma surra no reprter que vai cobrir os jogos
deles o ano todo.
-Tommy-disse eu suspirando enquanto olhava para a foto.
Ele estava totalmente lindo na foto. Talvez eu a recortasse e quando estivesse partindo para o convento, pudesse olhar para aquilo e me lembrar de como era ser beijada
por ele.
-Isso... isso e realmente impressionante. E mesmo. O sr. Gatch nunca contratou ningum to novo quanto voce antes. Quer dizer, para ter a prpria coluna.
-E-disse Tommy-, isso foi um incentivo bem grande para eu voltar, admito. Meus pais no ficaram muito felizes com a idia, mas quando expliquei como isso ia ficar
bem nas minhas inscries para as faculdades, eles finalmente concordaram em me deixar tentar.
-Bem-disse eu, devolvendo a ele o papel, com relutncia-, eu, hum... Acho que eu devo ter parecido bem idiota pensando que voce estava aqui por causa de... bem,
de mim.
-No to idiota-admitiu Tommy com um sorriso, enquanto colocava o jornal de volta na mochila-, porque voce estava parcialmente certa.
Olhei para ele:
-O que voce quer dizer?
-Ah, eu quase esqueci-disse ele, ignorando minha pergunta-, estou com uma coisa que  sua.
-Minha? O que?
E ele procurou na mochila novamente e, dessa vez, tirou algo mais volumoso, embrulhado num saco de papel marrom.
-O que e isso?-perguntei, segurando curiosa. - O que...
Mas no momento que meus dedos a tocaram, eu sabia.
-Tommy!-gritei, levantando do bicicletario e pressionando a coisa na bolsa contra meu corao-No. Voce no fez isso.
Minha boca disse as palavras. Mas minhas mos, segurando a cmera junto d e mim, diziam algo completamente diferente-elas diziam: minha. Porque era como se elas
estivessem em casa.
-Voce tem razo-disse Tommy sorrindo-eu no fiz isso. Quem fez foi o sr. Gatch. Bem, ele e o sr. Bird, na verdade. Voce sabe como eles dois odeiam os Quahogs. Ah,
e aqui.
Tommy procurou na mochila e tirou um envelope que passou para as minhas mos.
-Seu dinheiro de volta. Para voce poder dar a seus pais, para pagar a limpeza.
Eu apenas balancei a cabea, maravilhada. As lagrimas tinham voltado.
Mas essas eram um tipo de lagrimas diferente das anteriores.
-Tommy-murmurei-, obrigada.
-No me agradea. E tambm no ache que voce esta ganhando essa cmera de graa. O Sr. G. espera que voce o compense tirando fotos para o jornal esse ano. Eu estava
esperando que voce fosse cobrir os jogos comigo. O que acha?
Balancei a minha cabea um pouco mais.
-Tommy... por que? Quer dizer... por que voce esta sendo to legal comigo? Depois do que eu fiz.
Ele encolheu os ombros, levantando-se do bicicletario. -Esta brincando? Sou eu que devo a voce. Se no fosse por mim, voce teria ficado numa boa posio no concurso
ontem  noite. Jenna Hicks s conseguiu ficar em terceiro lugar porque voce abandonou.
Foi ai que eu percebi algo, apesar das minhas lagrimas. Ou melhor, eu percebi que estava faltando algo. No estacionamento do Gull'n Gulp.
-Tommy-falei me livrando das lagrimas-, onde esta seu Jeep?
-Ah-disse ele, que tinha se abaixado para tirar a tranca de uma mountain bike parada ao lado da minha bicicleta-, estacionado na casa dos meus avs. Eu imaginei,
voce sabe, que se vamos sair juntos,  melhor que eu tenha uma bicicleta, para poder acompanh-la.
Fiquei apenas olhando para ele. Quando conseguiu finalmente tirar a corrente, ele se levantou e percebeu que eu o estava olhando.
-O que?-perguntou confuso-Voce no ia entrar no meu carro mesmo.
-Tommy.
Meu corao estava batendo lentamente e de forma cadenciada sob a Leica que eu pressionava contra ele. No estava vibrando. No estava martelando. Estava apenas
batendo. Tum-tum. Tum-tum.
-O que voce estava dizendo antes, sobre o motivo de ter voltado?-perguntei lambendo meus lbios que tinham ficado to secos quanto o solo sob meus ps.- Voce disse
que eu estava parcialmente certa. Que foi por minha causa.
-Ah-disse Tommy olhando para mim.-Isso.
No olhei para baixo dessa vez. Olhei bem dentro daqueles olhos ambar-dourados-verdes dele.
-Sim-disse eu. Tum-tum. Tum-tum. Enquanto uma gaivota gritava.-Isso mesmo.
-Bem, vou admitir-disse finalmente Tommy. - Eu estava curioso.
Tum -tum.
-Sobre o que?
-Se eu ainda estava ou no apaixonado por voce.
TUM TUM.
-Voce estava apaixonado por mim?-repeti. - Voce quer dizer... no nono ano?
-Voce parece chocada por ouvir isso-disse Tommy estranhando. -Acho que escondi muito bem.
-Superbem-disse eu.
Tum -tum.
E apesar de todas as minhas melhores intenes, eu me peguei dando um passo na direo dele.
-Eu no fazia idia.
-Bem, voce era bem bonita, mesmo naquela poca - ressaltou ele. -No sei se foi o aparelho ou o cabelo todo armado que me pegou.
TUM-TUM.
-Era essa a razo dos cookies de manteiga de amendoim?-perguntei, dando mais um passo na direo dele.
-Claro-disse Tommy-, meu plano era atra-la para as minhas garras romnticas com testes de conhecimento de literatura e cookies de manteiga de amendoim. Nada muito
sofisticado, mas o melhor que eu podia pensar naquela poca. Era o nono ano, afinal de contas.
Um ultimo passo, e eu estava de pe bem na frente dele, to perto que tinha que levantar o queixo para poder olhar em seus olhos. Com aqueles culos de sol, eu no
podia ver de que cor eles estavam naquele momento. Mas apostava num brilhante verde oceano.
-E?-perguntei.
Ele olhou para mim, seu olhar indecifrvel, graas aos Ray-Ban.
-E o que?
-E voce ainda esta apaixonado por mim?-perguntei.
Ele sorriu.
-Por que voce se importa? Achei que voce estivesse tirando umas ferias de garotos.
-Eu estou-falei com segurana.
Adeus, convento. Adeus, faculdade s para garotas.
-De todos os garotos menos voce.
Foi ento que Tommy tirou os culos de sol. E eu vi que os olhos dele estavam verdes brilhantes, bem como eu tinha suspeitado.
-Nesse caso-disse ele-, a resposta  sim.
Mas a verdade e que eu j tinha esquecido qual era a pergunta. Porque eu estava muito ocupada o beijando.
